O talentoso senhor Glover

“Twin Peaks com rappers” é como o autor/actor/cantor descreve Atlanta, que estreou esta semana na Fox Comedy.

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Por estes dias, há um Donald que tem toda a atenção do mundo, que não é o Pato Donald e que está a concorrer para a presidência dos EUA - daqui a uns dias saberemos se será (ou não) o Presidente Donald Trump. Mas há outro Donald no ar, que provavelmente só terá fama planetária quando for no cinema a versão mais nova de uma personagem famosa de uma certa saga intergaláctica. Só em 2018 é que Donald Glover será Lando Calrissian em mais um capítulo de Star Wars que ainda não tem título, mas que podia ser algo do género “As Aventuras do Jovem Han Solo”. Faltam dois anos, mas vale a pena começar já a conhecer este Donald. E a cidade onde cresceu, Atlanta, em 20 e poucos minutos semanais na Fox Comedy (estreou nesta madrugada, às 00h50, e repete ).

Vinte e poucos minutos significa, à partida, que Atlanta é uma série de comédia. É, mas nem sempre. Também é outra coisa. São retratos semiautobiográficos da vida de Glover, que nasceu na Califórnia, mas cresceu num subúrbio de Atlanta, a cidade da Coca-Cola e da CNN. Foram aqui passados os anos formativos para o talento multifacetado de Glover, que foi argumentista de Rockefeller 30 e actor de comédia em Community. Glover também canta rap através do seu alter-ego Childish Gambino, e é de rap que Atlanta trata. Mas é mais um ponto de partida do que um “arco narrativo”. Não, Atlanta não vai ser para o “hip hop” o que Nashville foi para o country, ou o que Vinyl tenta ser para o rock.

Glover é Earnest (Earn) Marks, um trintão em “arrested development” (o mesmo é dizer que vive um momento pouco definido na sua vida), que tem uma filha pequena de uma ex-namorada com quem ainda dorme de vez em quando (é a segunda cena do primeiro episódio, e ela, logo de manhã, diz-lhe que tem de ficar a tomar conta da filha porque, naquela noite tem um encontro). Os pais já não o deixam entrar em casa porque acham que ele vai pedir dinheiro emprestado, tem como emprego tentar convencer pessoas a ter um cartão de crédito e há um trauma qualquer com um ano em que passou na universidade de Princeton. E tem de convencer o primo e o amigo do primo que não é um sem-abrigo porque não usa um rato como telefone (e isto gera toda uma teoria de que, se se pudesse usar ratos como telefones, seria uma coisa espectacular).

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O primo nesta história é importante porque é uma pequena celebridade do bairro, como rapper que tem o cognome de “Paper Boi”, e Earn vê nele uma forma de tentar sair do buraco. Ao fim do primeiro episódio, já estão a ser procurados pela polícia. Atlanta leva-nos à prisão, aos subúrbios e a clubes nocturnos, a variar entre o hiper realismo, o surrealismo e o realismo mágico, um universo em que Justin Bieber é um teenager negro e em que os motoristas da Uber são traficantes de droga. Não tem uma fórmula, nem de comédia, nem de drama. Nem sequer pode ser considerado como um irmão de comédias idiossincráticas como Louie ou Seinfeld, cada uma, à sua maneira, a partir o molde do que se fazia.

“Twin Peaks com rappers”, foi como Donald Glover começou por descrever este Atlanta. “Estamos sempre a falar da natureza surreal da experiência humana. E isso é uma coisa estranha. Muitas coisas estão na zona cinzenta. Por causa da Internet e das redes sociais, as coisas são rapidamente reduzidas a zeros e uns. E nós queríamos andar nas zonas cinzentas”, dizia o actor-argumentista-rapper e futuro Lando Calrissian numa entrevista à NPR em Setembro passado. Algo funcionou em Atlanta, cuja primeira temporada de dez episódios foi um êxito de público e crítica. O mundo semi-criado e semi-vivido pelo talentoso senhor Glover tem garantido, pelo menos, mais uma temporada. “As pessoas responderam a algo que não soa como um algoritmo. Sabia que se fizesse algo pessoal, iria falar a toda a gente.”

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