Crónica

Vingré, 4 de Dezembro de 1914

O martírio dos seis fuzilados de Vingré é tão absurdo que me deixa perplexo, sem saber ao certo como decifrar a Europa que os matou a sangue-frio. Rimbaud escreveu em Iluminações: “Podemos extasiar-nos na destruição, rejuvenescer pela crueldade!” Teremos aprendido alguma coisa desde o Inverno de 1914? Segunda parte da terceira de uma série de crónicas sobre a Guerra das Guerras.

Em Le Feu, de Barbusse, um soldado chama o narrador e aponta-lhe, num campo de lavoura, o lugar onde foi fuzilado um camarada. O poste a que o amarraram é baixo, um metro de altura, não mais, o fuzilado nem sequer pôde morrer de pé, teve de se ajoelhar ou sentar no chão. “É um poste para animais”, comenta alguém. Enquanto escreviam as suas cartas de despedida, na cave que acabo de abandonar e onde a Alexandra preferiu ficar mais um pouco, os seis de Vingré ouviram cravar os postes na terra deste campo de cultivo em cuja orla me encontro agora parado. Não sei, porque o relatório da execução não o especifica, se os postes eram curtos, se, antes de os matarem, obrigaram aqueles homens a agachar-se como animais. O texto refere apenas, na linguagem seca e previsível dos burocratas, que “todos eles morreram com muita valentia”. Quererá dizer que não choraram? Seria esse o critério da valentia? O texto também não refere se o oficial que comandou o pelotão de fuzilamento lhes desfechou ou não na cabeça o tiro de misericórdia regulamentar. Um outro relatório em que três médicos militares do regimento, designados para o efeito, atestam a morte dos seis fuzilados termina com a frase: “Todos tiveram morte instantânea.” Talvez tenham sido poupados ao tiro de misericórdia na têmpora. Ou talvez estas fórmulas fossem meras frases feitas para escamotear o cariz criminoso do ritual.

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Os soldados alemães entraram na trincheira ocupada pela meia secção do sargento Diot por volta das cinco horas da tarde, pela extremidade direita. Seguiu-se uma coreografia de gestos aparentemente corriqueira, idêntica a tantas outras refregas, a tantos outros avanços e recuos, a tantos outros momentos entre o grotesco e o medonho que fizeram a longa história desta guerra. Só que, neste caso, o relatório do sucedido, ao galgar de mão em mão os degraus da hierarquia, chamou a atenção de homens que ostentavam, nas platinas do dólman, pequenas constelações de estrelas douradas. Um alferes do batalhão do meu pai no Ultramar, com quem falei aquando das minhas pesquisas sobre essa outra guerra, descreveu assim os militares de carreira com quem privou: “Tipos completamente histéricos.” Em Dezembro de 1914, o destino dos cidadãos da Europa, mesmo nos países democráticos, estava nas mãos de tipos completamente histéricos. Que nos sirva de lição. A máquina trituradora, sempre atenta, pôs-se em movimento. Houve um inquérito preliminar. Recolheram-se depoimentos. Por fim, convocou-se um conselho de guerra. Tudo no prazo de seis dias. Os gestos dos actores daquele banal quarto de hora foram examinados à lupa e sopesados ao milímetro por juízes que tinham uma medida de culpa para distribuir e que queriam à viva força pregá-la na lapela de alguém, fosse lá quem fosse, para se livrarem daquele peso que ameaçava queimar-lhes as mãos.

Que plantas são estas?

À minha frente estende-se um manto de verdura. Sei que estas plantas não são batateiras, não são faveiras, não são ervilheiras. Não são couves nem alfaces, isso é evidente. Mas o meu saber atém-se neste ponto, não vai mais além. Sei o que não são estas plantas, mas não sei o que são. Não surge ninguém a pé a quem eu possa perguntar. Há uma casa ali ao fundo, mas não faz sentido incomodar os moradores, bater à campainha, sobressaltar as aves de capoeira e os cães de guarda, apenas para perguntar que plantas são estas que crescem na terra onde morreram seis homens. Passam carros esporádicos, de meia em meia hora, de vidros fechados por causa do frio, que logo desaparecem sem abrandar. Alguém, certamente um dos tais “ingleses” de que me falou o aldeão das galochas, deixou, presa a um dos adornos metálicos do monumento aos fuzilados, uma papoila feita de lã tricotada.

