Máquinas que jogam à bola e um robô que ensina língua gestual

Em Gondomar, há por estes dias robôs para todos gostos, de todos os tamanhos e feitios, construídos e programados por alunos do básico, secundário e ensino superior.

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Alguns robôs construídos e programados por alunos do básico e secundário INESC TEC
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Um dos percursos de competição para as máquinas INESC TEC
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O evento decorre pela primeira vez no Pavilhão Multiusos de Gondomar INESC TEC
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É cor-de-rosa e branco, com algumas partes em preto. Tem o aspecto do típico robô, mas também se parece com um humano: tem braços, pernas, nariz, boca e um coração, e todos estes elementos desempenham um papel importante para que cumpra a função para o qual foi criado: ensinar a língua gestual.

A equipa de Fabiana Luiz, Carolina Cavaco, Maria Luís Costa, Eleonor Silva e David Antunes, todos alunos do 6.º, 7.º, 8.º e 10.º ano no Agrupamento de Escolas S. Gonçalo, em Torres Vedras, é a responsável pela concepção de Tupi, um robô que luta pela inclusão.

A máquina desenvolvida pela equipa tem como principal função ensinar a língua gestual a qualquer um que a queira aprender. “Queremos apelar à aprendizagem da linguagem por todos e que se comece a colocar a língua gestual como uma disciplina extracurricular nas escolas”, explica Carolina Cavaco. 

Estes e muito outros robôs, de todos os tamanhos e feitios e para todos os gostos, podem ser visitados por estes dias no Festival Nacional de Robótica 2019. O evento, que nasceu em 2001 para pouco depois ser apadrinhado pela Sociedade Portuguesa de Robótica, acontece todos os anos numa cidade portuguesa diferente. Esta é a primeira vez em que Gondomar é o palco do festival. 

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A equipa do Agrupamento de Escolas de São Gonçalo responsável pela programação e construção de Tupi

Do Algarve até Bragança, com a promessa que um dia poderá vir a realizar-se nos Açores, o festival que dura até Domingo inclui várias provas de robótica e tem como participantes mais frequentes alunos do básico e secundário – os chamados juniores – e equipas de universidades – os seniores.

“Algumas provas nasceram cá, idealizadas por nós, mas outras fazem parte de competições internacionais que nós adaptamos ao nosso evento. Este ano temos cerca de 80 equipas de juniores e 30 de seniores em competição”, explica ao PÚBLICO um dos organizadores do evento e docente na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP), António Paulo Moreira.

Para os seniores, existem sete tipo de competições: Futebol Robótico Médio, Liga de Simulação 2D, Liga de Simulação 3D, Condução Autónoma, [email protected], [email protected] Life e FreeBots. 

São também sete tipos de competição que fazem parte da competição júnior – Futebol Robótico Júnior, Busca e Salvamento Linha, Busca e Salvamento Labirinto, Busca e Salvamento Simulação, FreeBots Júnior, First Challenger e OnStage.

PÚBLICO - Alguns dos robôs que participam nas competições do Festival Nacional de Robótica
Alguns dos robôs que participam nas competições do Festival Nacional de Robótica INESC TEC
PÚBLICO - Uma das "arenas" de competição
Uma das "arenas" de competição INESCT TEC
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Um robô e uma causa

Os alunos responsáveis pela programação e construção de Tupi ganharam o gosto para a robótica numa disciplina obrigatória que têm na escola, mas a paixão cresceu quando perceberam que podiam juntar-se ao Clube de Robótica de São Gonçalo. 

Há vários anos que participam em campeonatos e vão sempre a concurso com uma peça que possa ajudar a sociedade de alguma forma. A ideia da língua gestual já tinha nascido, mas ganhou asas com a chegada de Fabiana Luiz ao grupo. Os seus pais são ambos surdos e aprender a língua gestual era a única forma de conseguirem comunicar. 

“Quando descobri que estavam a fazer um robô para ensinar língua gestual pedi aos meus pais se podia participar, eles disseram que sim e aqui estou”, explica a aluna.

Se tudo funcionar bem, estão confiantes que podem vencer a competição de domingo. Até lá, vão continuar com testes e experiência para que nada na actuação do robô falhe “porque a causa é importante”. 

“Em vez de serem só os surdos a aprender, devíamos saber todos a língua deles para podermos comunicar melhor. Só queremos é fazer isso de forma divertida”, conclui Maria Luís Costa com um sorriso.

Um jogo de futebol diferente

Do outro lado do pavilhão, há uma plateia incerta a assistir ao jogo de futebol robótico. Incerta porque de cada vez que a bola entra numa das balizas, independentemente da equipa, o público grita “golo” em uníssono. 

A equipa de Cláudia Rocha, os 5DPO, acabou de sair de campo. No seu tempo livre, a investigadora do INESC TEC, no Porto, participa, juntamente com colegas e alunos da FEUP, neste tipo de competições.

“A ideia é os robôs jogarem futebol de forma autónoma, sem intervenção humana. Previamente fazemos a programação, definimos as técnicas consoantes a jogada. Um ataque é sempre diferente de uma defesa em termos de programação”, explica, em conversa com o PÚBLICO.

As regras do jogo não variam muito do futebol tradicional. O objectivo é marcar o máximo de golos à equipa contrária e defender a própria baliza. Há um guarda-redes, uma bola, e até um árbitro que, para contrastar com o cenário, é humano e tem a função de apitar de cada vez que existe uma falta ou um fora de jogo. Há cartões vermelhos e amarelos e existe um suplente para substituir um dos cinco jogadores em campo.

No entanto, o futebol robótico tem algumas particularidades. “As máquinas têm duas rodinhas para segurar a bola, mas não a podem segurar mais de três metros, têm obrigatoriamente de a passar a um colega. O mesmo acontece antes de seguirem para a baliza”, explica António Paulo Moreira, o professor da FEUP, que também é coordenador dos 5DPO.

O jogo em si exige uma combinação de conhecimentos de electrónica, mecânica e programação com que os 5DPO já estão familiarizados. No entanto, Cláudia Rocha confessa que se neste tipo de competições existem sempre problemas técnicos que têm de ser resolvidos na hora.

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O campo onde acontecem os jogos de futebol robótico INESC TEC

“Uma das vantagens deste tipo de eventos é conseguirmos ver o que é que as outras equipas andam a fazer. Podemos ver coisas que nem pensaríamos fazer ou funcionalidades que nunca pensámos implementar”, diz a investigadora. 

É também neste festival que se apuram os participantes do RoboCup. O vencedor em Gondomar irá representar Portugal nas duas competições de robótica, uma mundial e outra europeia, que reúnem as melhores equipas de cada país, e onde Portugal tem apresentado um historial de sucesso. 

Enquanto a hora do anúncio dos vencedores de todas as categorias não chega, há quem fique toda a noite a treinar no pavilhão multiusos de Gondomar. “Está aberto a noite toda e algumas equipas mais velhas aproveitam e fazem noitadas para terem os campos de treino de robôs livres. Vale tudo”, remata António Paulo Moreira.