Ex-advogado de Rui Pinto arguido por envolvimento em tentativa de extorsão

Aníbal Pinto foi chamado ao Departamento Central de Investigação e Acção Penal, em Lisboa, mas remeteu-se ao silêncio por estar sujeito a sigilo profissional. Diz que vai pedir à Ordem dos Advogados o levantamento desse segredo para poder esclarecer tudo.

Rui Pinto está preso preventivamente desde a passada sexta-feira.
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Rui Pinto está preso preventivamente desde a passada sexta-feira. LUSA/RODRIGO ANTUNES

O ex-advogado do hacker português Rui Pinto, Aníbal Pinto, foi esta quinta-feira constituído arguido no caso em que o jovem de 30 anos está preso preventivamente desde sexta-feira. O defensor é suspeito de estar envolvido numa a tentativa de extorsão ocorrida em Outubro de 2015, de que foi vítima o fundo de investimento Doyen Investment Sports, sediado em Malta, que financia passes de jogadores e treinadores de futebol.

A notícia foi avançada pelo Jornal de Notícias e confirmada pelo PÚBLICO. Aníbal Pinto explicou ao PÚBLICO que esteve no Departamento Central de Investigação e Acção Penal, mas ficou em silêncio por estar obrigado ao sigilo profissional. Adiantou, contudo, que vai pedir à Ordem dos Advogados o levantamento desse segredo. “Estou convicto que num assunto desta sensibilidade a ordem levantará o sigilo para que eu possa esclarecer tudo”, afirmou Aníbal Pinto. 

O advogado diz que pretende apresentar alguma documentação ao Ministério Público, já que, constatou, que apenas uma parte da documentação escrita que trocou com o advogado da Doyen está no processo. “Não percebo porquê, mas no processo só aparece uma parte das comunicações com o meu colega, não tudo”, afirma Aníbal Pinto. O advogado estranha que o Ministério Público tenha demorado quase três anos e meio a ouvi-lo. “Se o Rui Pinto estava na Hungria, eu sempre estive em Portugal”, comenta. Apesar disso, o defensor diz-se tranquilo e explica que já foi arguido noutras situações. “No entanto, nunca fui acusado e acredito que, desta vez, também não o serei”, realça.

Em causa está o facto de Rui Pinto ter alegadamente contactado, a 3 de Outubro de 2015, através de email, o representante da Doyen Nélio Lucas, informando-o de que estaria na posse de informação confidencial relativa ao fundo, que estaria na disposição de manter privada mediante uma “doação generosa”. Isto depois de, no último dia de Setembro, terem sido divulgados vários contratos do Sporting através do site Football Leaks.

Na troca de mensagens com Nélio Lucas, o pirata — que se apresentaria como Artem Lobuzov e com um email registado no Cazaquistão — terá considerado apropriado, para não divulgar a informação, um valor entre 500 mil euros e um milhão de euros.

O jovem terá referido ainda que a negociação deveria ocorrer através de advogados afectos a ambas as partes, sendo, no seu caso, representado pela sociedade de Aníbal Pinto. Foi este o advogado que se apresentou a 21 de Outubro de 2015 num encontro com Nélio Lucas e o seu defensor, na estação de serviço de Oeiras da A5.

Nessa reunião, garante o Ministério Público, o advogado terá admitido que o seu cliente era o autor e criador do domínio e conteúdos do site Football Leaks e que pretendia celebrar um acordo com a Doyen. Aníbal Pinto já reconhecera ao PÚBLICO ter estado presente no encontro, mas apenas para firmar um contrato de trabalho e insistira que, mal se apercebeu de que havia suspeitas de extorsão, se retirou. 

Neste processo, Rui Pinto é suspeito de seis crimes: dois de acesso ilegítimo, dois de violação de segredo, um de ofensa a pessoa colectiva e outro de tentativa de extorsão. Nenhum dos quais envolve o Benfica ou o FC Porto, o único clube de futebol envolvido nesta panóplia de crimes é o Sporting que terá sido vítima de um acesso ilegítimo.