Vitória do centro-esquerda na Finlândia temperada com subida dos nacionalistas

Sociais-democratas vão tentar formar Governo num cenário muito difícil: para manter o Partido dos Finlandeses de fora, é preciso ceder nas conversações com o centro-direita.

O dirigente social-democrata Antti Rinne
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O dirigente social-democrata Antti Rinne Reuters/LEHTIKUVA

Ao fim de quatro anos de políticas de austeridade na Finlândia, e no auge de uma divisão na sociedade sobre o futuro da sua famosa segurança social, os eleitores finlandeses afastaram-se do centro e reforçaram o peso dos partidos de esquerda e de direita nas eleições legislativas de domingo.

Os sociais-democratas, do centro-esquerda, ficaram à frente e vão ter a tarefa de formar Governo pela primeira vez em 20 anos, mas a direita nacionalista teve mais votos do que se previa há poucos meses e pode dar músculo ao movimento dos partidos anti-imigração nas eleições para o Parlamento Europeu.

A vitória do Partido Social Democrata da Finlândia (SDP), e do seu líder e antigo dirigente sindical, Antti Rinne, foi ainda mais renhida do que se pensava – 17,7% e 40 deputados, contra 17,5% e 39 deputados do Partido dos Finlandeses, a formação nacionalista e eurocéptica que perdeu os seus elementos mais moderados numa cisão há dois anos.

Logo atrás ficou o Partido da Coligação Nacional, do centro-direita, com 17% e 38 deputados. Mas o desastre eleitoral do Partido do Centro (liberal, no poder) e os ganhos da Liga Verde (de 15 para 20 deputados) e da Aliança da Esquerda (de 12 para 16) mostraram que o eleitorado está mais fragmentado do que nunca – é a primeira vez em 112 anos de parlamento finlandês que nenhum partido tem pelo menos 20% dos votos.

Coligação Nacional

Como líder do partido mais votado, Antti Rinne vai agora tentar colar um Governo que lhe garanta o apoio de pelo menos 101 deputados em 200, uma tarefa ainda mais complicada pelo facto de ser preciso incluir nessa equação um partido do centro-direita.

Sabendo-se que nenhum dos principais partidos parece estar disponível para se coligar com os nacionalistas eurocépticos, a coligação mais natural será entre os sociais-democratas do SDP, a Liga Verde e a Aliança de Esquerda, que juntos têm 76 deputados – menos 25 do que é preciso para a maioria.

Segundo os jornais finlandeses, é possível que o SDP consiga convencer a Coligação Nacional (centro-direita) e os seus 38 deputados a juntarem-se a um Governo de centro-esquerda, mas para isso seria preciso aproximar duas visões opostas sobre o futuro da segurança social e do acesso aos cuidados de saúde.

Em grande medida, o Governo liderado pelo Partido do Centro, com o apoio da Coligação Nacional e da Reforma Azul (a facção moderada que abandonou o Partido dos Finlandeses em 2017), caiu em Março por não conseguir apoio para privatizar mais sectores da saúde, que é uma das proposta do centro-direita para garantir a sustentabilidade da segurança social – do outro lado, os partidos do centro-esquerda, incluindo o SDP, defendem a manutenção dos actuais benefícios através do aumento dos impostos.

Perguntas sobre “valores"

Antes de começarem as grandes dores de cabeça, o líder dos sociais-democratas comemorou a vitória nas eleições de domingo, recordando que é a primeira vez desde 1999 que o SDP é “o maior partido na Finlândia, o partido do primeiro-ministro”.

Por agora, Antti Rinne vai enviar aos partidos com assento parlamentar uma lista de perguntas, “incluindo sobre valores” – uma referência indirecta aos Finlandeses, que endureceram as suas posições nacionalistas, eurocépticas e anti-imigração com a liderança de Jussi Halla-aho.

“Depois de lermos as respostas, veremos com quem vamos tentar formar Governo”, disse Rinne, citado pelo jornal Helsingin Sanomat. É provável que as discussões se prolonguem por várias semanas, até dois meses – e é possível que a Finlândia ainda não tenha um novo Governo quando chegarem as eleições europeias, a 23 e 26 de Maio.

Apesar de manter intacta a sua força no actual cenário político do país, é improvável que o Partido dos Finlandeses volte a entrar no Governo. “É difícil que outros partidos digam não aos sociais-democratas, porque então estaríamos numa situação em que seria Halla-aho [líder dos Finlandeses, segundo partido mais votado] a tentar formar Governo, e não imagino isso a acontecer”, disse a comentadora Sini Korpinen, citada pelo Guardian.

Mas as propostas anti-imigração dos Finlandeses (que endureceram nos últimos meses após relatos de violações de menores por cidadãos estrangeiros), e a favor de um recuo no combate às alterações climáticas em defesa dos sectores mais tradicionais, garantem-lhe um largo apoio na Finlândia – e, com isso, um importante impulso para a aliança nacionalista e eurocéptica proposta por Matteo Salvini.

O vice-primeiro-ministro italiano e líder da Liga, de extrema-direita, quer juntar-se a partidos como os Finlandeses, a Alternativa para a Alemanha e o Partido Popular Dinamarquês num grupo no Parlamento Europeu depois das eleições de Maio, para influenciar com mais peso as políticas de imigração, ambientais e sociais da União Europeia.