Carreira como professor universitário não tem que ser “um suicídio científico”

Líderes das instituições de ensino superior e cientistas defendem, na Convenção do Ensino Superior, uma revisão da forma como investigação e ensino se relacionam.

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Rui Gaudencio

O director do Centro de Neurociências e Biologia Celular (CNC) da Universidade de Coimbra, João Ramalho-Santos, diz que o seu principal trabalho nas últimas semanas “tem sido tentar convencer duas excelentes investigadoras” a aceitar um lugar na carreira de professor universitário. “Isso não significa um suicídio científico”, tem-lhes dito. As colegas, porém, hesitam: querem fazer investigação a tempo inteiro e a carreira docente exige-lhes uma carga lectiva que pode prejudicar essas intenções.

A história contada pelo director do CNC, durante a segunda sessão da Convenção do Ensino Superior – que decorre em Aveiro – ilustra aquele que foi o principal tema em discussão ao longo da manhã desta sexta-feira: a relação entre a investigação científica e o ensino e a compatibilização entre as duas carreiras.

Os vários intervenientes concordam que será benéfico para o sistema de ensino superior e para os alunos que haja uma maior proximidade entre os cientistas e as salas de aula. “Investigadores que trabalham no limite do conhecimento são muito mais capazes de o transmitir aos estudantes”, sistematizou o presidente do Instituto Politécnico do Porto (IPP), João Rocha.

A relação entre os sistemas de ensino superior e científico foi identificada logo na abertura da sessão pelo investigador do Centro de Estudos de Políticas do Ensino Superior Pedro Teixeira como “a questão central para os próximos 10 a 15 anos”. O modelo foi pensado, há duas décadas, como uma “realidade dual”, em que ensino e investigação “comunicam”. “Mas estão muito mais afastados do que na realidade precisavam”. “O grande salto que demos nos últimos 20 anos foi a nível científico. O próximo tem que ser do ponto de vista pedagógico e da realidade do ensino”, afirma aquele especialista.

No lançamento da segunda sessão da Convenção do Ensino Superior, o Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas (CRUP) já tinha identificado a necessidade de revisão dos estatutos das carreiras de docente e de investigador para permitir que os professores do ensino superior possam ter mais horas de serviço para dedicar à investigação. Em sentido contrário, os investigadores também deviam passar mais tempo nas salas de aulas, defendem os reitores.

O presidente do Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos (CCISP), Pedro Dominguinhos – que foi convidado a discursar no painel de abertura da sessão – concorda que as carreiras “têm uma rigidez muito grande”. “É preciso criar condições para uma maior permeabilidade entre a actividade pedagógica e científica”, propôs.

Os estatutos da carreira são “extremamente rígidos” concordou o presidente do Instituto Politécnico do Porto, João Rocha. A solução que preconizou é, porém, distinta da que é defendida pelo CRUP. A questão não se ultrapassa necessariamente com dar mais tempo aos professores par investigar e mais tempos aos investigadores para ensinar. “Não me preocupa que haja docentes que só dão aulas e investigadores que só investigam. Têm é que existir todas as outras soluções intermédias”, afirmou.

O ministro da Ciência, Manuel Heitor, também esteve presente na abertura dos trabalhos, mas não se pronunciou sobre estas matérias. O governante preferiu centrar o seu discurso nas “oportunidades” que o próximo quadro de financiamento comunitário oferece ao sistema científico nacional.

Convenção do Ensino Superior arrancou, no início do ano, em Lisboa, numa primeira sessão que ficou marcada pela defesa do fim das propinas nas licenciaturas por parte de vários membros do Governo e do Presidente da República. A sessão desta sexta-feira prolonga-se durante toda a tarde e será encerrada pelo ministro do Planeamento, Nelson de Souza.