Só a comunicação social é protagonista da mudança

Na política, o caminho mais fácil é ser agradável. Tal como nas redes, onde convivem os da mesma opinião, mesmo que na legião da sua pequenez.

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Miguel Manso

No actual mundo das coisas, nas sociedades em que vivemos, o papel de protagonista da mudança consistente é da comunicação social, não das redes em moda. Da direita clássica, do PSD social-democrata e com um deliberado afastamento de uma década da cena política, José Eduardo Martins coincide com o comunista Miguel Tiago, deputado até Setembro de 2018. Foi ao fim da tarde desta quarta-feira, na 11.ª edição do ciclo de debates Olhares Cruzados, do PÚBLICO e da Universidade Católica, que decorreu no auditório do jornal, em Lisboa.

“Nas redes sociais sou um produto deles, o material deles, na comunicação social eu pago, é uma função de que preciso para a cidadania, nada substitui os jornais.” Com este raciocínio dicotómico, José Eduardo Martins sintetiza uma vasta digressão iniciada com uma referência para si icónica, a do capitalismo de vigilância, do cabo ao telefone. Dito de outra forma: os oligopólios vigentes e em construção, que nos seus tentáculos são contrários e abafam a democracia liberal por despedaçarem a livre concorrência e proscreverem a liberdade. Uma versão nos tempos da Net do Big Brother de pesadelo descrito por George Orwell.

Para Miguel Tiago, os tempos com nuvens de um novo totalitarismo não são sobressalto porque não concedem um estádio de boa aventurança ao capitalismo. “Nunca vi o capitalismo bonzinho”, ironiza. Com o mesmo postulado, sentencia que as redes sociais reproduzem a cultura dominante e que a sobrevivência dos órgãos de comunicação não é alheia ao seu registo de propriedade e código de interesses. Redes e jornais retroalimentam-se.

E dá um curioso e português exemplo. A fotografia do gabinete de crise do Governo na sexta-feira, 3 de Maio, tirada pelo próprio primeiro-ministro e divulgada nas redes, foi catapultada na imprensa para o patamar de iminente crise política. Ao estilo de um pré-anúncio.

“O ardil do primeiro-ministro foi ter utilizado todos os meios”, diz o comunista. “A fotografia tem peso, era canhestra, mas como a oposição foi mais canhestra foi eficaz”, reconhece a direita desta conversa cruzada. “Foi eficaz não pelo Instagram mas pela divulgação”, retoma o antigo deputado do PCP.

"Jornalismo é memória"

“Massificou a mensagem, como ele [António Costa] queria”, concede o ex-parlamentar de há uma década da bancada laranja. “Para mim, o jornalismo é memória e quando pagas mal não tens memória”, prossegue José Eduardo Martins. É na comunicação tradicional que se revê num mundo, acentua, em que não se pára para pensar.

“É cada vez mais difícil sair das primeiras impressões, não paramos para pensar, nos tempos de crise simplificar a mensagem potencia o populismo, a resposta fácil, é um discurso moral, tudo o que a política deve rejeitar, mas os partidos políticos vão quase todos atrás”, descreve. Das redes versus comunicação social passou para outro dilema: da política ao populismo. Há similitudes nas contraposições, dado o papel de mediador que comunicação e política desempenham na intermediação entre o indivíduo e a sociedade, da sua realidade à sua esperança.

“Há interesse em que as pessoas não tenham pensamento crítico, o que temos também é o que nos dão”, avança Miguel Tiago. Com várias ressalvas. “A mensagem política tem de ser moldada ao meio [de comunicar], mas não muda o conteúdo”, prossegue: “Por haver uma predominância do contacto à distância não passa para segundo lugar o contacto directo.” Ou seja, não haverá política de plástico, afastada das massas.

“No circo em que as eleições foram convertidas, o caminho mais fácil é esconder a autenticidade, é criar figuras que sejam agradáveis”, alerta José Eduardo Martins. Tal como nas redes onde, com ajuda de logaritmo, se encontram os da mesma opinião, mesmo que na legião da sua pequenez.