E se este for o fim de uma era na TV?

A televisão já não é o parente pobre do cinema. Mas estará a idade de ouro da televisão americana a chegar ao fim?

Foto
O professor transformado em vilão de Breaking Bad DR

Estará a idade de ouro da televisão americana a chegar ao fim, agora que Breaking Bad e Mad Men cami-nham para as últimas temporadas? A Revista 2 foi falar com Brett Martin e Alan Sepinwall, autores de dois livros saídos nos últimos meses sobre esta era dourada, e Maureen Ryan, crítica de televisão. Os últimos anos trouxe-ram uma quantidade avassaladora de boas séries. A televisão deixou de ser o parente pobre do cinema

Quando Breaking Bad começa, Walter White é um normal, fraco e indefeso professor de liceu que dá aulas de Química e descobre que tem cancro. Quando chegar ao fim, após os derradeiros oito episódios que estarão em Portugal via TVSéries a partir do dia 17 (sob o nome Ruptura Total), o protagonista já terá completado a transformação para um poderoso magnata do mundo da droga há muito tempo. White passou de Mr. Chips para Scarface, como disse Vince Gilligan, o criador, quando estava a tentar vender a ideia da série. Ou seja, do afável e querido professor de Adeus, Mr. Chips, realizado por Sam Wood em 1939, para o gangster interpretado por Al Pacino no filme de Brian De Palma de 1982.

O herói começa a fabricar e traficar metanfetaminas, com a ajuda de um antigo aluno. Com uma pergunta subentendida: será que já existiam dentro de Walter as sementes para os actos repugnantes que fez ao longo da série, ou foi a força das circunstâncias que o transformou num monstro? Tal transformação, mostrada com calma e sem pressas na AMC (que era apenas um canal de cabo que transmitia filmes antigos até se ter reinventado em 2008 com a estreia de Mad Men), era algo que nunca poderia ter chegado aos ecrãs de televisão noutra época. Esta era mostrou que não é obrigatório gostar das personagens principais da ficção e quebrou regras, tornando os vilões nos heróis, o que antes seria impensável.

Walter White tornou-se um dos anti-heróis mais emblemáticos da idade de ouro da televisão americana, que poderá acabar quando terminar Breaking Bad, e que começou em 1999, quando o mafioso Tony Soprano expôs pela primeira vez as suas neuroses e ataques de pânico à sua psiquiatra em Os Sopranos.

Com canais de cabo por subscrição sedentos de programação, um conjunto de criadores recebeu rédea solta para dar ao mundo um conjunto de séries dramáticas, começando com Os Sopranos e passando por The Wire (sobre a polícia, o crime e a decadência das instituições de Baltimore), Deadwood (um western sobre a criação de uma cidade), Sete Palmos de Terra (centrada numa família com uma agência funerária) ou The Shield (sobre um polícia corrupto). Tudo feito com um nível de envolvimento dos executivos na parte criativa mínimo, ou quase nulo, algo que, especialmente em televisão, praticamente não tinha precedentes.

Do ponto de vista dos espectadores, os gravadores DVR, o DVD e, não o neguemos, a pirataria, permitiram ver temporadas ou séries inteiras de uma só assentada, sem ter de esperar uma semana pelo capítulo seguinte, ou até fora do período de exibição original. Isto permitiu que as histórias fossem contadas em série, algo que tinha vários antecedentes, mas agora com maior grau de complexidade.

"Assistimos a uma transformação enorme, de um meio onde não era possível fazer arte, para o local onde as grandes histórias são contadas", comenta à Revista 2 Brett Martin, correspondente da revista GQ que lançou em Julho Difficult Men - Behind the Scenes of a Creative Revolution: From The Sopranos and The Wire to Mad Men and Breaking Bad. No livro traça o retrato dos homens que encabeçaram esta revolução: não só das personagens de ficção, como dos argumentistas a quem foram dadas a chave de produções multimilionárias e cujas personalidades, em casos como o de David Chase (criador de Os Sopranos), de David Milch (Deadwood), ou Matthew Weiner (Mad Men), eram quase tão interessantes quanto as das suas personagens (Milch, por exemplo, é um excêntrico ex-professor de Inglês de Yale e ex-heroinómano com problemas de costas).

