Barry, o assassino deprimido

Na nova série da HBO co-criada e protagonizada por Bill Hader, um assassino deprimido vai para Los Angeles e, por acaso, acaba numa aula de representação, descobrindo assim uma nova vocação para a vida. A estreia desta comédia é este domingo, às 03h30, no TVSéries.

Bill Hader é um assassino profissional deprimido em <i>Barry</i>
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Bill Hader é um assassino profissional deprimido em Barry Home Box Office, Inc.

Quando voltou do Afeganistão, Barry Berkman estava deprimido e não sabia o que fazer. Fuches, um velho amigo de família, deu-lhe um propósito para a vida: matar pessoas por dinheiro. Garantiu-lhe que as suas vítimas seriam todas pessoas más, que mereciam morrer, pressuposto que este ex-fuzileiro ingénuo que se vê a si próprio como inocente nunca questionará.

Barry é extraordinariamente bom nesse trabalho – só que matar pessoas não o satisfaz. É, até, um aborrecimento tremendo. A depressão vai voltando aos poucos. Até ao dia em que, em mais uma missão profissional, visita Los Angeles e, seguindo um dos seus alvos, entra numa aula de representação. É aí que descobre um propósito, uma comunidade e um lugar que, ao contrário do seu trabalho, o fazem sentir-se vivo. O problema? Barry é bom a pôr fim às vidas dos outros, só que péssimo a representar.

É a tudo isto que assistimos em Barry, a nova série cómica da HBO que chega a Portugal via TVSéries na mesma madrugada em que se estreia nos Estados Unidos. O primeiro episódio passa às 03h30 deste domingo, com direito a repetição em horário nobre às quintas-feiras, às 22h30. A série foi co-criada e é protagonizada por Bill Hader, que nos últimos anos tem encabeçado projectos como a série de falsos documentários Documentary Now!, escrito para South Park e aparecido em vários filmes; entre 2005 e 2013, fez também parte do elenco de Saturday Night  Live. “Fez parte do elenco”, na verdade, é algo redutor: Hader é provavelmente das pessoas mais talentosas que alguma vez passaram por essa instituição da comédia norte-americana. O seu Vincent Price, por exemplo, era épico, e Stefon, uma co-criação sua e do cómico de stand-up John Mulaney que dava dicas sobre a noite nova-iorquina, é das personagens mais bem-amadas dos últimos anos desse programa. Na altura, apesar de parecer ter sido feito para um programa desses, vivia consumido pelos nervos por actuar ao vivo e em directo para a televisão. Tal como a personagem que encarna na série, aquilo em que era realmente bom fazia-lhe mal, mas continuou a fazê-lo.

A série de oito episódios, já mostrada na íntegra aos jornalistas, foi desenvolvida por Hader e Alec Berg, um veterano de Seinfeld e Curb Your Enthusiasm que é também produtor executivo de Silicon Valley. Em entrevistas, Hader tem mencionado três filmes como referências: Taxi Driver, de Martin Scorsese, na sociopatia de Travis Bickle;Imperdoável, de Clint Eastwood, na forma como cada assassinato vai destruindo William Munny por dentro, tal como o cómico ia sendo consumido pelos nervos; e Waiting for Guffman, um brilhante mockumentary  improvisado que Christopher Guest realizou e protagonizou nos anos 1990 sobre a produção de um musical de teatro amador numa pequena cidade do Missouri.

Comédia e drama a sério

Barry é uma série com um tom estranho e variável, entre a comédia e o drama, com ambos a serem levados muito a sério. Hader, que tinha impressionado com a sua veia dramática em Gémeos Para Sempre (2014), de Craig Johnson, é a pessoa perfeita para fazer a ponte entre esses dois mundos, seja como actor, como argumentista ou como realizador. É de resto a sua estreia nessa terceira vertente, que foi a razão que o levou a mudar-se, em jovem, para Los Angeles, só que entretanto outras profissões puseram-se no caminho: primeiro a produção e a montagem de programas de televisão e depois a representação. Hader realiza os três primeiros episódios, sendo os restantes dirigidos por Hiro Murai (o responsável por Atlanta ser tão boa do ponto de vista visual traz alguma dessa magia para aqui), Maggie Carey, a ex-mulher de Hader (que realizou The  To-Do  List, filme que em Portugal teve o infeliz título A Lista dos... Prazeres!), e o próprio Alec Berg. A equipa de argumentistas inclui, por exemplo, a muito recomendável cómica de stand-up Emily Heller.

O protagonista quer, e tenta várias vezes, fugir à sua profissão, mas vê-se envolvido com a máfia tchetchena, que por sua vez começa uma guerra com a máfia boliviana. Cruza-se com personagens bizarras, memoráveis e hilariantes – como um chefe que prefere reuniões em casa, com a família por perto, mesmo que isso implique planear sessões de tortura ou assassínios enquanto a filha está a ter uma festa com as amigas, ou um capanga ultra-simpático (Anthony Carrigan, uma das revelações de Barry).

Atenção aos detalhes

A dada altura, numa conferência de imprensa, um polícia compara o conflito entre tchetchenos e russos à trama de Yojimbo, o filme de Akira Kurosawa, para depois falar em pormenor da obra do realizador japonês. Enquanto fala, a série já cortou para um bar onde as personagens estão a ver a conferência de imprensa pela televisão, e a acção prossegue, mas a conversa sobre Kurosawa continua a poder ser ouvida lá ao fundo. É um pormenor delicioso, numa série que dá muita atenção aos detalhes (mais frequentes em termos de gags visuais no fundo das cenas).

Mesmo que haja esse sentido de absurdo, a violência é extrema, nunca é cómica, e as acções das personagens têm sempre consequências, sem medo de entrar por campos muito obscuros e perturbadores. Apesar de ser uma comédia, não há uma piada a cada segundo. Aliás, é quase aos dois minutos do primeiro episódio que surge o primeiro diálogo. Hader e Berg parecem preocupados, acima de tudo, em contar histórias e explorar personagens.

Na parte da representação, o professor é interpretado pelo veterano Henry Winkler, o Fonzie de Happy Days, que é ao mesmo tempo patético, idiota e tocante. Na aula dele, o teatro reduz-se a monólogos de filmes como Amor à Queima-Roupa ou Dúvida. É lá que Barry conhece uma aspirante a actriz por quem se apaixona (interpretada por Sarah Goldberg, uma revelação). Os actores que rodeiam Barry (uma das actrizes é interpretada pela sempre brilhante D’Arcy Carden, a Janet de The Good Place) também não são bons, e isso dá azo a algumas das partes com mais piada de toda a série – ainda que a incompetência dos actores se torne algo repetitiva. Mas em vez de se limitar a gozar estas pessoas com ambições desmesuradas, que provavelmente nunca darão em nada, a série humaniza-as e compreende-as (a personagem de Goldberg até tem de lidar com um agente sinistro, que se faz a ela), até talvez mais do que o próprio protagonista.

Numa altura em que as séries de anti-heróis masculinos que caracterizaram a ascensão da chamada idade de ouro da televisão estão cada vez menos em voga, com a televisão a ter finalmente descoberto que há vida para além de homens brancos torturados, Barry exibe uma perspectiva refrescante sobre o seu protagonista. E até parece ter noção do seu lugar na história da ficção televisiva: Tony Soprano, de Os Sopranos, uma dessas séries, é mencionado directamente, associado ao conceito de masculinidade tóxica. A série explora, faz perguntas e não deixa o protagonista ter uma redenção fácil. Ele é um assassino, por muito fofinho que seja. E não vai ser nada fácil fugir a isso.