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Megafone

Se Michael Jackson foi pedófilo, posso continuar a ouvir o Thriller?

Vivemos tempos duplamente difíceis para as vítimas: primeiro, têm de sofrer abusos e, depois, quando exigem justiça ou querem, simplesmente, contar a sua história, são rotuladas de mentirosas, interesseiras e oportunistas.

“Hoje, as pessoas não querem ser informadas: querem ter razão.” Como as aspas bem demonstram, esta frase não é minha. É de um grande amigo meu e captura gloriosamente os tempos em que vivemos. Tempos de crença, mais do que tempos de informação e conhecimento. Tempos em que as torrentes de ideias baralham, confundem, transtornam. Creio que o fenómeno está intimamente ligado ao facto de o comum dos mortais não saber no que acreditar, por não ter referências do que é ou não porto seguro da informação, e isso fá-lo crer no que lhe parece mais plausível, de acordo com a sua própria vivência. É, aliás, também por isso que as fake news grassam com tanta facilidade.

Na semana passada, a HBO lançou o documentário Leaving Neverland, no qual Wade Robson e James Safechuck revelam as suas histórias de abuso sexual de que terão sido vítimas por parte de Michael Jackson. São quatro horas que arrancam, logo desde cedo, para detalhes que revelam um rei da pop bem diferente daquele que vimos e ouvimos ao longo de 30 anos — suicídios, ameaças veladas e, claro, descrições bastante gráficas do que Jackson terá feito a crianças, na sua própria cama, no rancho de Neverland. Como era de esperar, logo se levantaram as vozes — que, muito provavelmente, não viram o documentário e, como tal, não compreenderam o nível de detalhe e os indícios reunidos para contar uma história desta envergadura — dizendo que as vítimas estão apenas à procura de fama e dinheiro, logo agora que o morto não podia defender-se.

Vivemos tempos duplamente difíceis para as vítimas: primeiro, têm de sofrer abusos e, depois, quando exigem justiça ou querem, simplesmente, contar a sua história, são rotuladas de mentirosas, interesseiras e oportunistas. É por isso que as devemos defender duplamente: quando alguém levanta suspeitas sobre um poderoso, temos de levar essas alegações a sério. Porque a coragem que envolve levantar suspeitas sobre um poderoso não é coisa que se tome de ânimo leve, logo a começar pelo pavor de receber represálias do próprio, mas também da sua horda de fanáticos.

Vivemos também tempos em que os níveis de empatia estão abaixo dos mínimos olímpicos. Muito por causa das redes sociais e do imediatismo da avalanche de informação que nos soterra a toda a hora, não somos capazes de absorver a densidade de cada drama, cada história, cada tragédia pessoal. Não conseguimos perceber que cada um de nós, escondido atrás de uma foto de Instagram, está a atravessar uma luta dura, seja ela qual for.

Em contra-corrente, continuamos a endeusar as celebridades que admiramos pelas suas capacidades profissionais, extravasando essa admiração para o campo pessoal, quando na verdade não fazemos ideia do que pensam ou fazem essas pessoas no seu dia-a-dia. É por isso que todos caímos na esparrela da receita da NASA do chef Kiko, é por isso que não concebemos sequer a hipótese de Ronaldo poder ter violado uma mulher, é por isso que ouvimos a Thriller achando que Michael Jackson era um santo e, como tal, nunca poderá ter sido pedófilo. Mas as pessoas — tanto as vítimas como os abusadores — são pluridimensionais, têm facetas boas e más em simultâneo. Dando um exemplo concreto: para muitos, parecerá estranho que aqueles que terão sido abusados por Michael Jackson tenham, em certas alturas, gostado do seu abusador, em momentos nos quais não estavam a sofrer abusos, como os próprios revelam ao longo do documentário. Porque eram amigos, apesar dos traumas causados de tempos a tempos.

Simultaneamente, há outra dor da qual precisamos de nos livrar: não é errado apreciar um filme produzido por Harvey Weinstein, ver uma interpretação de Kevin Spacey ou ouvir uma canção de Michael Jackson, embora os seus autores possam ter cometido crimes. Não temos de os apagar da História, temos de os enquadrar na História. Temos de olhar para as obras sabendo que os seus autores poderão ter incorrido em crimes. Como sociedade, saímos a ganhar: entendemos que um ser humano pode ser uma besta e, ao mesmo tempo, ser extraordinário numa determinada arte. Porque, se decidirmos eliminar o legado, ficamos duplamente a perder: os abusos não deixam de ter existido, mas as obras deixam de poder ser apreciadas, analisadas e escrutinadas.

Creio que precisamos de nos tornar um bocadinho mais crescidos e esquecer as querelas do Facebook e as gritarias próprias do futebol dos azuis contra os vermelhos. Precisamos de perceber que a vida não é uns contra os outros. Somos todos tão iguais quanto diferentes, a sofrer e a celebrar em quase igual medida. E todos devemos ter voz e ser ouvidos com reverência e respeito. Só assim se apuram verdades. E é urgente ter verdades nos tempos que correm.