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Vingré e cave

Ler os depoimentos incluídos no processo é doloroso, causa-me um incómodo quase físico. Como inevitavelmente sucede sempre que o aparelho judicial prende alguém nas suas quelíceras, o destino de cada um não se jogou nos factos ocorridos, mas sim no modo como os factos foram traduzidos em palavras, no modo como as palavras de cada relato se entrelaçaram na rede semântica dos outros relatos. Só que, neste caso, a desproporção entre o suposto delito e o castigo infligido é tão grande que me deixa aturdido, sem ter a que me agarrar. Mais penoso ainda: em todos os depoimentos dos acusados transparece uma tensão de cortar à faca, como se eles caminhassem em terreno minado, como se fossem marinheiros de Ulisses encerrados na caverna do Ciclope cego, todos a falarem em sussurros para não atraírem sobre si as atenções do monstro que ronda por perto, cientes de que qualquer passo em falso será fatal. Tinham perfeita noção de que estavam em jogo as suas vidas, sabiam a dimensão da infâmia que os cercava. Rimbaud, pela pena do tradutor Cesariny, escreveu em Uma Cerveja no Inferno: “O mais ajuizado será abandonar tal continente onde a loucura ronda em busca de reféns para estes miseráveis.” O continente, claro está, era a Europa. E os miseráveis eram o comerciante, o magistrado, o general, o imperador. Os homens da meia secção do sargento Diot perceberam que chegara a sua vez. Os reféns da loucura europeia eram agora eles.

O cabo Floch escreveu à mulher, Lucie, na última carta: “Peço-te perdão de joelhos, humildemente, por toda a mágoa que te vou causar e pelos transtornos que irás sofrer por minha causa...” O soldado Blanchard escreveu à mulher, Michelle: “Perdoa-me, minha amada, tudo o que vais sofrer por mim.” E o soldado Gay escreveu à mulher, Marie: “Perdoa-me a mágoa que te vou causar, assim como aos meus pobres pais.” Palavras quase decalcadas umas das outras. Estes homens sabiam que ao seu martírio se iria seguir o martírio das viúvas, dos órfãos, dos pais, e sentiram-se compelidos a pedir perdão. Talvez seja esta a maior infâmia de todas. Terem-nos levado a pedir perdão por uma falta que não era sua. Terem-nos feito morrer dilacerados, atormentados. Percorro a aldeia a pé com a Francisca como se percorresse uma via-sacra, detenho-me diante de cada um dos seis painéis de acrílico, traduzo laboriosamente em voz alta os textos das cartas. Estendo o braço e toco nas fotografias ali estampadas. Retratos que eles tiraram em estúdio, vestidos com o seu melhor uniforme, antes de partirem para a guerra, porque queriam deixar em casa a sua imagem. Retratos em que eles nos olham, serenos, como se, finalmente, tivessem alcançado uma certa paz.

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Estrada para Vingré

“Às armas!”

O cabo Floch estava na ponta direita da trincheira com o soldado Aulanier e o soldado Gay. Viu chegar os alemães e ficou estupefacto. Não estava à espera de ver aparecer assim o inimigo, julgava que a trincheira à sua direita se encontrava ainda ocupada por tropas francesas. Estava a comer, não tinha a arma ao alcance da mão. Os alemães encostaram-lhe as baionetas ao peito, fizeram o mesmo a Aulanier e a Gay, gritaram-lhes: “Mãos ao ar! Rendam-se!” Floch gritou por sua vez: “Alerta! Estão aqui os boches!”

