Para Ana Rita Dias, “a luta não se pode cingir às alterações climáticas, tem que ser interseccional”.
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Para Ana Rita Dias, “a luta não se pode cingir às alterações climáticas, tem que ser interseccional”. Andreia Carvalho

A luta dos estudantes por justiça climática pode ser “um novo Maio de 68”

“A luta não se pode cingir às alterações climáticas, tem que ser interseccional”, defende Ana Rita Dias, estudante de Sociologia que não faltou à greve pelo clima em Lisboa. O testemunho na primeira pessoa da jovem que acredita estar perante “um novo Maio de 68”.

“Sou a Ana Rita Dias, estudante de Sociologia na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) da Universidade de Lisboa, e juntei-me à greve porque já estava envolvida em questões ambientais. Senti que podia aprender com isto. É o único motor para podermos fazer uma mudança e tentar acordar os nossos políticos, para que abram os olhos para as alterações climáticas. Tenho vindo a todas as manifestações e às vigílias nocturnas também.

A título individual, já tinha algumas preocupações ambientais: o meu modo de vida estava de acordo com o que eu defendia — e agora ainda mais. Deixei de consumir animais e derivados, deixei de comprar em lojas em primeira mão, de apoiar a exploração.

Devíamos dar mais força ao movimento estudantil. Depois do Maio de 68, a nossa herança é podermos reivindicar, vir para as ruas, fazer a diferença. Isto pode ser um novo Maio de 68.

A luta não se pode cingir às alterações climáticas, tem que ser interseccional. Não podemos dizer ‘Ah, somos muito ecológicos’, mas depois compactuar com a exploração dos trabalhadores. As lutas estão todas aqui reunidas e os estudantes saem à rua para as reivindicar, não só face a alterações climáticas, mas também ao esgotamento de todos os sectores.

Isto demonstra que não estamos a dormir. Sempre houve a tendência para achar que os jovens são muito despreocupados com a política e que simplesmente não estão interessados. Estas manifestações não transmitem essa ideia, mostram que estamos unidos. Há aqui pessoas que são mais novas do que eu — que sou maior e já posso votar —, com 12 anos saem às ruas com os mesmos ideais que eu e com a mesma força. Estamos a lutar não-institucionalmente, nas ruas, é isso que importa. Temos aprendido muito, é sempre um companheirismo muito bonito.

Antes de me envolver no activismo, parecia que vivia numa bolha — e as pessoas ao meu lado também. Andamos todos stressados com coisas como a escola e o trabalho e vivemos sempre nessa bolha, como se nada nos afectasse. Mas só porque não nos apercebemos que estamos a sofrer com as alterações climáticas, não quer dizer que não tenham influência sobre nós ou sobre os outros

Este cartaz tem aqui escrito ‘Negacionismo Climático’, uma referência às notícias falsas que os jornalistas tentam sempre impingir e também a quem nega que existam alterações climáticas, o que é, no mínimo, interessante.

Vou ficar aqui a tarde toda e até à noite. Isto começou às 10h30, reunimos mais cedo, à tarde vamos ter actividades (música, circo, teatro) e vamos estar cá [em frente à Assembleia da República] até às 7 horas de sábado, em vigília. É bastante cansativo porque toda a gente da greve tem trabalhado imenso todos os dias e tem outras coisas da vida: faculdade, escola, frequências. Mas vale a pena: não vamos sair dali enquanto não houver a declaração do estado de emergência climática, acção política.”