Bohemian Rhapsody foi só o início: Hollywood descobriu um filão musical

Elton John, Aretha Franklin, Bruce Springsteen, David Bowie, Mötley Crue, Keith Moon (e até Celine Dion). Depois de Freddie Mercury, todos eles terão filmes centrados em si ou na sua música.

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Rocketman contará a história de Elton John num filme que o cantor acompanhou em todos os passos DR

Que os super-heróis têm sido nos últimos anos um verdadeiro maná para os grandes estúdios cinematográficos, é evidência e preguiça que não escapam a ninguém, dada a cadência interminável com que são anunciados novos filmes com os super-heróis que já todos conhecem, com super-heróis outrora reservados a culto nas páginas da BD ou com super-heróis agrupados em parelhas de que ainda ninguém se tinha lembrado. Pode ser, porém, que esteja em curso nova invasão. De mais super-heróis, é certo, mas estes de carne e osso e sem outro superpoder para além da capacidade de se tornarem lendas através de palcos e discos. Por outras palavras: depois de Bohemian Rhapsody, estará em curso uma invasão de biografias musicais?

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Que os super-heróis têm sido nos últimos anos um verdadeiro maná para os grandes estúdios cinematográficos, é evidência e preguiça que não escapam a ninguém, dada a cadência interminável com que são anunciados novos filmes com os super-heróis que já todos conhecem, com super-heróis outrora reservados a culto nas páginas da BD ou com super-heróis agrupados em parelhas de que ainda ninguém se tinha lembrado. Pode ser, porém, que esteja em curso nova invasão. De mais super-heróis, é certo, mas estes de carne e osso e sem outro superpoder para além da capacidade de se tornarem lendas através de palcos e discos. Por outras palavras: depois de Bohemian Rhapsody, estará em curso uma invasão de biografias musicais?

A questão tem sido colocada desde que o filme biográfico dedicado a Freddie Mercury e aos seus Queen se transformou num inesperado e enormíssimo sucesso de bilheteira global (800 milhões de euros), arrastando quatro Óscares pelo caminho. E voltou a ser colocada, com redobrada insistência, quando aos números e aos prémios do filme protagonizado por Rami Malek se juntaram os anúncios de novas produções. Rocketman, que acompanha a ascensão do jovem Elton John na década de 1970, terá estreia mundial a 16 de Maio, no Festival de Cannes (o realizador é Dexter Fletcher, que já fora o homem por trás das câmaras em Bohemian Rhapsody, após o despedimento de Bryan Singer).

A música de Bruce Springsteen, por sua vez, será central a Blinded by the Light, adaptação cinematográfica do livro de memórias do jornalista britânico de origem paquistanesa Sarfraz Manzoor, em que este, recuando a 1987, dá conta da importância determinante que as canções de Springsteen tiveram na sua vida enquanto jovem imigrante (realizado por Gurinder Chadha e com estreia marcada para Agosto, o filme arrebatou o público do Festival de Sundance, de onde saiu com os direitos de distribuição global adquiridos pela New Line por 15 milhões de dólares, o maior valor ali investido este ano por uma produtora).

Para o ano, também em Agosto, chegará por sua vez Respect, o filme biográfico que a morte de Aretha Franklin tornou mais urgente – Jennifer Hudson será a Rainha da Soul, Liesl Tommy realizará.

Àqueles três soma-se o próximo projecto de Danny Boyle, Yesterday, filme dos Beatles, mas sem os Beatles – o dilema de um músico num mundo em que ninguém, para além dele, sabe da existência uma certa banda de Liverpool (estreia-se no final de Junho). E falta referir Stardust, ainda em produção, em que Johnny Flynn encarnará um David Bowie a caminho de Ziggy Stardust durante a sua digressão americana de 1971, e Dirt, o filme biográfico dedicado à banda ícone do hair-metal da década de 1980, os Mötley Crue, que chegou recentemente ao Netflix.

A lista, porém, não fica por aqui: podemos acrescentar que há um filme inspirado em Celine Dion a caminho (intitula-se The Power of Love e é uma produção da francesa Gaumont), que Roger Daltrey tem finalmente encaminhado o seu projecto antigo de dar corpo à vida do seu velho companheiro nos The Who, o baterista espalha-brasas Keith Moon, e que Alice Cooper, vendo tudo isto a acontecer à sua volta, não se conteve. Em Fevereiro, declarou à NME que a sua vida daria um biopic perfeito – e já tem na cabeça o actor que quer para o representar no grande ecrã: “Disse ao Johnny Depp que, se fosse um pouco mais bonito, seria perfeito para o papel.”

O biopic é o novo western?

O cinema e a música, especificamente o rock’n’roll, têm uma longa história conjunta que recua a Elvis Presley, a Cliff Richard ou aos Beatles, quando a tela serviu de novo palco para a popularidade daqueles artistas. Essa história continuou a ser escrita ao longo dos anos – Richie Valens e Buddy Holly, depois Tina Turner, ou, já neste século, Ray Charles, Johnny Cash e Ian Curtis, entre muitos outros, tiveram direito a filme biográfico. Porém, o sucesso planetário de Bohemian Rhapsody, bem como o muito respeitável sucesso anterior de Straight Outta Compton, o filme de 2015 em que F. Gary Gray contou a história da seminal banda hip-hop N.W.A., parecem estar a ponto de transformar aquilo que era um acontecimento ocasional num filão a explorar avidamente tanto pelos estúdios como pelos possíveis biografados.