No conselho de guerra, realizado no dia 3 de Dezembro, às cinco da tarde, foram constituídos réus, acusados de abandono do posto em presença do inimigo e de desobediência à ordem de marchar contra o inimigo, 24 homens. Dois cabos e 22 soldados, todos pertencentes à meia secção do sargento Diot. Dos presentes naquela trincheira, só não foram levados a tribunal o próprio sargento Diot, o soldado Aulanier e o soldado Pellerin.

A esmagadora maioria dos acusados nem sequer chegou a pôr os olhos no inimigo. Os depoimentos assemelham-se nas suas linhas gerais. Estavam a comer, ouviram gritos vindos da direita. Gritos lancinantes, dizem alguns, como se alguém estivesse a ser degolado. Gritou-se: “Às armas!” A ordem foi passada de boca em boca. Todos deitaram a mão às espingardas, prenderam a baioneta ao cano da arma. Uns ouviram gritar: “Avancem, avancem!” Outros ouviram brados a ordenar a retirada. De repente, soaram gritos: “Salve-se quem puder, estão ali os alemães, vão-nos massacrar!” Houve uma correria, encontrões na trincheira apertada. Um soldado desequilibrou-se, caiu de joelhos, tornou a levantar-se. Um caudal humano jorrou, impetuoso, e escoou-se pela galeria de acesso à trincheira de segunda linha, levando-os a todos. Quem já se viu arrastado por uma multidão em pânico sabe do que falo. Depararam-se com o subtenente Paulaud, que lhes ordenou que regressassem à trincheira abandonada. Depois de alguma hesitação, seguiram-no e foram deparar-se com a trincheira deserta. Foi esta a história que quase todos contaram. Não houve mortos nem feridos de parte a parte. Entre o início e o fim deste banalíssimo incidente decorreram, nas palavras do comandante da companhia perante o tribunal, não mais de dez minutos, um quarto de hora, no máximo.

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Cave onde passaram a última noite cinco soldados e um cabo

O sargento Diot mostrou-se implacável no seu depoimento. Disse que, ao ouvir o tumulto vindo da direita, avançou nessa direcção. Contornou Floch, Gay e Aulanier e deu de caras com três alemães, a quem gritou: “Quem vive? Mãos ao ar!” O alemão mais próximo dele atirou a espingarda ao chão e ergueu os braços, declarando: “Desarmado!” Mas o alemão que se encontrava logo atrás, ao ver avançar o sargento, fez menção de o ferir com um golpe de baioneta. Diot esquivou-se e gritou: “Socorro! Acudam-me!” Porém, ao virar-se, viu, a fazer fé no seu depoimento, que a trincheira estava agora deserta. Os seus homens, queixou-se, incluindo Floch e Gay, que ele acabara de libertar das mãos dos alemães, tinham-no deixado só.

Floch e Gay contam a história de um modo diferente. Há aqui reflexos de Rashômon, de Akira Kurosawa. Floch não viu Diot a contorná-lo. Gay viu apenas um alemão a desferir um golpe de baioneta na direcção do sargento. Seguiu-se, dizem ambos, uma confusão, empurrões, caos. Tanto um como o outro olharam em volta e deram por si sozinhos. Naquele recanto da trincheira, face a face com o inimigo, com a morte, todos, alemães e franceses, se devem ter sentido repentinamente muito sós. A dois passos do inimigo, em vez de se massacrarem a tiro, como facilmente poderiam ter feito, abstiveram-se de disparar e limitaram-se a exigir uns aos outros que se rendessem. Deve ter sido isto o que mais enervou as chefias: perceberem que os seus homens ainda se comportavam como seres humanos, ainda não tinham feito a plena aprendizagem da barbárie. Floch, talvez adivinhando que se preparavam para o condenar, disse com todas as letras ao inquiridor: “Se fosse minha intenção não combater mais, ter-me-ia deixado levar, teria ficado prisioneiro dos alemães. Ninguém me salvou, eu é que tirei partido da confusão para me escapar, a prova é que Aulanier, que estava ao meu lado, não fugiu.” O absurdo desta guerra em que a Europa se suicidou, física, cultural e moralmente, está cristalizado nestes dois destinos. O cabo Floch, fugindo dos alemães ao encontro dos camaradas, veio entregar-se nas mãos dos seus algozes. O soldado Aulanier, ao acompanhar os seus captores até às linhas alemãs, salvou a vida.