A idade de ouro trouxe uma quantidade avassaladora de boa televisão ao mundo. "Há quase demasiada boa televisão para se conseguir acompanhar tudo", diz-nos Alan Sepinwall, que foi um dos pioneiros da cultura de recaps (extensas críticas semanais a episódios de televisão que se multiplicam pela Internet), crítico de televisão do Star Ledger (o jornal de Nova Jérsia lido por Tony Soprano) e que hoje escreve no site Hifix.com. No final do ano passado, Sepinwall publicou, sobre esta era dourada, The Revolution Was Televised: The Cops, Crooks, Slingers and Slayers Who Changed TV Drama Forever, com capítulos dedicados a 12 séries (algumas em comum com Martin e outras da pré-idade de ouro).

O ex-parente pobre

Ambos os autores referem que estas séries retiraram do pequeno ecrã o estigma de parente pobre do cinema, particularmente numa altura em que se arriscava cada vez menos no mainstream americano. Actores de enorme talento que Hollywood nunca tinha sabido usar bem - como foi o caso de James Gandolfini, que imortalizou Tony Soprano - tinham agora espaço para brilhar. Já para não falar da ambição das histórias que podiam ser contadas. A isso pôde também juntar-se o facto de os televisores e outros aparelhos se terem tornado cada vez mais avançados, com dimensões e qualidade de imagem a anos-luz dos seus antecessores.

De repente, já não era desprestigiante para alguém do cinema trabalhar em televisão. Em Agosto, Kevin Spacey, protagonista de House of Cards - série do Netflix, serviço de streaming online -, discursou no Festival de Televisão de Edimburgo, algo que, diz, não aconteceria há 15 anos, por a televisão "ser considerada uma causa perdida": "Francamente, há 15 anos não estaria aqui (...) porque o meu agente nem sequer me deixaria aparecer numa série de televisão depois de ganhar um Óscar, muito menos algo em streaming."

E a desculpa do "televisão é só lixo" deixou de pegar. "Se alguém me diz que o cinema é melhor do que a televisão, pergunto-lhe: "Que cinema? Vá ver Os Sopranos, The Wire e Breaking Bad e diga-me que filmes dos últimos 15 anos são tão ambiciosos"", lança Brett Martin.

Maureen "Mo" Ryan, que escreve sobre televisão no siteHuffington Post, disse à Revista 2 que estabelece a era de ouro da televisão entre 1999 e 2014, entre os Sopranos e o fim de Mad Men. "Houve uma explosão no mundo da televisão por cabo. Durante anos, havia várias grandes estações que tentavam apelar a toda a gente. O que os criadores desta idade fizeram foi perguntar: "E se não tivéssemos de agradar a toda a gente?" Por isso, criaram personagens sombrias, difíceis, desafiantes, filosoficamente ricas e ambíguas. Tinham liberdade para isso porque, no cabo, pode haver menos espectadores e ainda haver sucesso", adianta a crítica. "Tem que ver com cálculos financeiros. Os operadores de cabo fazem dinheiro através dos subscritores, por isso não precisam dos números de audiência e de publicidade dos canais generalistas. Isso libertou-os para correrem mais riscos. Ao mesmo tempo, havia uma geração de criadores de televisão fartos das restrições que havia na televisão antes de 1999 e estavam ansiosos por explorar novas ideias, temas, estéticas e personagens", adiciona.

É esta a história que Brett Martin conta no seu livro. Martin refere-se a esta época como a terceira idade de ouro da televisão, tendo a primeira começado nos anos iniciais, continuando até à década de 1960, com programas como A Quinta Dimensão ou Alfred Hitchcock Apresenta e peças de gente como Paddy Chayefsky. A segunda foi nos anos 1980, com séries como A Balada de Hill Street ou St. Elsewhere - e há quem a estenda até aos anos 1990, com No Fim do Mundo ou Brigada de Homicídios, algumas delas tendo servido como período de aprendizagem para alguns dos criadores mais importantes desta terceira era.

