Altar com dois mil anos desvenda nome de Viseu

Dedicado aos deuses, este altar com quase dois mil anos fala no povo “vissaieigenses”. Descoberta em 2009, pedra regressa a casa depois de ter sido resgatada de depósito. Vai estar em exposição no átrio da autarquia e integrar o acervo do futuro museu da cidade.

Monumento foi encontrado em 2009 e agora resgatado de armazém
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Monumento foi encontrado em 2009 e agora resgatado de armazém

Um altar de pedra com dois mil anos que revela a origem do nome da cidade de Viseu vai ser exposto ao público, quase uma década depois de ter sido descoberto.

A ara, da época romana, foi encontrada em 2009 durante umas escavações na zona histórica e é considerado o achado arqueológico mais relevante na construção da história da cidade. Guardada num caixote nos últimos anos, a pedra em granito fino foi resgatada para ficar, para já, em exposição no átrio da Câmara Municipal ainda durante o mês de Dezembro.

Datada da segunda metade do século I d.C, o altar é um dos mais antigos monumentos epigráficos de Viseu. A inscrição, em latim e totalmente perceptível, diz, na sua tradução: “Às deusas e deuses vissaieigenses. Albino, filho de Quéreas, cumpriu o voto de bom grado e merecidamente.”

Segundo os historiadores e investigadores, com esta dedicatória, Albino, uma personalidade da época, materializa o cumprimento do voto feito às divindades de lhes erguer um altar. E ao dedicar a mensagem aos “deuses vissaieigenses”, percebe-se que a palavra deriva de Vissaium, o nome da cidade naquela época.

A mais antiga referência escrita do nome de Viseu remontava ao século VI, sob a forma "Viseo".

“Não deve haver outra peça tão importante sobre a história de Viseu como esta ara. Através da inscrição consegue-se saber o nome dos habitantes que cá estavam quando os romanos chegaram”, assinala o arqueólogo Pedro Sobral. O especialista destaca ainda que o altar foi encontrado “num sítio muito perto onde estava o templo do fórum da época romana, o centro religioso, político e administrativo”, o que demonstra a importância desta urbe.

O arqueólogo conta que até 2009 havia muitas teorias, “algumas delas disparatadas”, sobre a origem do nome da cidade e “este altar desvenda esse mistério” ao mesmo tempo que demonstra que Viseu poderá ter sido capital de um vasto território.

Através dos estudos onomásticos, os historiadores e investigadores chegaram à conclusão de que a cidade, antes dos romanos chegarem, chamava-se Vissaium que evoluiu para Vis (s) eum (Era Romana), a seguir Viseo (Idade Média) e, finalmente, Viseu.

“O estudo preliminar leva-nos também a sugerir que a ara materializa um voto às deusas e deuses viseeicos, sendo o seu dedicante alguém abastado, a julgar pela qualidade e imponência do monumento”, contam os historiadores para quem o altar assume também especial importância para o conhecimento do panorama religioso da região de Viseu.

“Mais uma vez esta peça é única porque dá a conhecer uma entidade divina que acabou por entrar para o panteão dos deuses romanos”, esclarece o arqueólogo.

Primeira pedra do acervo do futuro museu da cidade

A ara foi encontrada no âmbito de acompanhamento arqueológico da abertura de uma vala para a instalação do funicular na Travessa da Misericórdia, bem perto da Sé de Viseu. Na altura, o achado foi dado a conhecer e foi objecto de vários artigos em revistas da especialidade e em congressos. Chegou também a iniciar uma “digressão”, denominada “Rock Tour”, que começou na Fnac, onde o altar esteve em exibição, e que pretendia percorrer outros espaços do concelho. Mas, o monumento acabou fechado, dentro de um caixote num depósito nos arredores de Viseu, num armazém que contém mais achados arqueológicos que estão guardados.

Depois da exposição no átrio da câmara, é intenção da autarquia que este seja o primeiro objecto do acervo do futuro museu da cidade.

“A ara é uma primeira pedra, literalmente, na vontade de constituir um primeiro acervo para o museu da cidade que é um objectivo que está inscrito no nosso programa”, sublinha Jorge Sobrado, vereador da Cultura e Património.

Para o autarca, “este regresso a casa do altar é um modo de valorização e promoção de um grande ícone de Viseu, mas é também simbólico daquilo que é o nosso objectivo de, dentro de um quadro de valorização do património, fazer um trabalho ligado à investigação, à salvaguarda, à valorização e à divulgação”.

“Trata-se de um documento e de um monumento únicos”, justifica. “Através deste documento, conseguiu-se trazer luz ao mistério que sempre envolveu a origem do nome da cidade de Viseu. O nome mais antigo, alguma vez descoberto, é Vissaium”, sublinha.

O presidente da autarquia “vissaieigense”, Almeida Henriques, considera que colocar em exposição o altar milenar é “um belo presente de Natal para os viseenses e para todos quantos gostam de património e história”. Acredita que este achado arqueológico contribui, também, para a promoção do turismo em Viseu.

“Queremos fazer um resgate do nosso património histórico e esta devolução à cidade tem um grande significado”, afirma ainda.  E conclui: “Não era compreensível que esta peça, pelo seu singular valor simbólico, continuasse fechada num armazém”.