Salvador nasceu com 31 semanas e seis dias e “está bem”. Mãe esteve 56 dias em morte cerebral

Salvador “está bem, dentro do quadro da prematuridade”, segundo o hospital, e poderá ter alta dentro de três semanas a um mês. É o segundo bebé a nascer de uma gravidez em que a mãe estava em morte cerebral. O funeral da mãe, Catarina Sequeira, realiza-se esta sexta-feira em Crestruma, Vila Nova de Gaia.

Fotogaleria
A conferência de imprensa no Hospital de S. João NELSON GARRIDO
Fotogaleria
Parto ocorreu esta madrugada, no Hospital de S. joão, no Porto Paulo Pimenta/arquivo
Fotogaleria
A conferência de imprensa, no Hospital de S. João Nélson Garrido

Durante 56 dias, Catarina Sequeira, que entrou em morte cerebral na sequência de um ataque de asma, esteve ligada um ventilador para permitir a viabilidade fetal do seu bebé. Salvador nasceu esta quinta-feira, às 31 semanas e seis dias. Mede 40 centímetros e os 1700 gramas de peso estão “adequados à sua idade gestacional”, segundo a directora do Serviço de Neonatologia do Hospital de S. João (HSJ), no Porto, Hercília Guimarães. Se não houver intercorrências, Salvador poderá receber alta “dentro de três semanas a um mês”.

“A sua evolução é favorável, dentro do contexto de prematuridade”, precisou o director clínico do HSJ, Carlos Lima Alves, numa conferência de imprensa em que uma equipa multidisciplinar falou das questões éticas que se levantam sempre que se trata de “intervir num cadáver”, conforme descreveu o presidente da comissão de ética do Centro Hospitalar de S. João, Filipe Almeida.

“A primeira decisão que tivemos de tomar era se era legítimo intervir num corpo morto. E não há nenhuma legitimidade para o fazer, a não ser numa perspectiva de uma política de transplantação que poderá servir um bem maior. E aqui houve a transplantação mais plena que se pode imaginar: esta mulher não deu nenhum órgão ao filho, mas entregou-se toda para que ele pudesse nascer”, declarou o clínico ao PÚBLICO, para precisar que, no caso, duas outras vidas saíram beneficiadas, já que dois dos órgãos da mãe, Catarina Sequeira, foram doados para transplantação.

“Esta mãe nunca se declarou como não dadora, que seria a única razão que poderia impedir esta intervenção. O pai do bebé queria, a família mais alargada também queria, mas, se, a determinada altura, tivéssemos descoberto alguma patologia no bebé, não teria sido legítimo continuar com a intervenção, sob pena de incorremos naquilo a que chamamos ‘distanásia’”, acrescentou Filipe Almeida.

A cesariana estava programada para sexta-feira, altura em que o bebé teria potencialmente assegurada a viabilidade, mas “circunstâncias clínicas maternas” determinaram a sua antecipação urgente para “reduzir potencial dano no bebé”. “As circunstâncias que o motivaram foi a deterioração respiratória da mãe e a dificuldade em manter padrões de oxigenação suficientes que levaram a algumas alterações nos exames feitos ao bebé”, precisou aos jornalistas a médica intensivista Teresa Honrado.

Ao nascer, Salvador apresentava dificuldades respiratórias que justificaram apoio ventilatório, mas a perspectiva era que pudesse ser extubado a qualquer momento. “O bebé está bem, mas o pai, que acompanhou todo o processo, sabe que a evolução se fará a cada dia”, acrescentou Hercília Guimarães, segundo a qual, não havendo complicações, poderá receber alta, “depois de ganhar peso, depois de aprender a mamar”. Tudo dependerá, porém, da evolução, porque, apesar do prognóstico favorável, como salientou Filipe Almeida, Salvador apresenta “a vulnerabilidade própria da prematuridade” e “há situações que podem passar despercebidas e que podem vir a manifestar-se, por exemplo, só na idade escolar”. 

“Acreditamos que ele vai ficar bem”

Ao final da manhã, o PÚBLICO falou com o irmão de Catarina Sequeira que se mostrou confiante. “Acreditamos que ele vai ficar bem, mas os médicos ainda não conseguem perceber se o bebé terá algum tipo de sequelas a nível cerebral”, explicou António Sequeira, lembrando que a irmã chegou a estar 15 minutos sem respirar. “Não sabemos que tipo de sequelas é que isso lhe pode ter provocado, mas acreditamos que ele vai ser forte”, acrescentou.

O funeral da mãe será esta sexta-feira, às 15h00, em Crestuma, concelho de Vila Nova de Gaia. O seu corpo estará em câmara-ardente já a partir desta tarde. 

Com 26 anos, Catarina Sequeira, que somou 41 medalhas enquanto atleta, estava grávida de 19 semanas quando, por causa de um forte ataque de asma, de que sofria desde a adolescência, perdeu os sentidos. A morte cerebral da canoísta acabou por ser declarada no dia 26 de Dezembro, uns dias depois da crise aguda que a levara a desmaiar na casa de banho, não tendo sido já possível reanimá-la. 

A mãe, Maria de Fátima Branco, apoiou a decisão e acompanhou a filha durante todo este processo, apesar de, como chegou a declarar ao PÚBLICO, recear pelas eventuais complicações decorrentes do prolongamento artificial das suas funções vitais para permitir o desenvolvimento do feto dentro do seu útero. 

Este é o segundo bebé a nascer em Portugal com uma mãe em morte cerebral. O primeiro foi Lourenço, que nasceu em 2016 no Hospital de S. José, em Lisboa, depois de a respectiva comissão de ética ter concordado manter a mãe, Sandra, ligada às máquinas. Neste caso, a gravidez avançou também até às 32 semanas, o que motivou dezenas de páginas de jornais portugueses e estrangeiros.

O feto sobreviveu 15 semanas na barriga da mãe que estava em morte cerebral depois de ter sofrido uma hemorragia intracerebral – foi o período mais longo alguma vez registado em Portugal. Com a mãe transformada numa “incubadora viva”, como referiu então o presidente da comissão de ética daquele centro hospitalar, Gonçalo Cordeiro Ferreira, o bebé nasceu com 2,350 kg, tendo tido alta hospitalar cerca de um mês depois.