Apesar da veia pessimista e deprimente de quase todas as séries desta última idade de ouro, a comédia é nelas um ponto fundamental. Vince Gilligan, que começou por escrever comédias no cinema (não é o único: David Chase e Matthew Weiner também têm um passado na escrita de comédia) e depois se virou para a televisão como argumentista de Ficheiros Secretos, diz em entrevistas que tenta injectar o máximo de humor possível para aliviar a tensão da narrativa. Bryan Cranston, o actor que faz de Walter White e ganhou com esse papel três Emmy consecutivos, era antes conhecido por papéis cómicos em Seinfeld e A Vida é Injusta (Gilligan lembrava-se dele por um episódio de Ficheiros Secretos, em que o actor fazia o papel de um anti-semita intragável do qual os espectadores acabavam por ter pena, o melhor antecedente possível para o que ele faz em Breaking Bad). O humor é encontrado nas situações do dia-a-dia e nunca é forçado, por muito que algumas das tramas estiquem a corda em termos de credibilidade (como um íman capaz de apagar o conteúdo de um disco rígido ou um assalto a um comboio feito em tempo recorde).

O fim?

No livro de Brett Martin, fala-se de como as estações responsáveis por esta idade de ouro, como a HBO ou a AMC, tiveram "primeiros actos brilhantes e, mesmo que tenham certamente produzido trabalho de qualidade depois, nenhuma série se comparava à primeira vaga". No mesmo livro, Shawn Ryan, criador de The Shield, é citado a dizer que as séries da USA (uma estação de cabo que tem programas sem muito sal ou ambições artísticas, como Espião Fora de Jogo, Psych ou Suits), eram como o Tubarão ou Guerra das Estrelas, que marcaram o início da era dos blockbusters em Hollywood e fizeram com que passasse a haver menos vontade de arriscar e mais vontade de repetir sucessos passados. Noutras entrevistas, tem invocado a estreia de The Walking Dead, em 2010, que teve o triplo das audiências de Breaking Bad e Mad Men. Maureen Ryan partilha a mesma opinião: "É um sucesso enorme e outros querem emulá-lo. Será que as tentativas de alcançar esse sucesso em séries de género enfraquecerá a qualidade geral da televisão?"

Martin e Ryan acham que algo mudou definitivamente e que esta era acabou, mesmo que nunca se tenha feito tanta boa televisão como agora.

Sepinwall tem uma opinião diferente. É certo que ainda não existem substitutos à altura das melhores séries deste período. "Alguma das séries actuais chega ao nível de Mad Men ou Breaking Bad ou outras séries [referidas no] meu livro? Talvez não, apesar de algumas chegarem por vezes perto. Mas nem Mad Men e Breaking Bad pareciam ser boas o suficiente para entrar no panteão quando começaram."

O Netflix era um serviço de streaming na Internet que, tal como os canais de cabo importantes, costumava dedicar-se a filmes. Este ano, depois de algumas experiências, lançou-se definitivamente na programação própria com House of Cards. A acção foi feita a pensar no consumo de uma só assentada: as temporadas, geralmente de 13 episódios, são postas na íntegra na Internet ao domingo, dando aos espectadores a oportunidade de verem tudo de seguida. Muitas séries da idade de ouro tinham consciência de que seriam consumidas assim, ainda que continuassem a chegar ao mundo a um ritmo semanal (que foi como House of Cards chegou a Portugal, via TVSéries).

No seu discurso, Kevin Spacey, protagonista e produtor executivo da série, pedia aos executivos que pusessem o poder nas mãos dos criativos, que tivessem paciência e fomentassem a qualidade, que isso daria frutos em termos de audiências. Que fizessem, basicamente, o que as estações de cabo fizeram para dar início a esta revolução - e que hoje já não fariam, porque já há demasiado dinheiro, prémios e expectativas envolvidas (a HBO, por exemplo, rejeitou a oportunidade de comprar Mad Men e Breaking Bad). Pediu-lhes que corressem riscos para se poderem contar as melhores histórias possíveis. Uma parte do vídeo, disponível no YouTube, tornou-se viral, com mais de 1,2 milhões de visualizações.

