Hacker que assumiu autoria do Football Leaks suspeito de seis crimes

Nenhum dos crimes que o Ministério Público lhe imputa envolve Benfica ou FC Porto. Análise dos telemóveis e dos inúmeros discos rígidos apreendidos pode trazer novas provas ao caso.

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Reuters

O hacker português Rui Pinto, que ontem, no dia que se seguiu à sua detenção, assumiu ser autor da denúncia de vários escândalos do futebol mundial, através do Football Leaks, é suspeito, neste momento, de seis crimes, nenhum dos quais envolvendo o Benfica ou o FC Porto.

O Ministério Público (MP) imputa ao pirata informático de 30 anos, detido na quarta-feira em Budapeste, na Hungria, dois crimes de acesso ilegítimo, dois de violação de segredo, um de ofensa a pessoa colectiva e ainda uma tentativa de extorsão.

O único clube de futebol visado nesta panóplia de crimes é o Sporting, que terá sido vítima de um crime de acesso ilegítimo. Segundo os elementos recolhidos pela investigação, Rui Pinto terá acedido, a 30 de Setembro de 2015, ao email de vários membros da administração e do departamento jurídico dos “leões”.

Antes, já fizera o mesmo com o sistema informático do fundo de investimento Doyen Investment Sports, que financia passes de jogadores e treinadores de futebol. Este fundo, sediado em Malta, também terá sido visado pela tentativa de extorsão que o Ministério Público imputa a Rui Pinto.

Em causa está o facto de o hacker ser suspeito de ter contactado, a 3 de Outubro de 2015, através de email, o representante da Doyen, Nélio Lucas, informando-o de que estaria na posse de informação confidencial relativa ao fundo, que estaria na disposição de manter privada mediante uma “doação generosa”. Isto depois de, no último dia de Setembro, já ter divulgado vários contratos do Sporting através do site Football Leaks.

Na troca de mensagens com Nélio Lucas, o pirata — que se apresentaria como Artem Lobuzov e com um email registado no Cazaquistão — terá considerado apropriado, para não divulgar a informação, um valor entre 500 mil euros e um milhão de euros.

O jovem terá referido ainda que a negociação deveria ocorrer através de advogados afectos a ambas as partes, sendo, no seu caso, representado pela sociedade de Aníbal Pinto. Foi este o advogado que se apresentou a 21 de Outubro de 2015 num encontro com Nélio Lucas e o seu defensor, na estação de serviço de Oeiras da A5.

Nessa reunião, garante o MP, o advogado terá admitido que o seu cliente era o autor e criador do domínio e conteúdos do site Football Leaks e que pretendia celebrar um acordo com a Doyen. Contactado pelo PÚBLICO, Aníbal Pinto reconhece ter estado presente no encontro, mas apenas para firmar um contrato de trabalho e que, mal se apercebeu de que havia suspeitas de extorsão, se retirou. Sublinha que, desde então, nunca foi ouvido pela Polícia Judiciária ou pelo Ministério Público.

"Seriamente ameaçado"

As duas violações de segredo que são imputadas a Rui Pinto estão relacionadas com a publicação, no último dia de Setembro de 2015, de um conjunto de documentos confidenciais relativos ao Sporting — propostas, minutas e contratos relativos a jogadores e ao então treinador Jorge Jesus. E, nos dois dias seguintes, de vários contratos da Doyen com clubes de futebol. Rui Pinto é igualmente suspeito de ter criado uma página do Facebook na qual promoveu links de acesso ao site Football Leaks.

A vítima do crime de ofensa à pessoa colectiva é novamente a Doyen, que foi alvo de uma referência no site Football Leaks. Na mensagem dizia-se que o projecto visava “divulgar a parte oculta do futebol”. “Fundos, comissões, negociatas, tudo serve para enriquecer certos parasitas que se aproveitam do futebol, sugando clubes e jogadores”, lia-se no site.

Apesar de não ter elementos que comprovem a ligação do hacker português ao roubo dos emails do Benfica, Rui Pinto é, de facto, suspeito desse crime. Isto, em grande parte, porque a forma como o ataque foi realizado coincide com o modus operandi do especialista informático. As autoridades esperam que a análise da enorme quantidade de informação apreendida ao hacker na Hungria — guardada em discos externos, pen drives, cartões de memória e num computador — traga novos elementos de prova que permitam comprovar a suspeita. Além desse material, foram apreendidos três telemóveis.

A defesa de Rui Pinto assumiu ontem, num comunicado, que o jovem foi “denunciante” no caso Football Leaks, invocando esse estatuto (whistleblowers) previsto na legislação europeia. Essas normas destinam-se a proteger pessoas como Julian Assange, protagonista do escândalo Wikileaks, ou Edward Snowden, que revelou as práticas de vigilância usadas pelas autoridades norte-americanas, denunciantes que puseram a nu actividades de duvidosa legalidade com manifesto interesse público.

Os advogados avançam que o cliente irá opor-se ao pedido de extradição feito pelas autoridades portuguesas, que emitiram o mandado europeu que esteve na origem da sua detenção. No comunicado, os defensores, Francisco Teixeira da Mota e William Bourdon (que representou Julian Assange e Edward Snowden)​,​ adiantam que Rui Pinto nos últimos tempos "foi seriamente ameaçado, sendo o seu silêncio o objectivo de muitos intervenientes no mundo do futebol".

E alertam: "A importância da indústria do futebol não deve ser utilizada para manter na opacidade as práticas gravemente contrárias à lei que no mundo deste desporto se verificam". Sem nunca referirem expressamente ao roubo de dados, os advogados justificam a actuação do jovem “amante de futebol” por este se sentir “indignado com práticas vigentes neste desporto”, visto estas “não dignificarem a comunidade dos jogadores”.

O advogado francês William Bourdon confirmou ainda à agência France Press que Rui Pinto "está em activa colaboração com o Procurador Nacional de Finanças [de França]". "Também as autoridades suíças responsáveis pelas investigações relacionadas com a FIFA fizeram um pedido de colaboração ao Rui Pinto, sendo que ele deseja responder de forma positiva o mais rápido possível", referiu.

A equipa de defesa sustenta ainda "o incrível paradoxo que resulta da tentativa de criminalização do seu cliente, quando, na verdade, o seu gesto cívico e as suas revelações permitiram a numerosas autoridades judiciais europeias um avanço histórico no conhecimento das práticas criminosas no mundo do futebol".

O Football Leaks teve início em Setembro de 2015, com a fundação de uma página online que periodicamente publicou documentos com informações relativas a transferências de jogadores, casos de doping, racismo, fraude e quaisquer outras práticas de duvidosa legalidade ou moralmente condenáveis.

Nos últimos três anos, o site divulgou milhares de documentos contendo informação sensível relativa aos maiores clubes mundiais e, em Portugal, os três "grandes" foram, por várias vezes, visados nos documentos que vieram a público.