“Já não é tabu” em Angola falar do fundador da UNITA

Durante anos, a família e o partido tentaram a transladação do corpo de Jonas Savimbi, mas José Eduardo dos Santos respondeu com silêncio. João Lourenço trouxe “um novo paradigma”, diz o porta-voz da UNITA.

Jonas Savimbi
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Jonas Savimbi em Luanda, em 1992 Luís Ramos/PÚBLICO/Arquivo
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Durante anos, a historiografia oficial secundarizou o papel do fundador da UNITA, diz Alcides Sakala AMPE ROGÉRIO/LUSA

“A importância desta transladação é grande”, explica Alcides Sakala, porta-voz da UNITA. Jonas Savimbi “merece um enterro condigno, à altura do seu papel”, que possa corresponder à sua “grande contribuição” para a história de Angola. Primeiro durante a luta, depois “para a institucionalização do sistema multipartidário” no país.

Durante anos, a historiografia oficial secundarizou o papel do fundador da União Nacional para Independência Total de Angola (UNITA), hoje “parece haver um consenso à volta” dele. “Já não é tabu falar do Dr. Savimbi, acontece normalmente. Já não há aquela animosidade que havia no passado”, diz o porta-voz da UNITA.

Com a transladação dos seus restos mortais do cemitério do Luena, no Leste do País, para o pequeno cemitério onde estão enterrados a mãe e o pai, bem como o sobrinho, o general Ben Ben (antigo comandante das forças armadas do partido, cujos restos mortais a UNITA conseguiu trazer da África do Sul no ano passado), cumpre-se, finalmente o desejo de Savimbi.

E não foi por falta de insistência do partido. “Durante o consulado de José Eduardo dos Santos, todos os apelos da família para que se fizesse um enterro condigno, e também do partido, foram pura e simplesmente ignorados pelo Presidente”, refere Sakala. “José Eduardo dos Santos nunca justificou a decisão, assumia-se sempre como o grande vencedor”, acrescenta.

Foi preciso chegar o novo Presidente, João Lourenço, para se sentir por parte do Governo uma mudança de perspectiva em relação ao assunto. Uma abertura para se concretizar a transladação do corpo de Savimbi, morto a 22 de Fevereiro de 2002.

“Até 2017, José Eduardo dos Santos teve dois encontros com o presidente Isaías Samakuva [que assumiu a liderança da UNITA a seguir à morte de Savimbi], enquanto o novo Presidente, desde que tomou posse, já o recebeu por três vezes. Há aqui claramente um novo paradigma, de criar uma base de diálogo mais construtiva, para reflectirmos sobre o futuro comum que temos de construir”, afirma Alcides Sakala.

“De uma forma geral, parece existir alguma convergência de pontos de vista para as grandes questões nacionais, como por exemplo o combate à corrupção, uma posição que a UNITA foi defendendo ao longo dos anos”, tal como “o combate à bajulação, ao nepotismo, o combate pela transparência, questões que fazem parte do nosso programa político”, exemplifica. Para o porta-voz do partido do Galo Negro, “é bom que haja questões transversais que interessam à sociedade e só depois existam os programas políticos”.