Primeiro-ministro italiano alerta Salvini e Di Maio: ou se entendem ou demite-se

Conte pediu “responsabilidade” aos dois partidos que compõem o Governo, numa altura em que a Liga cresce, o Movimento 5 Estrelas perde influência e os resultados das europeias ameaçam desequilibrar a coligação.

Giuseppe Conte, primeiro-ministro italiano
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Giuseppe Conte, primeiro-ministro italiano EPA/ETTORE FERRARI

O clima crescente de hostilidade entre os partidos que compõem o Governo de Itália levou o seu primeiro-ministro a ameaçar demitir-se. Numa conferência de imprensa, na segunda-feira à noite, Giuseppe Conte exigiu à Liga e ao Movimento 5 Estrelas (M5S) que ponham um ponto final no conflito, que respeitem as obrigações impostas pela União Europeia e que “assumam as suas responsabilidades” perante o eleitorado.

“O que peço a ambas as forças políticas é que façam uma escolha e me digam se ainda querem honrar as obrigações do Governo. Têm de estar conscientes da sua tarefa. E se não for o caso, renunciarei ao meu mandato”, alertou Conte. “Se não assumirem claramente as suas responsabilidades demito-me”.

Matteo Salvini e Luigi Di Maio apressaram-se a responder ao apelo do líder do Governo, garantido o seu compromisso para com o inédito pacto alcançado no ano passado.

O líder da plataforma anti-sistema M5S escreveu no Facebook que “este é o único governo que pode servir a nação da melhora forma” e o responsável pelo partido de extrema-direita recorreu ao Twitter para afirmar que os eleitores podem contar com uma Liga “que quer andar para a frente e que não tem tempo a perder”. 

Na manhã desta terça-feira, porém, Salvini não se coibiu de, também ele, lançar um aviso à navegação. “Não é minha intenção abandonar o Governo. Mas se daqui a 15 dias nos encontrarmos a discutir as mesmas coisas, com os mesmos atrasos e adiamentos, então teremos um problema”, disse o ministro do Interior, citado pelo jornal La Repubblica.

A vitória avassaladora da Liga nas eleições europeias – 34% dos votos, o dobro das últimas legislativas – marcou um ponto de viragem no Governo de coligação, confirmando a maior preponderância de Matteo Salvini sobre Luigi Di Maio e da Liga sobre o M5S – que perdeu milhares de votos e foi obrigado a votar uma moção de confiança ao seu líder, aprovada por 80% dos militantes.

Desde essa altura que Salvini tem sido pressionado dentro do partido nacionalista e eurocéptico a assumir a liderança do Governo ou a romper com a actual coligação. O segundo cenário abriria caminho a novas eleições, que, de acordo com as sondagens, permitiriam a formação de um executivo de centro-direita, com a Forza Italia a substituir o M5S.

As constantes críticas do líder da Liga à UE também terão estado na origem do ultimato de Giuseppe Conte. O primeiro-ministro está em negociações com a Comissão Europeia para evitar que a dívida galopante italiana – 131,4% do PIB em 2017, 132,2% em 2018 e a previsão de 135,2% em 2020, segundo Bruxelas – e a violação das regras fiscais europeias resulte na aplicação de sanções ao país e pediu aos dois vice-primeiros-ministros que não interfiram nessas conversas.

“Até o mais difícil dos problemas pode ser resolvido, mas para tal é necessário um clima de cooperação de ajuda mútua”, disse Conte. “Sem estas condições é difícil fazer frente a desafios tão sensíveis.”