Pode ser que os executivos o oiçam, mas nem toda a gente é optimista. Maureen Ryan explica que "há uma evolução em curso, acho que estamos num tempo de transição. Por muito tempo, a estética áspera e a moralidade ambígua da idade de ouro pareceu fresca e nova, e houve exemplos óptimos desse tipo de programas. Mas, com o tempo, essas ideias tornam-se usadas e velhas, especialmente quando exploradas por argumentistas e realizadores menos habilitados. Acho que há várias estações a tentar evoluir e que a HBO está um bocado encostada à sombra da bananeira. Costumava ser a líder em termos de programação inovadora, e ainda tem vários programas bem feitos e com grande visibilidade, mas parece reger-se por uma fórmula: encontrar argumentistas e realizadores conhecidos e dar-lhes liberdade para fazerem o que quiserem. Não sei se isso corre sempre bem. The Newsroom [de Aaron Sorkin] é, para mim, criativamente muito menos conseguido do que Os Homens do Presidente", uma das séries anteriores do mesmo criador.

Outro problema, para Ryan, é o facto de "agora haver tanta interferência na televisão, com tantos executivos a darem feedback e muito dele a ser mau".

Martin, que no livro faz a ressalva de que talvez seja só a primeira fase desta idade de ouro a chegar ao fim, explica: "Entrámos num período em que a surpresa se foi e já não é preciso correr grandes riscos para encontrar público. De certa forma, agora temos mais séries boas, mas menos séries óptimas. Ao mesmo tempo, é excitante que tenhamos um mundo em aberto em termos daquilo que virá depois. E que estejamos a deixar a necessidade de ter um anti-herói como personagem central." Parece, de facto, haver uma saturação desse tipo de protagonistas: "Quando existe Tony Soprano, Al Swearengen [Deadwood], Walter White e Don Draper [Mad Men], para onde mais se poderá ir?"

Sepinwall não partilha o pessimismo: "Há demasiadas séries óptimas na televisão agora, em demasiados sítios, para considerar que a idade acabou. Parece que todos os dias há um novo canal ou empresa a meter-se na produção original."

A ideia de nunca se ter feito tanta boa televisão é algo em que Ryan também fala: "Acho que nem toda ela é tão ambiciosa quanto no auge da idade de ouro, e que não há tantos futuros clássicos como há seis ou sete anos, mas a profundidade e variedade é inacreditável."

Num mundo tão cheio de homens e anti-heróis, as mulheres às vezes ficaram para trás. Todas as séries cobertas pelos dois livros foram criadas por homens e têm homens no centro de tudo. Onde estão as mulheres? "Acho que o pior crime desta era foi manter as personagens femininas nas margens e fazê-las menos interessantes do que os homens. Ainda acontece muito na televisão, mas acho que tem havido algum reconhecimento de que a era dos anti-heróis tem sido problemática nessa área e isso tem de mudar. Uma das partes positivas do aumento de canais e empresas a financiar a criação televisiva é que esses novos canais estão dispostos a correr riscos em diferentes personagens e criadores. Mas é um mundo muito como o que mostram em Mad Men: está preso a tradições e práticas antiquadas, por isso tento ser realista no que toca a isso."

O futuro é incerto. O futuro da televisão, de Walter White e da idade de ouro. Algo morrerá certamente com o final de Breaking Bad e, depois, de Mad Men. Isto não quer dizer que deixe de haver boa televisão, tal como a qualidade não acabou no final de outras idades de ouro, televisivas ou cinematográficas. É impossível dizer o que for com certeza. Só saberemos quando lá chegarmos. "Um certo tipo de energia e centelha criativa está a acabar ou a transformar-se noutra coisa", diz Ryan, que admite que "pode ser que algo apareça entretanto e prolongue esta era". Coisas mais estranhas já aconteceram, algumas delas em Breaking Bad.