Opinião

Ganhou António Costa e a Europa que nos passa ao lado

Nas eleições europeias com maior participação, a urgência do momento foi entendida por muitos países. Portugal ficou para trás.

António Costa procurou nacionalizar o debate das europeias e os principais partidos foram atrás. Com uma conjuntura governativa favorável, fê-lo em grande medida por razões eleitoralistas e sobretudo porque sabe que a Europa nos passa ao lado enquanto nação.

É por isso muito pouco provável que os 69% de abstenção hoje tivessem sido menores se o discurso procurasse ir ao encontro dos temas mais urgentes e complexos na União Europeia. Temas dos quais Portugal é parte naturalmente afetada, mas pouco interessada. Prova disto é o facto de os dois melhores candidatos em espectros diferentes e que mais discutiram Europa, Paulo Sande do Aliança e Rui Tavares do Livre, não terem sido eleitos.

Outro facto está nas semelhanças de base para o projeto europeu entre o PS e o PSD. São demasiadas e, apesar da habilidade interna de António Costa em governar ao centro mesmo coligado com dois partidos de esquerda, no seio da União Europeia a realidade é outra, e requer outro tipo de pragmatismo. Fica-lhe bem mais fácil essa realidade sem alternativa nacional, com um PSD que não se soube reinventar e sem certezas se algum dia saberá. O certo é que com campanhas como esta dificilmente conseguirá cimentar o que é realmente importante. Desconfio até que muitos portugueses ainda considerem que Carlos Moedas é um comissário europeu do Partido Socialista.

Se a pedagogia europeia era carta quase impossível e fora do baralho, a política de propostas nacionais que influi nela seria o caminho natural.

O cenário do PSD não é famoso e não augura nada de bom para as legislativas em outubro, mas o CDS está perto do abismo. Assunção Cristas prometeu muito, demais (Rui Rio nisso é bem mais cauteloso), e falhou na mesma proporção. Depois dos ziguezagues constantes de Nuno Melo e a campanha à la Twitter (ainda não percebeu que o estilo não pegou cá), a ausência de identidade estratégica no partido é cada vez mais esclarecedora.

Num contexto europeu, não deixamos de ser um país sui generis mesmo no desenlace.

Com exceção da Frente Nacional em França, através de um discurso bem mais temperado durante a campanha, conseguiu-se travar os piores cenários da ascensão da extrema direita no Parlamento Europeu. Fala-se cautelosamente de uma certa vitória democrática e liberal, enquanto dois dos nossos três partidos mais tradicionais se encontram no bloco operatório. Substituindo-os não está nenhum partido de extrema-direita ou liberal, mas um já conhecido que também se tempera aqui e ali, e outro que tanto pode ter algo de bom como muito de desastroso. O PAN.  

É certo que reside no “Euro” PAN alguma da corrente ecológica da maioria dos partidos verdes europeus com bons resultados nestas eleições. Cheguei a ficar agradavelmente surpreendido com a proposta recente para a criação de vistos green em Portugal.

O problema é o resto, assim como tudo o que vem antes e depois. Com muito pouco de ecológico ou semelhante a outros partidos europeus, conforme o nome indica é um partido de animais na sua génese e até hoje procurou um certo empowerment nos animais de estimação. Mais do que adorá-los, procura elevá-los à condição de ser humano, criando uma obsessão à volta deles. Eu gosto muito de animais e tive alguns cães ao longo da vida, mas tenho alguma dificuldade em equipará-los a um filho/a; nesta linha, ainda acabam a propor um cão de raça poodle como deputado europeu daqui a quatro anos. Confiemos que não e que irão pela via ecológica que os tempos tanto aconselham.

No entanto, o que mais sobressai destas eleições e nos distinguiu pela negativa foram mesmo os níveis de abstenção. Nas eleições europeias com maior participação, a urgência do momento foi entendida por muitos países. Portugal ficou para trás. Dirão que é porque os partidos extremistas não têm força aqui. Que as pessoas se acomodaram. Que somos muito europeístas com sondagens a comprová-lo.

Duvido muito. Se assim fosse, compreenderíamos que a nossa pertença e participação na União Europeia é a maior razão do nosso desenvolvimento e que, apesar de tudo, as complexidades e dimensões que nos afetam enquanto país europeu são infinitamente inferiores a outros países.

Teríamos respondido à chamada.

Em vez disso, levámos uma lição de cidadania e democracia de quase todos os outros Estados-membros. Está na hora de começarmos a refletir sobre isto.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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