Esta semana, no podcast Music Now da Rolling Stone, Brian Hiatt e Andy Greene afirmavam que os Queen são neste momento mais famosos do que alguma vez o foram nos Estados Unidos, com as principais rádios do país a passarem Bohemian rhapsody, canção editada em 1975, como se fosse um dos maiores êxitos do momento. Explicavam que filmes como o que valeu surpreendentemente a Rami Malek o Óscar de Melhor Actor conseguem reunir tanto aqueles que são atraídos pela nostalgia como um público jovem curioso pelo que ali descobrirá.

Numa analogia curiosa, Andy Greene assinalava que “estes filmes são como os westerns nos anos 1940”, retrato de uma era apelativa e romântica do passado, de “um mundo excitante e antigo povoado por heróis e vilões”. Esta é parte da equação – e a razão pela qual, debaixo dos vídeos de concertos dos Mötley Crue que encontramos no YouTube, em que estes exibem toda a sua extravagância de napa e spandex enquanto protagonizam o absurdo excesso típico do hard-rock dos anos 1980 (incluindo o baterista Tommy Lee suspenso em estrutura rotativa como em feira popular), podemos ler comentários de adolescentes a lamentarem não ter podido testemunhar tamanha grandeza, tamanho sentido épico.

A outra parte da equação prende-se com a evolução da indústria musical e, em paralelo, com o natural apetite das grandes produtoras cinematográficas pelo seguro. “Os filmes vendem a música, e a música é uma ferramenta de marketing para o filme”, comentava Wendy Ide, crítica de cinema do Observer, num artigo do Guardian datado de Fevereiro.

Num meio hoje dominado pelas plataformas de streaming, uma biografia musical reacende a paixão dos fãs antigos, que voltarão a comprar discos e bilhetes para concertos das bandas respectivas, e chama novos admiradores de novas gerações, que procurarão aquela nova velha música online (alguns comprarão um par de reediçoes em vinil), sendo também atraídos para os concertos e integrando a audiência que, como no caso de Bohemian rhapsody nos Estados Unidos, transforma uma canção com 44 anos num êxito massivo de 2019.

Numa longa reportagem publicada na Vanity Fair no início do mês, Dexter Fletcher confessava que era uma incógnita para todos os envolvidos o impacto que teria o filme centrado em Freddie Mercury: “Não existe uma fórmula exacta. Portanto, quando se estreou e se portou tão bem, pensámos: ‘bem, isto prenuncia algo de bom para nós’. Há apetência para este tipo de filmes no mundo.” No mesmo artigo, Tim Bevan, co-director da Working Title, a produtora britânica responsável por Yesterday, mostra-se convicto de que vivemos um momento de atracção mútua entre o cinema e a música. Não no sentido de um desejo de complementaridade estética ou de progressão artística. Algo mais prosaico.

Tal como nos blockbusters de super-heróis, para os quais os espectadores são atraídos pela familiaridade com os protagonistas, nascida da BD ou de filmes anteriores, os filmes com a música no seu centro, como estes que se anunciam, têm um grande trunfo a seu favor: “Têm algo que as audiências já conhecem, que é a música. Com as canções que já conhecemos, a ligação é imediatamente afectiva”, diz Bevan. E este pormenor – as músicas que já conhecemos – é decisivo.

Novos (velhos) super-heróis

Andre 3000, um dos génios por trás dos Outkast, a muito influente banda hip-hop nascida em Atlanta, alimentou durante anos o desejo de dar ao mundo um biopic de Jimi Hendrix. As constantes desavenças com a família do lendário guitarrista, que foi vetando qualquer guião que fugisse a um retrato angélico, despido de qualquer controvérsia – uma atitude completamente irrealista e inconsistente com a vida de Hendrix, portanto –, levaram a que, quando Andre 3000 encarnou por fim o seu herói, o tenha feito num filme, Jimi: All is By My Side, em que não se ouviu uma única canção original do autor de Purple haze – o que terá certamente contribuído para que tenha passado relativamente despercebido.

Ora, esse não é o paradigma da febre musical no cinema pós Bohemian Rhapsody – já podemos chamar-lhe febre? Aos músicos não só interessa que a sua música esteja presente no grande ecrã, como interessa também envolverem-se na produção o quanto baste para assegurar que é a sua versão da história que será contada.

Em Bohemian Rhapsody, com Brian May e Roger Taylor, respectivamente guitarrista e baterista dos Queen, como produtores e supervisores, isso resultou numa versão de Freddie Mercury que omite a bissexualidade, traço determinante da sua vida. No caso de Dirt, por sua vez, o mote “sexo, drogas e rock'n'roll” que faz a lenda dos Mötley Crue em todo o seu excesso, machismo e decadência, foi um tópico que a banda quis tornar central no seu filme.

Veremos o que sairá de Blinded by the Light, que tem a bênção e que terá as canções de Bruce Springsteen. Aguardemos pelo Elton John encarnado por Taron Egerton em Rocketman – com supervisão do próprio, ou não fosse sua a produtora original do filme, ou não saísse o filme meses antes do lançamento, em Outubro, da sua autobiografia, Me. E como encontraremos Aretha no grande ecrã? E como será esse mundo sem memória dos Beatles, mas com as suas canções? – McCartney, Ringo, Yoko Ono e Olivia Harrison aprovaram o guião.

No meio de todos estes filmes, apenas Stardust não terá canções do biografado, dada a recusa da família de David Bowie em cedê-las. Não é essa ausência que fará dele um mau filme – Velvet Goldmine, hoje com estatuto de clássico, também não a tinha. Mas não é disso que falamos quando falamos do filão de música no cinema que Bohemian Rhapsody parece ter revelado. Neste filão, estúdios e produtoras estão à procura de velhos super-heróis, retratados enquanto jovens, a exibirem, em tempos heróicos do passado, os poderes que os transformaram naquilo que são.