Opinião

O impacto na sociedade da Economia Social

A salutar competição também ocorre na Economia Social, e só os mais bem preparados é que vencem.

De acordo com a última “Conta Satélite da Economia Social – 2016”, em Portugal a Economia Social representa cerca de 6% do total do emprego remunerado e 2,8% do Valor Acrescentado Bruto Nacional (VAB). Assim, as mais de 61.000 organizações do setor no seu conjunto (sendo a grande maioria associações com fins altruísticos) empregam cerca de 215.000 pessoas. Mas a importância do setor da Economia Social em Portugal não se restringe apenas a estes impressionantes números, pois gera no seu conjunto um impacto positivo adicional (externalidades) para a sociedade difícil de quantificar.

A comprovada e crescente importância destas organizações no nosso país (entre outros, a nível de educação, saúde, assistência social, cultura, investigação, ambiente e recreativas) deveria provocar uma profunda reflexão, pois para além de desempenharem funções sociais importantes para os seus destinatários, provocam na demais sociedade elevados efeitos positivos, que raramente são reconhecidos e valorizados como tal.

É consensual que o investimento social promove retornos positivos para a sociedade, mas que retornos afinal são esses? Quanto valem individualmente por projeto social e no seu conjunto? Criam valor ou até no limite destroem valor? Atualmente existem algumas metodologias que nos traduzem em termos monetários o retorno para a sociedade de cada euro investido em projetos sociais. Desta forma, essas externalidades são mensuradas para cada projeto social, pois apenas o que é mesurado se torna claramente visível. Tudo o resto são meros palpites.

O retorno de valor criado (desenvolvido pela Roberts Enterprise Development Fund), a análise de custo-benefício (desenvolvida pela Fundação Robin Hood) e a abordagem SROI (promovida pela Rede SROI) são alguns exemplos dessas metodologias, que utilizam linguagem económica e pensamento baseado em métricas financeiras ao avaliar o impacto social.

A mais utilizada é a metodologia SROI, que de uma forma quantitativa demonstra os impactos reais na sociedade. O SROI converte os resultados das atividades em dados financeiros, o que permite uma compreensão clara e global dos benefícios associados ao projeto ou à intervenção social. O seu resultado indica a mudança social obtida, ou seja, o impacto social devolvido à sociedade. Trata-se de um importante comunicador de valor, traduzido por uma abordagem quantitativa e empírica. É uma abordagem semelhante ao retorno sobre o investimento (ROI), muito utilizado no mundo dos negócios.

Esta metodologia apresenta ainda a vantagem de o benefício social poder ser calculado por stakeholder e depois agregada, ou seja, pode-se por exemplo autonomizar o indicador SROI para o setor público, evidenciando os benefícios que este usufrui por cada euro investido no projeto social em causa. Oferece ainda a possibilidade de ser retrospetiva ou previsional.

A própria instituição pode desta forma identificar as atividades mais lucrativas em termos de impacto e assim focar-se nas áreas ou projetos de intervenção que provoquem maior impacto social, uma vez que normalmente se deparam com recursos extremamente escassos.

Por exemplo, ao promover a integração social de um jovem, que atualmente se encontra socialmente excluído e até a sua empregabilidade, que valor representa essa integração? Não se deve apenas centrar a análise do benefício direto obtido por esse jovem, mas de todos os benefícios que decorrerão para a comunidade da sua plena integração social e laboral. Deve-se assim contemplar as interações dinâmicas que as pessoas apresentam no contexto em que se inserem. O SROI apresenta estas vantagens, pois mede os efeitos de uma forma ampla, atendendo a visões das múltiplas partes interessadas. Torna explícito em termos financeiros, as consequências totais e parciais da atividade desenvolvida. Permite ainda efetuar análises de sensibilidade para testar o efeito no retorno mediante determinadas variações das premissas.

Desta forma, resultados que facilmente são negligenciados são incorporados no indicador, permitindo uma avaliação holística da intervenção, pois contempla as variáveis do denominado tripé da sustentabilidade.

Para as organizações que procuram investidores ou doadores sociais, trata-se de um poderoso indicador, pois permite demonstrar claramente o retorno que cada euro investido promove na sociedade. Certamente um doador ficará mais sensibilizado se perceber claramente que cada euro que doa à instituição promove na sociedade benefícios totais de dois, três ou quatro euros.

Outra vantagem que uma instituição pode obter com esta implementação é o fator diferenciador em candidaturas a fundos e concursos, pois permite ao decisor verificar a preocupação que a instituição tem em medir o seu impacto social. Assim, torna mais profissional a instituição, em tempos em que o amadorismo deve ser colocado de lado.

O maior problema da implementação da metodologia SROI é a sua complexidade, nomeadamente se for implementada com rigor, pois acarreta usar inúmeras proxies justificáveis que possuam valor monetário, optar pela taxa de desconto, mensurar benefícios, perspetivar limites temporais, etc.

Apesar de ainda não existir um amplo consenso na literatura científica sobre determinados fatores do SROI, o resultado final obtido com o indicador compensa todas as dificuldades da sua implementação. O caminho faz-se caminhando, neste caso, a investigação continua em curso, o que não impede a sua implementação e o processo ser ajustado ao longo do tempo. Em Portugal, várias instituições já implementaram esta metodologia com o objetivo de facilitar a decisão em projetos a financiar por investidores sociais. A salutar competição também ocorre na Economia Social, e só os mais bem preparados é que vencem.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico