Da machadinha e da Catrina aos Amigos de Gaspar

Depois de um concerto no Sol da Caparica, em 2015, Ana Bacalhau, Jorge Benvinda, Sérgio Godinho e Vitorino regressam ao património da música popular portuguesa. Canções de Roda aproxima as suas infâncias às de hoje.

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Os quatro de Canções de Roda, um disco que regista para a posteridade a aventura de um concerto único Daniel Rocha

Quando foram chamados para a primeira reunião acerca do projecto que haviam de apresentar em palco no festival Sol da Caparica, Ana Bacalhau, Samuel Úria, Sérgio Godinho e Vitorino tinham uma lista de canções à sua espera. Canções de roda, lenga-lengas, melodias e versos populares aprendidos em qualquer infância passada entre Faro e Bragança nos últimos cem anos. Lá peneiraram entre canções que lhes avivavam as próprias memórias de quando eram gaiatos, lá se imaginaram a cantar de novo Indo, indo eu a caminho de Viseu, Ah ah ah minha machadinha, Oliveirinha da serra, Ó Rosa arredonda a saia ou As pombinhas da Catrina. E nesse ano de 2015, no derradeiro dia do Festival Sol da Caparica, sempre dedicado ao público mais novo, fizeram desfilar essas canções, com arranjos do pianista Filipe Raposo, acompanhadas de revisões de alguns temas dos seus próprios reportórios.

Passado um par de anos, António Miguel Guimarães, o obreiro do Sol da Caparica, voltou à carga, desafiando os quatro para registarem em estúdio a aventura desse concerto único – disco agora lançado pela Universal sob o título Canções de Roda, Lenga Lengas e Outras que Tais, com ilustrações de Cláudia Guerreiro (baixista dos Linda Martini). Perante a indisponibilidade de Samuel Úria, esse lugar foi ocupado por Jorge Benvinda (cantor e compositor do grupo Virgem Suta). “O âmago são as canções que conhecemos desde sempre e que são do imaginário popular”, sublinha Sérgio Godinho, em entrevista dos quatro ao PÚBLICO. “O que foi procurado”, complementa Vitorino, “foi buscar uma memória daquelas mais cantadas em todo o país, porque estas cantam-se em toda a parte, com pequenas diferenças no texto. Do Minho ao Algarve, a Angola e até a Timor”.

“Estas canções são provavelmente do princípio do século XX”, acredita Vitorino. “Não sei se no século XIX faziam cantigas de roda – havia tanta porrada e tanta guerra...” Essa, junta-se Ana Bacalhau, era uma época em que “a infância não era valorizada”. Mas se esse era um tempo em que “andava tudo à traulitada”, este não é, ainda assim, um reportório isento de pequenas manifestações de agressividade. A mãe de As pombinhas da Catrina quer bater à filha, lembra Vitorino. E é isso que ouvimos pelas vozes dos quatro quando dão nova vida a esse peculiar diálogo entre filha e mãe, quando a primeira diz “Ó minha mãe não me bata / que eu ainda sou pequenina” e a segunda retorque “Não te bato porque achaste / as pombinhas da Catrina”.

A vocalista dos repousados Deolinda (em pausa por tempo indeterminado) junta Ó menino ó aos exemplares ligeiramente perturbadores de Canções de Roda. E isto porque o tema popular fala de um pai que “foi ao eiró / com ‘ma vara d’aguilhão / pra matar o perdigão”. “Não escolhemos as canções com o fito do politicamente correcto”, justifica Ana Bacalhau. “Algumas mostram-nos hábitos culturais que existiam e se foram perdendo – ou se calhar ainda existem.” Na verdade, alguns destes temas reflectem como “as crianças eram muito mal-tratadas no início do século XX”, confirma Vitorino. “Felizmente os miúdos agora não levam tantas reguadas, embora alguns ainda levem uns bofetões, porque em Portugal as criancinhas tiveram a sua independência muito tarde e ainda estão a conquistá-la. Eram homúnculos, vestiam-nas como homens. Em pequenino eu vestia um fato igual ao do meu pai e dos meus irmãozinhos – mas com calçanito –, porque vinha a fazenda e aquilo era feito para todos por um alfaiate.”

Sem ter o “politicamente correcto” como critério, não deixaram passar pelo seu crivo canções populares como Atirei o pau ao gato ou Sebastião come tudo (que vai para casa “e dá pancada na mulher”). Ana Bacalhau horroriza-se perante a possibilidade de cantar tais letras; Sérgio Godinho concorda que há imagens “que não convém muito propagar”; Jorge Benvinda acredita que os actuais “valores activos da crítica social” podem levar a uma forma de branqueamento de canções que desenham o retrato de um quotidiano português com tanto de real quanto de paródico.

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Esse branqueamento, diz ainda Benvinda, é comparável ao tom lamentoso que diz escutar em quem se refere aos “coitados dos miúdos que levaram reguadas”. “Levei imensas reguadas quando era miúdo e foram muito bem dadas porque fazíamos muitíssimas asneiras.” O relato activa de imediato as memórias de Sérgio Godinho e de Vitorino – as mãos de Ana escaparam – da palmatória, a chamada “menina dos cinco olhos”. E ambos se queixam da injustiça das reguadas que apanharam. Depois, rematando o assunto, Godinho lembra que, no caso das Canções de Roda, “não existe um fito histórico” associado ao disco – que poderia enquadrar exemplos menos pacíficos pela bitola dos valores correntes. “Não há um contexto, são canções que, no fim de contas, são muito lúdicas e mostram também aquilo que é a poesia popular e, por vezes, o absurdo das suas imagens. E esse é também o gozo de não estarmos a contar uma historiazinha didáctica de A a Z. Estamos fundamentalmente a ter prazer em cantar como as pessoas de qualquer idade e extracto social fazem.”

Primeiras memórias

A haver um propósito assumido de Canções de Roda, esse passa pela recuperação da memória de um legado de canções e ritmos populares, de uma origem “muito rica e diversa”, que hoje parece completamente esquecido e ausente da vida das crianças que constroem as suas primeiras recordações musicais. Sérgio Godinho acredita que é vital lembrar o quanto “a música popular acaba por ser uma amostra da essência portuguesa”, numa altura em que o “fado se tornou muito hegemónico” na percepção da música de raízes locais. Mesmo em países como o Brasil, cujo riquíssimo património rítmico engordou também através dos fenómenos migratórios – com os ritmos minhotos e transmontanos, por exemplo, que fizeram a travessia do Atlântico e foram depois assimilados pelo novo país.

Canções de Roda não é, por outro lado, composto em exclusivo por canções pensadas para o público infantil. Há temas populares como Erva cidreira ou Tia Anica de Loulé, mas também a Canção de embalar (de José Afonso) ou criações dos reportórios dos cantores que possam conter um apelo especial para as plateias mais novas (Coro das velhas, de Godinho, Queda do império, de Vitorino, Um contra o outro, dos Deolinda, ou A valsa do Afonso, que Samuel Úria delegou na voz de Jorge Benvinda). Tudo interpretado por uma banda “clássica e moderna” formada por Filipe Raposo (piano), Quiné Teles (percussões), António Quintino (contrabaixo) e Luís Peixoto (cordofones).

As memórias musicais de infância confundem-se quando se cruzam duas gerações. Para Ana Bacalhau e Jorge Benvinda, É tão bom, canção que Jorge Constante Pereira compôs (com letra e interpretação de Sérgio Godinho) para a série televisiva Os Amigos de Gaspar nos anos 1980 e que é revisitada neste disco, pertence já a esse património de afectos dos primeiros anos de vida. “Alguma vez, quando via Os Amigos de Gaspar religiosamente e vibrava com a canção, imaginava que iria fazer os coros do Sérgio?”, pergunta a cantora. “Ah, a vida é maravilhosa.” Também Vitorino traz do seu álbum Cantigas de Encantar, lançado em 1990, outro delicioso mergulho no elástico mundo que as crianças guardam nas suas cabeças, exemplos de algumas das raras investidas na música para este público experimentadas em Portugal. Ainda hoje, lamentam Ana e Jorge, contam-se pelos dedos de uma mão os discos com um reportório que não seja acompanhado por “instrumentos virtuais”, uma espécie de marca branca de receitas fáceis e sem qualquer investimento musical com que este reportório é habitualmente brindado. Há, claro, as excepções que representam, ainda, os discos recentes de Clã ou Luísa Sobral.

Isso é hoje, no entanto. Nesta mesa a que estamos sentados, os dois mais novos cresceram já a poder contar com Sérgio Godinho e Vitorino a criar para os catraios, ao mesmo tempo que ouviam também, naturalmente, a música dos adultos. Por seu lado, da sua infância o autor de Lisboa que amanhece recorda sobretudo estas canções populares, associadas a momentos de partilha com os pais. “Eles cantavam os dois muito bem e nas viagens cantavam em harmonia este género de canções. Era uma coisa que me trazia um grande conforto, porque eram realmente momentos de harmonia, através da música e destas canções.” Ao entrar na adolescência, e numa altura em que se interessava já pela fabricação das canções, ouvia muito o Conjunto António Mafra, algo que o “atraía imenso”. Mais tarde, já músico, havia de resgatar essa paixão pela música popular de António Mafra ao interpretar O carteiro (que Godinho gravou em 1986, em Na Vida Real).

Para Vitorino, nascido e criado no Redondo, vila alentejana, numa altura em que ia a Espanha “comprar caramelos, Coca-Cola e Colgate – porque aqui o Salazar não deixava”, os sons dessa primeira idade misturam as canções populares portuguesas e os boleros cubanos e mexicanos. “Eu tinha muita sorte porque tinha uma orquestra de tios”, explica. “Os meus tios Salomé tinham uma orquestra que, como somos fronteiriços, tocavam esses grandes boleros e eu misturava Ó Rosa arredonda a saia com El día que me quieras, Quizás, quizás, quizás e tangos. Quando dormia no quarto do primeiro andar da minha avó, os meus tios ensaiavam no rés-do-chão e fiquei com isso na cabeça.”

Adicionando um outro ponto de interesse a Canções de Roda, António Miguel Guimarães pediu ainda aos cantores que escrevessem contos que foram depois gravados em estúdio lidos pelos próprios (a chegada mais tardia de Jorge Benvinda não permitiu já a sua participação). Ana Bacalhau escreveu acerca do lugar das histórias na transmissão oral e dos afectos a partir da figura de uma avó inspirada na sua família, Sérgio Godinho criou uma pequena ficção em torno de uma canção que não ficou no lote final (A saia da Carolina) que se torna “uma viagenzita imaginária e completamente fantasiosa”, enquanto Vitorino – que cresceu a ter de haver-se com os pesadelos provocados “pelos contos terríveis da Tia Ventura” – reflecte um pouco sobre o largo como “centro da vida das aldeias e das vilas alentejanas”. Claro que é extensível ao resto do país, mas o seu texto entra mesmo pelas noites de Verão do Redondo, em que a rapaziada, num largo de terra batida, jogava à bola e bailava.

Agora que o largo está empedrado, diz Vitorino, não se joga à bola porque os joelhos ficam escalavrados por qualquer queda e não se escuta canções de roda porque as mãos e os olhos dos mais pequenos estão entretidos com telemóveis. A História não se repete da mesma maneira, o mundo já não é igual. Mas pode ser que as canções fiquem.

Notícia corrigida no dia 25 de Março relativamente à autoria da composição da canção É Tão Bom