Facebook proíbe nacionalismo branco na plataforma

A partir da próxima semana, os utilizadores que tentem publicar sobre a ideologia serão dirigidos a uma página que ajuda pessoas a abandonar grupos de ódio.

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O Facebook quer lutar contra ideologias de supremacia, nacionalismo e separatismo da raça branca Yuri Gripas/Reuters

O Facebook anunciou esta quinta-feira que vai começar a barrar a difusão de ideologias a defender separatismo e nacionalismo branco das suas plataformas. Os utilizadores que continuem a tentar publicar sobre esses temas no Facebook ou no Instagram (que o Facebook comprou em 2012), serão dirigidos a uma página que ajuda pessoas a abandonar grupos de ódio. 

“As nossas políticas sempre proibiram o tratamento odioso de pessoas com base na sua raça, etnia e religião – e isso sempre incluiu a supremacia branca”, frisou a rede social num comunicado sobre a decisão para “tomar uma posição contra o ódio”.

“Inicialmente não utilizávamos o mesmo raciocínio para expressões de nacionalismo branco ou separatismo porque estávamos a pensar nos conceitos gerais”, explicou o Facebook. A rede social dá o exemplo do “orgulho norte-americano” que é “uma parte importante da identidade das pessoas.”

A mudança de visão do Facebook chega cerca de duas semanas depois de o atentado de Christchurch, na Nova Zelândia, ter sido transmitido em directo no Facebook durante 17 minutos. Mas a rede social diz que estava a explorar o tema desde o começo de 2019. “Três meses de conversas com membros da sociedade civil e académicos que são especialistas em relações raciais em todo o mundo confirmaram que o nacionalismo branco e o separatismo branco não podem ser significativamente separados da ideologia de supremacia branca e grupos de ódio organizados”, lê-se no comunicado da rede social.

Embora muitos “nacionalistas brancos” sejam também defensores de “supremacia branca” os termos não são sinónimos: de acordo com a Columbia Journalism Review enquanto o primeiro defende a segregação nacional e o privilégio da raça branca num país, o segundo defende que a raça branca é superior e deve controlar todas as outras. Já o “separatismo branco" é um movimento político que procura um desenvolvimento económico e social separado para pessoas brancas. 

A partir da próxima semana, os utilizadores que tentem publicar ou pesquisar sobre estes temas na rede social deverão ver uma mensagem onde se lê que essas “palavras-chave estão associadas a grupos e indivíduos perigosos”. Serão depois direccionados à página da Life After Hate, uma organização sem fins lucrativos que oferece apoio e informação sobre o tema.

A rede social nota que a tecnologia para filtrar conteúdo de ódio ou nacionalismo branco poderá ter falhas, mas que a equipa do Facebook está motivada para “melhorar tecnologias, políticas, e em trabalhar com especialistas”. 

Acusações de discriminação

Esta quinta-feira, a rede social foi acusada de dificultar, durante anos, a busca de imóveis no seu site a minorias nos EUA.

A queixa foi apresentada pelo Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano do país (HUD na sigla original). De acordo com a acusação, até há pouco tempo, a rede social permitia barrar anúncios de casas ou quartos no país a grupos de uma determinada raça, género, idade ou código postal.

“Utilizar um computador para limitar as escolhas de habitação de alguém é tão discriminatório como fechar a porta na cara de alguém”, justificou em comunicado o secretário do HUD, Bern Carson.

Foi em Agosto de 2018 que a equipa do HUD começou a investigar acusações contra senhorios e agentes imobiliários, para perceber as políticas que permitiam restringir anúncios a determinados grupos na rede social. 

O Facebook não é o único site que permite aos anunciantes escolher um público específico. Porém, a acusação nota que “o Facebook é diferente” porque “no Facebook as pessoas partilham as suas identidades, interesses, eventos da vida e mais.” E, além de a rede social disponibilizar ferramentas “para excluir homens ou mulheres de ver um anúncio”, era possível “negar informação sobre oportunidades de imóveis devido à raça, cor, religião, género, estado familiar, origem nacional, ou deficiência.”

Não é a primeira vez que as ferramentas de publicidade do Facebook são alvo de escrutínio.

Em 2016, a ProPublica, uma organização norte-americana de jornalismo de investigação, mostrou que os anunciantes podiam excluir utilizadores com uma determinada etnia de ver alguns anúncios.

No ano seguinte, a rede social foi novamente alvo de controvérsia, por utilizar o seu sistema para criar anúncios para pessoas que se diziam interessadas em temas como “ódio a judeus” ou “como queimar judeus”

Já em 2018, a rede social foi acusada de autorizar recrutadores a mostrar vagas de empregos só a homens.

Num comunicado enviado à imprensa, o Facebook diz estar “surpreendido” com a decisão, notando que já tomou várias medidas para resolver o problema e que estava a trabalhar com o próprio Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano nesse sentido.

Desde a quarta-feira passada, por exemplo, que já não é possível barrar anúncios de emprego ou imóveis a grupos de uma determinada idade, género, ou localização geográfica. Também não é possível barrar anúncios a “grupos protegidos”. Continua, no entanto, a ser possível dirigir anúncios com base na “afinidade multicultural”.

“Removemos milhares de categorias de direccionamento, como raça, etnia, orientação sexual, e religião”, notou o Facebook, num comunicado sobre as alterações. “Mas podemos fazer melhor.”