Diabo na Cruz anunciam o fim da banda

A actual digressão de promoção ao quarto disco, Lebre, será cumprida até ao final sem a presença do vocalista e guitarrista Jorge Cruz, que escreve em comunicado: “Uma vez tive um sonho. E que sonho! Foi um sonho e pêras... Agora, chegou a hora de avançar”.

A banda estreou-se em 2009 com o EP <i>Dona Ligeirinha</i>, porta de entrada no cruzamente entre linguagens rock e a tradição popular portuguesa que definiu a sua marca identitária
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A banda estreou-se em 2009 com o EP Dona Ligeirinha, porta de entrada no cruzamente entre linguagens rock e a tradição popular portuguesa que definiu a sua marca identitária DR

Os Diabo na Cruz decidiram terminar com a banda e fazer todos os concertos da actual digressão sem o vocalista, Jorge Cruz, numa decisão de comum acordo, disse hoje à Lusa o agente da banda, José Morais.

“O Jorge já não se sentia bem a fazer o que fazia e o projecto chegou ao fim. Estava combinado que o disco [Lebre, de 2018] fazia o fecho, e depois os concertos, mas o Jorge achava que já não faz sentido fazer esse papel”, disse.

Nos cerca de 20 concertos que os Diabo na Cruz têm agendado até ao final da digressão, o guitarrista Sérgio Pires assumirá o lugar de Jorge Cruz e entra Daniel Mestre para o lugar de guitarrista.

Segundo José Morais, a decisão de terminar foi de comum acordo entre todos os músicos que integram os Diabo na Cruz: Bernardo Barata, João Pinheiro, João Gil, Manuel Pinheiro, Sérgio Pires e Jorge Cruz.

Ao PÚBLICO, o baixista Bernardo Barata confirmou que a banda cumprirá as restantes datas da digressão. “Estamos com muita vontade de partir a louça toda em palco”, afirmou, deixando para mais tarde outras declarações sobre o fim agora anunciado. Quanto a Jorge Cruz, também contactado pelo PÚBLICO, remeteu as suas considerações sobre o tema para um comunicado emitido esta quarta-feira na sua página de Facebook.

“Uma vez tive um sonho. Era um sonho que era música, mas que era música sobre música. Sobre música portuguesa”, escreve num texto em que dá conta das motivações que levaram à criação da banda em 2008. “Porque é que a música portuguesa se distanciava tanto da música portuguesa? Com que linguagem seria possível uni-la, na sua raiz, a uma vivência actual, diária, física, e a uma experiência celebratória, livre de preconceitos?”, pergunta. A resposta, ou esse “sonho”, como escreve, foram os Diabo na Cruz, banda que, nas palavras do seu vocalista, tinha “fim anunciado” desde “o ponto de partida”.

“Seria bem boa a nossa hora. Depois, daríamos meia volta, uma volta, para o festim acabar. Na hora da partida, a lebre fecharia a loja. E os novos, com saberes de outros povos, livres e minuciosos como ourives, herdariam a nossa guerra”, justifica Jorge Cruz. Neste momento, escrever, honrar o “sonho” significa “não lhe tocar” e “ter a lucidez de não lhe acrescentar mais nada”, justifica. A despedida chega algumas linhas depois. “Uma vez tive um sonho. E que sonho! Foi um sonho e pêras... Agora, chegou a hora de avançar. Até sempre meus amigos que o festim vai acabar. Fecha a loja.”

Os Diabo na Cruz revelaram terça-feira nas redes sociais que “após 11 anos de existência, irão terminar a carreira da banda no final da tour deste ano”, sem a presença de Jorge Cruz, e deixaram um agradecimento aos “fervorosos fãs da banda com quem estabeleceram um vínculo inesquecível”. Os Diabo na Cruz editaram em Outubro passado o álbum Lebre, quarto de originais da discografia e que coincidia com uma década de vida.

“Em dez anos as coisas mudaram bastante e aquilo que era muito punk rock fazer-se, agora seria redundante. Portanto tivemos que encontrar um caminho novo e foi no sentido de uma maior profundidade, um mergulho maior nas questões do interior, menos relacionadas com as cidades, [...] nas questões mais perenes sobre laços, perguntas, dúvidas, de pertença, onde é a nossa casa”, afirmou na altura Jorge Cruz, vocalista e compositor do grupo, em entrevista à agência Lusa.

Os Diabo na Cruz surgiram em 2008 para mostrar um rock embebido na música tradicional portuguesa, inspirado na tradição oral, na polifonia de vozes e ritmos de percussão rural.

A propósito de Lebre, Jorge Cruz recordou que o disco foi feito depois de uma longa e desgastante digressão, ancorada no registo anterior, Diabo na Cruz, de (2014). “Essa reflexão e esse balanço que nós iniciámos no momento de pausa a seguir à tournée levou-nos a olhar para trás, a ver o que tínhamos feito. Lançámos as nossas compilações. Olhámos para a nossa obra à procura de que acrescento lhe poderíamos trazer com um quarto disco”, referiu.

Lebre surgiu num outro contexto, diferente de há uma década. Em 2009, o álbum de estreia, Virou! (seguiram-se Roque Popular, em 2012, e Diabo na Cruz, em 2014), sublinhava uma “portugalidade estereotipada” que não era comum na música portuguesa. Hoje, “essa imagem estereotipada está em todo o lado, nas lojas de souvenirs”. “Estamos num país “folclorizado”, gentrificado, para turistas, que tem uma economia virada para esse tipo de imagem estereotipada”, lamentou.

No arranque desta nova digressão, os Diabo na Cruz actuaram em Novembro passado nos Coliseus de Lisboa e do Porto. Para os próximos meses tinham já sido anunciados concertos, por exemplo, em Junho nos festivais Rádio Faneca (Ílhavo) e Med (Loulé), em Agosto no Bons Sons, em Cem Soldos, e em Outubro no Campo Pequeno, em Lisboa, no espectáculo EA Live.

Actualizado às 17h24 com divulgação do comunicado de Jorge Cruz