Opinião

99% do mundo concorda com o cartoon de António

O cartoonista português António perdeu contra o New York Times, mas ganhou na corrida de fundo contra o politicamente correcto. António ofendeu o Governo de Israel, mas há 70 anos que o Governo de Israel ofende o mundo.

Esta semana, os estrangeiros que lêem jornais ficaram a saber que em Portugal há liberdade de expressão e de pensamento — e que nem todos fomos engolidos pelo politicamente correcto.

Essa é a única coisa boa da triste história do cartoon de António que foi publicado no Expresso e a seguir na secção de Opinião do New York Times, mas logo depois retirado com dois pedidos de desculpa. No primeiro, o Times “lamenta profundamente” o “erro de avaliação”, diz que o cartoon inclui “clichés anti-semitas”, que “é ofensivo” e “inaceitável”, que a decisão foi tomada por um editor que estava a “trabalhar sem a supervisão adequada” — e que por isso iria “dar passos para garantir que uma coisa destas não volta a acontecer”. Na segunda nota, anunciou que não voltará a publicar trabalhos do CartoonArts International.

Muitos dos que protestaram contra o cartoon disseram que o New York Times “se tornou o Der Stürmer”. Um deles foi Bret Stephens, colunista no Times, que descreveu o cartoon como “desprezível […] propaganda anti-semita”. Não sei se foi Stephens quem lançou a ideia do Der Stürmer, mas o argumento pegou como se fosse razoável comparar o cartoon de António aos abjectos cartoons do extinto tablóide nazi Der Stürmer. Basta ir ao Google. A primeira imagem que aparece é a de uma capa de 1934 que mostra um judeu a tirar sangue de crianças cristãs. Incendiário, racista e anti-semita, o jornal era um chorrilho do que hoje se chama fake news.

António critica a influência que o Governo de Israel tem sobre o actual Presidente dos EUA, Donald Trump — e ridiculariza os líderes dos dois países. O seu cartoon não é fake news, nem é anti-semita. É uma opinião em forma de desenho. Equivale a um editorial no qual o autor tivesse escrito “o Presidente Trump segue de forma acrítica, como se fosse cego, os interesses do primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu”.

A ideia não é sequer controversa. 99% do mundo concorda com António. Incluindo muitos judeus dentro e fora de Israel. Em 1975, a Assembleia Plenária das Nações Unidas aprovou uma resolução com 72 votos a favor, 35 contra e 32 abstenções a declarar o sionismo “uma forma de racismo e uma discriminação racista”. “Foi um ponto historicamente baixo na turbulenta relação entre as Nações Unidas e o seu Estado-membro Israel”, escreve Michael Brenner no livro In Search of Israel – The History of an Idea (Princeton University Press, 2018). Brenner, respeitado especialista em sionismo e professor de História e Cultura Judaica, também lembra que em 1982 a Assembleia Geral da ONU declarou Israel como não sendo um peace-loving member state, “questionando o seu direito a continuar a ser membro da ONU, tendo em conta que o artigo 4 da Carta das Nações Unidas diz que a organização recebe todos os peace-loving states”.

Desde 1948, só o Conselho de Segurança aprovou mais de 80 resoluções nas quais o mais suave que diz é que Israel é uma “força ocupante” que viola o Direito Internacional. Em 2017, depois de Trump ter anunciado que ia mudar a embaixada norte-americana de Telavive para Jerusalém, o Egipto propôs ao conselho uma resolução a “lamentar decisões recentes relativas ao estatuto de Jerusalém”. Os EUA vetaram e os outros 14 membros votaram a favor.

É também Brenner quem lembra que o historiador Tony Judt, judeu e fervoroso sionista na juventude, acabou a defender, já homem maduro, que “Israel tornou-se na maior ameaça à sobrevivência dos judeus desde o fim da II Guerra Mundial”. A sua ideia era simples: como os judeus são sempre identificados com a política do Governo israelita, quer gostem ou não dela, “todos os judeus são reféns das acções de Israel”.

Esta é uma questão difícil, por razões óbvias, mas uma coisa é ser anti-semita, outra é ser anti-sionista ou, ainda mais simples, discordar do Governo de Netanyahu. Seguir o caminho do politicamente correcto nas relações internacionais, é concordar que não devemos fazer uma sátira com o ditador da Guiné Equatorial para não corrermos o risco de ofender os 1,3 mil milhões de africanos.