Barry, o assassino que quer ser actor, voltou

A série cómica da HBO co-criada, protagonizada e ocasionalmente realizada por Bill Hader regressou para a segunda temporada, mais negra do que antes.

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Sarah Goldberg e Bill Hader em Barry, a comédia sobre um assassino que quer ser actor DR

Barry Berkman é excelente no que faz. Poucas pessoas na sua área são assim tão dotadas. O seu trabalho sai-lhe naturalmente. Só que o talento de Barry não é um talento inocente, muito menos o faz feliz. É que a sua profissão é ser assassino profissional. Foi por isso que quis mudar de vida. Quando durante uma missão em Los Angeles se viu por acaso dentro de uma aula de representação, ganhou um sonho: ser actor. Ao contrário da mestria na matança, contudo, Barry é um péssimo actor, pelo menos em cima dos palcos – na vida pessoal o caso é outro. Além disso, não é como se apagar o passado, pôr anos de homicídios para trás das costas e começar de novo fosse fácil.

É esta a premissa de Barry, a série cómica da HBO co-criada por Bill Hader, que é também o protagonista e um dos ocasionais realizadores. A primeira temporada era uma revelação, cheia de piada, referências cinéfilas e muito de macabro, e uma das duas grandes séries novas sobre assassinos profissionais de 2018 – a outra era Killing Eve, que também está prestes a voltar, no dia 14 de Abril. Afinal, estamos a falar de uma personagem principal que é excelente a compartimentalizar as várias partes da sua vida e durante anos não se questionou se seria ou não uma má pessoa. A segunda arrancou nos Estados Unidos na madrugada de domingo para segunda-feira, e o primeiro episódio está disponível na HBO Portugal, para onde a série transitou, tendo no ano passado sido exibida no TVSéries. 

Num perfil da New Yorker publicado no mês passado, Hader, que passou anos como um dos pontos altos do elenco do programa de humor Saturday Night Live e contribuiu para a série de animação South Park, e Alec Berg, o seu parceiro na criação da série que é também um dos responsáveis pela série Sillicon Valley, falavam de como não podiam repetir a fórmula dos episódios anteriores. Não podia haver mais do mesmo, até porque a primeira leva de episódios conta uma história com princípio, meio e fim que podia muito bem ter ficado por ali. O arranque desta época, realizado por Hiro Murai, o responsável pelo fenómeno que foi o teledisco This is America de Donald Glover e um dos nomes principais atrás das câmaras de Atlanta, confirma que o Barry que vemos agora já não é o que conhecemos em 2018. A série também não.

Entrando no campo dos spoilers, a série não mostra o que aconteceu ao certo no final da temporada anterior, mas antes o efeito que isso teve nas personagens. Barry, que deixou o trabalho como assassino, só está disposto a matar para manter essa faceta da sua vida escondida daqueles que os rodeiam, mas o passado não o quer deixar em paz. Não matar vai ser complicado e não há nenhuma saída limpa desta história. Ao mesmo tempo, o protagonista vê-se obrigado a confrontar os seus próprios sentimentos, algo que nunca fez antes, e ficamos a conhecer um pouco melhor o que o tornou um assassino.

De volta está o maravilhoso elenco que rodeia Hader, de Henry Winkler, o Fonzie de Happy Days, como o patético professor de representação Gene M. Cosineau, agora mais humano do que nunca, a Anthony Carrigan, como Noho Hank, um membro ultra-optimista e hilariante da máfia chechena, passando por Stephen Root como Fuches, o mentor/empregador de Barry, ou pelas colegas actrizes de Barry, interpretadas por nomes como Sarah Goldberg, que faz de namorada do assassino, D'Arcy Carden, a Janet de The Good Place, ou Kirby Howell-Baptiste, também de The Good Place.

Tantas vezes, especialmente em Portugal, a ideia de comédia “negra” é utilizado como justificação para veicular piadas batidas, frequentemente racistas, sexistas ou homofóbicas. Barry é uma comédia negra no bom sentido, com um humor retorcido e existencialista. Aqui, a morte e a sua ausência de sentido estão, tal como nos filmes dos Irmãos Coen, em cada esquina. É um universo em que péssimos exercícios de representação de actores patéticos levam a revelações profundas sobre as personagens, onde referências a The Front Page, a peça de 1928 que deu origem a vários filmes, convivem com O Segredo do Deserto, um thriller dos anos 1980, e Enquanto Dormias, a comédia romântica dos anos 1990. É bom.