Análise

Savimbi teve de ir a enterrar duas vezes para se tornar apenas História

Passados 17 nos da sua morte em combate, o fundador da UNITA voltou para junto dos pais no cemitério do Lopitanga. Será agora que o MPLA se liberta do “fantasma” para permitir ao seu velho inimigo um espaço na historiografia oficial?

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A urna com os restos mortais de Jonas Savimbi foi entregue na sexta-feira à família AMPE ROGÉRIO/LUSA

Na historiografia oficial de Angola, promovida pelo MPLA, Jonas Savimbi precisava de morrer para a paz ser alcançada. E com esse objectivo, as Forças Armadas Angolanas perseguiram o fundador e líder histórico da UNITA até o matarem em combate a 22 de Fevereiro de 2002. A 4 de Abril desse ano, a paz era assinada no Luena, província do Moxico, a mesma cidade do Leste angolano onde os restos mortais de Savimbi se mantiveram enterrados durante 17 anos, e o Governo demonstrava, nessa rapidez, que o inimigo desaparecido era mesmo o único obstáculo para a pacificação.

Nesse processo de mitificação da História escrita a partir de Luanda, só dois nomes tiveram durante estes anos todos lugar no panteão dos heróis nacionais, os únicos presidentes do país até 2017: Agostinho Neto e José Eduardo dos Santos. Para Holden Roberto, o homem que só os cubanos impediram de conquistar Luanda, e para Savimbi, essa história reservou apenas o papel de vilões na grandiosa conquista da independência e da paz por parte do partido dos camaradas.

A UNITA tem, logicamente, perspectiva diferente em relação a Savimbi e a essa paz que precisava de se livrar dele para ser concretizada. Alcides Sakala, hoje porta-voz do partido do Galo Negro e na altura um dos mais próximos colaboradores do líder, garante que a paz passava pela cabeça do presidente do partido.

“Ele achava por essa altura, antes de 22 de Fevereiro, que poderíamos nos encontrar” para estabelecer a forma de iniciar “contactos exploratórios entre a UNITA e o MPLA”, garantia em 2015 Alcides Sakala, em conversa com a agência Lusa. “Tínhamo-nos separado, mas em Janeiro ele disse-se que era para nos encontrarmos e tratar desse processo”, acrescentou.

Passados todos estes anos, a História de Angola mantém-se obstinada nessa versão mplaízada de um país que precisava da morte de um dos seus líderes mais destacados para conseguir a paz ao fim de 27 anos de guerra civil. A narrativa é a dos vencedores que impedem a recuperação histórica dos vencidos para lá da sua secundarização como inimigo.  

José Eduardo dos Santos comportou-se sempre como o vencedor da guerra e “o arquitecto da paz”, como tanta vez lhe chamou a imprensa oficial, surdo aos pedidos dos vencidos para transladar os restos mortais do seu líder do anonimato de um cemitério municipal no Luena para o terreno familiar da sua aldeia, junto à campa dos pais, como era seu desejo.

Temia, provavelmente, também o MPLA que trazer os restos mortais de Savimbi para o planalto central, ainda hoje a zona de influência do Galo Negro, convocaria peregrinações, demonstrações públicas de popularidade e influência que contrastariam in loco com a narrativa oficial.

Foi preciso chegar à Cidade Alta um Presidente que não fez a guerra, João Lourenço, para se autorizar o regresso de Savimbi a casa, para ser enterrado pela segunda vez e, provavelmente, iniciar o processo de recuperação do seu lugar no centro da História do país.

E escreve-se provavelmente porque a confusão em que o processo de entrega da urna à família se viu metido mostra que a decisão do chefe de Estado não mereceu unanimidade nos corredores do poder e a forma como o ministro de Estado e chefe da Casa de Segurança do Presidente, o general Pedro Sebastião, lidou com a questão pode definir-se, no mínimo, como torpe e, no máximo, como “uma falta de respeito sem limites”, como referiu ao PÚBLICO o líder da bancada parlamentar da UNITA, Adalberto da Costa Júnior.

Alcides Sakala garantiu ao PÚBLICO que “já não é tabu falar do Dr. Savimbi, acontece normalmente, já não há aquela animosidade que havia no passado” e que esta transladação do corpo tem uma importância “grande”, porque Savimbi “merece um enterro condigno, à altura do seu papel”.

“Se alguém tinha dúvidas sobre a dimensão de Savimbi, 17 anos depois de morto, era possível com qualquer outro haver estas reacções?”, perguntou o ex-ministro da Cultura português João Soares à chegada a Angola, para assistir como convidado de honra das exéquias, citado pelo Novo Jornal. “A mobilização popular que o nome e a memória dele ainda evocam em todo o lado, mesmo em Luanda, só acontece porque era um homem ímpar. Tem um lugar incontornável na História de Angola e de África.”

Em 2002, poucos dias depois da sua morte, Maria Antónia Palla, escrevia num texto emotivo para o PÚBLICO que Savimbi, “o homem cujo corpo morto, furado de balas e coberto de moscas, a farda rasgada e descomposta, roubado das botas e do grosso anel de ouro que o identificava, vimos ser arrastado e atirado para um caixão como um animal selvagem, foi um dos últimos grandes líderes nacionalistas africanos, na linha de Senghor, Mandela ou Amílcar Cabral”. Foram precisos 17 anos para o enterrar condignamente na História.

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