Viseu ganha pólo arqueológico com miradouro para o passado

Município aprovou esta quinta-feira o regulamento do pólo arqueológico, que vai funcionar na Casa do Miradouro. Organismo conta com a colaboração da Direcção-Geral do Património Cultural

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O pólo arqueológico cumpre, de certa forma, um sonho de José Coelho, com cem anos Adriano MIranda

Viseu quer entrar no mapa da investigação arqueológica, chamando até si investigadores nacionais e internacionais que possam dar novas luzes à história de um concelho onde há vestígios que nos permitem viajar até há mais de 2500 anos atrás. Esta quinta-feira foi aprovado o regulamento que “carimba” o Pólo Arqueológico de Viseu, organismo que funcionará desde logo como reserva municipal de salvaguarda do património, mas que pretende ir mais longe.

“Com o pólo nasce uma nova competência que tem uma força normativa importante. Este serviço passará a concentrar todas as informações sobre as intervenções arqueológicas no concelho, participando obrigatoriamente na definição dos planos de trabalhos promovidos pelo Município. Isto é novo e aumenta os instrumentos de salvaguarda patrimonial, designadamente no centro histórico”, revela Jorge Sobrado, vereador da Cultura. 

Este serviço poderá ainda acompanhar outros trabalhos arqueológicos, públicos e privados, sendo também uma porta aberta ao aconselhamento. “Não subtrairá as competências do Estado, mas potenciará o seu exercício no terreno”, ressalva o autarca, destacando a “cooperação estreita” entre a autarquia viseense e a Direcção Geral do Património Cultural e a Direcção Regional de Cultura do Centro, que já manifestaram o seu apoio e parecer favorável à criação deste pólo.

“Este é um excelente exemplo de cooperação entre o Estado Central e a Administração Local. Tão pouco o pólo esvazia a importância do mercado privado de arqueologia. Pelo contrário, valoriza-o e assegura que o material arqueológico recolhido tem um destino e condições de salvaguarda e investigação”, refere o vereador.

O pólo arqueológico, classifica Jorge Sobrado, é uma espécie de “holding” porque agrega vários serviços, tornando-o num “caso único” no país. É uma reserva para depósito e inventário de colecções e achados que actualmente se encontram dispersos e sem valorização, mas também é ao mesmo tempo um espaço dedicado à investigação. Serve de apoio às actividades e colecções da rede municipal de museus, com destaque para o Museu de História da Cidade que abriu em 2018, e promove um serviço de mediação cultural ligado à educação e à promoção do turismo arqueológico.

Um sonho com cem anos

O organismo vai servir, acima de tudo, segundo o vereador da Cultura, para preencher os hiatos que existem na história milenar do concelho, muita da qual guardada em caixotes. Aliás, Viseu já recebeu mais de cem contentores com achados, muitos provenientes das escavações dos finais dos anos 80 que foram feitas pelo arqueólogo João da Inês Vaz junto à Sé Catedral, na zona histórica. Os achados estão a ser estudados por uma investigadora e o trabalho resultou numa exposição temporária sobre as escavações na rua das Ameias. “Temos também o resultado das sondagens feitas no Monte de Santa Luzia e recebemos muitos fragmentos de azulejaria e elementos pétreos de alguma dimensão”, refere. Matéria-prima para ser investigada e salvaguardada.

Sendo só agora formalizado, este espaço arqueológico começou, no entanto, a sua actividade em finais de 2017, altura em que foi “resgatada” uma ara romana que esteve quase dez anos fechada num armazém. E “tendo muito de inédito e inovador, este projecto é ainda assim uma reencarnação de um sonho com cerca de cem anos. Já o pai-fundador da arqueologia em Viseu, José Coelho, sonhou um pólo arqueológico na cidade. Chamava-lhe o Museu Etnológico da Beira. Tinha como missão a recolha dos fragmentos dispersos de um mundo perdido, mas também funções educativas, de investigação e divulgação. Não deixamos de sentir que estamos a cumprir esse sonho e a fazer justiça ao seu legado”, conclui Jorge Sobrado.