Opinião

É possível falar do ensino superior sem falar de propinas!

Só teremos um país mais próspero, mais qualificado e mais justo quando as universidades cumprirem plenamente esta sua terceira missão.

Tem hoje lugar, no Porto, a terceira conferência promovida pelo Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas no âmbito da Convenção Nacional do Ensino Superior, que vem promovendo um amplo debate em torno de uma “Nova Agenda Estratégica para o Ensino Superior em Portugal”.

A primeira conferência, subordinada ao tema O Ensino Superior e a Qualificação dos Portugueses: O que falta fazer?, realizada em 7 de janeiro último, em Lisboa, centrou-se na importância do aumento da qualificação dos portugueses como condição de desenvolvimento do país, na necessidade de incrementar a participação de adultos no ensino superior, na relevância dos apoios sociais para estes objetivos serem atingidos. Infelizmente, o conteúdo dos debates acabou por ser submergido, na esfera pública, por uma discussão extemporânea sobre o fim das propinas.

Na conferência realizada em Aveiro, em 15 de março, Investigação, Inovação e Ensino: os Desafios para 2030, privilegiaram-se temas como a formação de cidadãos e profissionais para uma sociedade e uma economia em acelerada mudança, a inovação pedagógica no ensino superior, a articulação entre o ensino superior e a investigação científica, o papel da investigação na promoção do desenvolvimento, bem como a necessidade da sua internacionalização e financiamento.

Em ambas as sessões foi frequentemente sublinhada a necessidade de as universidades assumirem um compromisso efetivo com a promoção da qualidade de vida das pessoas e com o progresso do país e das regiões. Um objetivo que requer o reforço das articulações das universidades com a sociedade portuguesa, explorando formas inovadoras de relação com as múltiplas organizações e instituições que nela atuam.

Este é precisamente o tema que estará em análise na terceira conferência da Convenção, onde serão discutidos os desafios colocados às unidades de investigação pelos processos de valorização do conhecimento que geram, as relações das empresas com as universidades na conceção e concretização de projetos de inovação e, ainda, as estruturas, modalidades de atuação e projetos que sustentam a criação de empresas e o desenvolvimento de novos produtos e processos.

No debate participarão investigadores, professores, responsáveis por unidades de investigação e estruturas universitárias de transferência de ciência e tecnologia, empresários e dirigentes de associações empresariais. Espera-se que das discussões resulte não apenas uma análise do estado das relações entre as universidades e as empresas, mas também que sejam perspetivados novos objetivos e modalidades de relação que contribuam para o desenvolvimento económico e social, designadamente pela indução de inovação.

A chamada “terceira missão” das universidades, a interação com a sociedade, vem sendo progressivamente assumida pelas instituições públicas portuguesas como estruturante. As universidades são, cada vez mais, instituições comprometidas com o diálogo com os atores económicos, culturais e sociais, procurando, no seu dia a dia e nas orientações estratégicas que assumem, respostas aos grandes desafios societais contemporâneos.

Para muitas universidades portuguesas, a interação com a sociedade não representa um eixo de missão secundário ou complementar, mas algo que as define como instituições empenhadas em participar ativamente na construção de uma sociedade mais próspera e mais sustentável.

Estas são as razões que as conduzem, hoje, a práticas sistemáticas de valorização social, económica e cultural do conhecimento gerado; a uma colaboração densa com o tecido empresarial; à promoção de iniciativas orientadas para a capacitação dos estudantes universitários no desenvolvimento de projetos profissionais próprios. Práticas que têm como efeito a criação de emprego científico e de emprego qualificado, que se sustenta em processos de coprodução e de transferência do conhecimento produzido para o tecido económico e para a sociedade.

A “Nova Agenda Estratégica para o Ensino Superior em Portugal” deve valorizar esta dimensão da ação das universidades. Só teremos um país mais próspero, mais qualificado e mais justo quando as universidades cumprirem plenamente esta sua (terceira) missão.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico