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Bruno Fernandes
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Bruno Fernandes LUSA/MIGUEL A. LOPES
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Bruno Fernandes, o capitão que vai afastando as marés negras

O médio do Sporting tem sido o elemento diferenciador da equipa nas partidas dos “leões” esta temporada. Dois golos contra o Benfica nas duas mãos das meias-finais da Taça de Portugal carimbaram a ida ao Jamor.

A cumprir apenas a segunda temporada de “leão” ao peito, falar do futebol do Sporting tem sido sinónimo de Bruno Fernandes. Golos, assistências, intensidade e entrega têm definido mais do que uma vez o rendimento do jogador de 24 anos que, apesar dos altos e baixos que o clube de Alvalade atravessa dentro e fora de campo, é o médio com mais golos a jogar na Europa.

Todos os males que envolveram o camisola oito do Sporting já parecem ter passado, mas foi no campo que as contas se ajustaram. O jogador já agitou as redes adversárias por 26 ocasiões em 45 jogos depois de na época passada ter sido eleito o melhor jogador da I Liga depois de 16 golos em 56 partidas. Bruno Fernandes já igualou o número de golos de António Oliveira (1981/82), ultrapassando o registo de Balakov (1993/94). No derby decisivo contra o Benfica, que ditou a passagem dos “leões” à final da Taça de Portugal, Bruno Fernandes completou 100 jogos de “leão” ao peito — e foi novamente decisivo

Natural da Maia, nos arredores do Porto, Bruno Miguel Borges Fernandes já trabalhava desde bem cedo alguns dos requisitos obrigatórios para um jogador de meio-campo. No primeiro clube do internacional português, o Futebol Clube de São Mamede da Infesta, Sérgio Marques era quem treinava o jogador aos 12 anos. Era “à segunda, quarta e quinta-feira”, sendo que a folga era só ao final da semana. “À terça-feira era só eu e o ‘Borges’ [alcunha de Bruno Fernandes no clube] a treinarmos as técnicas de passe dele: cabecear, temporizar e controlar a bola uns metros – era assim que se treinava a técnica”. No início, “era muito bola para a frente, cabeceava, mas apercebi-me logo que ia longe porque era um miúdo que arriscava ficar com a bola. Ele era o primeiro a chegar, equipava-se e falava muito com todos”, disse o técnico da equipa local ao PÚBLICO.

Os golos de bola parada de Bruno Fernandes – como o da vitória por 3-0 frente ao Sp. Braga, para o campeonato – também não surpreendem Sérgio Marques. Em São Mamede da Infesta, o jogador já assumia desde cedo a marcação dos pontapés de livre porque tinha “um remate muito bom”, algo simbólico para “a garra que sempre teve” e que este treinador já transmitiu a Bruno Fernandes sempre que foi ao estádio ver jogos dele. “A técnica é que melhorou bastante”, disse entre risos. “É o melhor médio português.”

Depois do êxito pelos clubes locais portuenses, Bruno Fernandes deu nas vistas no Boavista e seguiu para Itália. No Novara, na Udinese e na Sampdoria cumpriu sempre 20 jogos por época e fazia-se ver a cada vez mais gente quando jogava pelas selecções jovens de Portugal. Para além de ter jogado nos sub-17, o médio participou no torneio de Toulon em 2014, no Europeu de sub-21, na Polónia, e nos Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro.

Em Alvalade, depois de uma transferência a rondar os 8,5 milhões de euros e 500 mil euros em objectivos, Bruno Fernandes encaixou rapidamente no sistema de Jorge Jesus, que valeu a conquista da Taça da Liga, também conquistada esta temporada. “Não me contento com duas Taças da Liga”, assumiu o jogador antes do jogo da 2.ª mão dos 16 avos-de-final da Liga Europa, frente ao Villarreal, onde os leões acabaram por ser eliminados. Resta apenas ao Sporting lutar por um lugar mais acima na tabela classificativa da I Liga e disputar final da Taça de Portugal — os “leões” perderam a 1.ª mão das meias-finais contra o Benfica por 2-1, na Luz, novamente com golo de Bruno Fernandes, mas tudo isso mudou na 2.ª mão, com mais o golo do médio, esta quarta-feira, em Alvalade.

Dar o exemplo em campo depois da rescisão?

Bruno Fernandes foi um dos jogadores que rescindiu unilateralmente contrato por justa causa com o Sporting, após os ataques à Academia de Alcochete, a 15 de Maio. O jogador voltou atrás nessa decisão e regressou em Julho, com Sousa Cintra a presidir provisoriamente, nas mesmas condições contratuais. “O ordenado foi melhorado pelo meu empresário, mas rejeitado por mim. Voltei com as mesmas condições. Se fosse pelo factor financeiro, não estaria aqui. Se sair um dia, quero sair pela porta grande”, clarificou o jogador, que se ofereceu logo para estar às ordens do treinador na altura, José Peseiro, após ter estado no Mundial da Rússia.

Mais tarde na presente temporada, Bruno Fernandes foi distinguido como o melhor futebolista de 2018 dos Prémios Stromp, que não tiveram cerimónia devido à recente chegada da direcção de Frederico Varandas, e recebeu a braçadeira de capitão a par de Nani, que já deixou o clube. Estas foram decisões que receberam alguma contestação por parte de alguns adeptos “leoninos” devido aos avanços e recuos no regresso ao clube e de ser um jogador jovem sem qualquer passado na formação do Sporting.

Já na primeira vez que assinou com o Sporting, o contrato de Bruno Fernandes ficou blindado por uma cláusula de rescisão de 100 milhões de euros, valor que se associa à qualidade do jogador na visão do adepto e comentador da Sporting TV Jorge Faria de Sousa. “É Bruno e mais dez, os treinadores passam e a qualidade permanece”, disse o comentador, apesar de o plantel mostrar pouca consistência esta época. “[Bruno Fernandes] Beneficia muito dos tempos que esteve em Itália e entende todos os momentos de jogo na perfeição. Quando deve esticar, pautar ou recuar. Estranho é os principais clubes nacionais não terem reparado no jogador quando saiu da formação do Boavista para Itália”, acrescentou o comentador do canal “leonino”.

O que pode estar a faltar a Bruno Fernandes? Para além de necessitar de maior controlo disciplinar em campo, o jogador merece maior preponderância na selecção nacional. “Está a tornar-se uma figura incontornável da história recente do Sporting” e já mostra que pode adaptar-se a várias posições no meio-campo, quer a distribuir jogo, quer a apoiar os avançados. No futuro? Jorge Faria de Sousa espera “que não saia”, mas, “pelo passado e o que aprendeu”, podia regressar a Itália e encaixar na Juventus.