Adriano Miranda
Foto
Adriano Miranda

Megafone

Entrar para a universidade não vai ser assim tão fácil para os alunos do ensino profissional

Entrar para a universidade pelo ensino profissional não era uma tarefa fácil: é preciso um enorme esforço e determinação, uma ideia que parece não colher apoio entre aqueles que estão contra esta medida.

Esta semana saiu uma notícia a dar conta que os alunos do ensino profissional irão poder entrar no ensino superior sem realizar exames nacionais, notícia essa que gerou uma tremenda indignação devido a uma alegada “injustiça” para alunos do ensino regular. Em primeiro lugar, os exames nacionais são uma prova nacional com um grau de exigência elevado e de extrema importância para os alunos que tenham interesse em ingressar na universidade, daí todas as emoções negativas provocadas por esta medida do Conselho Coordenador do Ensino Superior. As vozes contra dizem que assim há um claro favorecimento os alunos do ensino profissional que irão conseguir entrar na universidade com grande facilidade… certo? Errado.

Falando por experiência própria, eu fui aluno de ambos os sistemas de ensino (regular e profissional) e actualmente estou a tirar a licenciatura e entrei para a universidade por via do ensino profissional. Depois de observar tantas críticas a esta medida, e até vários insultos para com os intervenientes que a criaram, acredito que existe um mal-entendido nesta história.

Entrar para a universidade pelo ensino profissional não era uma tarefa fácil: é preciso um enorme esforço e determinação, uma ideia que parece não colher apoio entre aqueles que estão contra esta medida. Não quero com isto dizer que os alunos no ensino regular não passem também por grandes níveis de exigência no seu sistema de ensino — ingressar na universidade é um desafio para qualquer aluno.

Para ingressar na universidade, um estudante do ensino regular tem de ter uma determinada média final do ensino secundário e uma determinada nota ao exame nacional que o curso exigir: candidata-se com uma simples média entre esses dois elementos. No ensino profissional, a média é feita de maneira diferente: para além da média do curso, também se tem em conta a nota de dois exames nacionais (muitas vezes tem de ser feito um exame de uma disciplina que não é leccionada no ensino profissional), a nota da PAP - Prova de Aptidão Profissional (um trabalho extenso e obrigatório, escrito e com apresentação, que engloba todos os conhecimentos adquiridos no curso que determina se um aluno está pronto para entrar no mercado de trabalho) e a média da nota de dois estágios profissionais. Faltando ainda referir que os alunos do ensino profissional têm de estudar para os exames enquanto estão a ter aulas ou a fazer um estágio, sem qualquer aula de apoio para os exames. É assim tão injusto não serem realizados os exames nacionais?

Este mal-entendido também se deve aos títulos que foram dados às notícias como “alunos podem entrar na universidade sem fazer exames”. São títulos que captam logo o interesse mas que por si só não representam a verdade do ingresso no ensino superior para estes alunos. Sublinhe-se que não se irá simplesmente tirar os exames nesta equação, mas sim substituí-los por concursos locais. Com esta medida, os alunos do ensino profissional não terão de se preocupar tanto com realizar uma PAP, fazer um estágio e estudar para os exames em simultâneo, sem qualquer tipo de aulas de apoio. Tira-se assim um enorme peso das costas destes estudantes! E, face a isso, estou completamente de acordo com esta medida. É um passo em direcção à igualdade e não uma injustiça, é uma nova porta para que mais alunos do ensino profissional possam progredir a sua carreira no ensino e não ficarem barrados num curso de nível 4. Medidas como esta não deviam ser menosprezadas.