Crítica

Esta história é uma armadilha, também para o leitor

Depois de uma longa ausência em Portugal, Daniel Kehlmann regressa com uma novela de suspense. Um ambiente de suspensão do real anotado num diário por um escritor de televisão. Em Devias Ter-te Ido Embora há uma proximidade com o universo de David Lynch e a literatura de Henry James. Com humor.

M. Night Shyamalan
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Kielmann/ullstein bild via Getty Images

“Faz sentido começar um novo caderno aqui em cima.” É o dia 2 de Dezembro e o escritor chegou à montanha com a mulher, Susanna (“Amo-a, e não gostaria de ter uma vida diferente. Porque estamos constantemente a discutir?”) e com Esther, a filha que acaba de fazer quatro anos. As duas vão descansar enquanto ele aproveita para – ou finge – avançar no argumento da série, uma comédia romântica à qual a mulher apenas dá crédito porque lhe serve de boa ajuda no orçamento familiar. Ela é uma intelectual, o marido não andou na universidade e isso faz diferença no modo como o casal se relaciona. Susanna não respeita o trabalho do marido, apenas o suporta.