Um faisão de pescoço verde-azulado, corpo negro e vermelho, a cobrir-se de reflexos metálicos, percorre o campo de lavoura diante do monumento para junto do qual eu e a Francisca regressámos, terminado o nosso périplo. O faisão rompe pelo meio das plantas com os seus movimentos sacudidos de ave mecânica, vejo-o cintilar aqui e além. Por fim, desaparece.

À esquerda ou à direita

A segunda testemunha cujo depoimento deu aos juízes os pretextos que eles procuravam para ceifar a eito nas fileiras dos seus próprios homens foi o subtenente Paulaud. Ao ver surgir o tropel de fugitivos, afirmou ter tentado obrigá-los a darem meia volta, gritando-lhes: “Avancem! Avancem todos!” Em resposta, os soldados gritaram-lhe duas ou três vezes, sem que ele soubesse ao certo quem fora: “Estão ali os boches, você quer que a gente morra, é?” Furioso, chamou-lhes inúteis, e foi nesse momento que alguém, atrás dele, lhe berrou: “Já que é tão corajoso, vá você à frente!” E então, enchendo-se de brios, o subtenente Paulaud irrompeu ao encontro da trincheira da primeira linha, seguido, afirmou, por um único soldado, Pellerin, que viu assim o seu nome riscado da lista dos réus. Em 1921, no processo que conduziu à reabilitação dos seis de Vingré, várias testemunhas afirmaram que Paulaud, tendo saído do seu abrigo, ordenou de viva voz a retirada para a trincheira de segunda linha e foi um dos primeiros a fugir.

Este texto esteve para se intitular “Os seis do lado direito da trincheira”. De início, pensei que tivesse sido esse o critério adoptado pelos juízes para escolher as vítimas. Sem deixar de ser monstruoso, seria, ao menos, lógico. Mas nem isso. Os interrogadores mostraram-se obcecados com a posição relativa dos homens na trincheira, quiseram saber com toda a minúcia quem estava à direita e à esquerda de quem, mas, no momento de pronunciar o veredicto, imperou a mais absoluta aleatoriedade. Pettelet e Blanchard estavam na parte esquerda da trincheira e foram condenados à morte. Nada há nos depoimentos deles que os diferencie dos restantes. Li-os e reli-os de fio a pavio, nada contêm que pudesse ser usado como prova incriminatória, nem mesmo por alguém com más intenções. Quando não se pretende fazer justiça, mas apenas arranjar bodes expiatórios, tanto faz condenar este ou aquele. Podiam ter tirado à sorte, como faziam os romanos para dizimar uma coorte. Sempre seria mais honesto.

Louis Barthas, tanoeiro, traça nas suas memórias um quadro de desconfiança mútua, de animosidade declarada entre os oficiais e os soldados franceses durante a Grande Guerra. Alguns dos episódios por ele descritos são incríveis. Numa trincheira de primeira linha, um soldado da esquadra de Barthas, ao manejar a culatra da espingarda, fere-se na mão e começa a sangrar. Um sargento acorre de imediato, acusa-o de se ter ferido de propósito e leva-o à presença do capitão. Só os protestos veementes do soldado o livram de enfrentar um conselho de guerra. Numa galeria juncada de mortos, os soldados passam horas a fio à chuva, de noite. O comandante envia sucessivos bilhetes de mão em mão, ordenando o ataque às posições alemãs, a 50 metros dali. Os soldados recalcitram, exigem que o comandante chefie o ataque em pessoa, ao invés de se esconder mais atrás. Um deles rasga um dos bilhetes e deita os pedaços para o chão, perante os risos aprovadores dos camaradas. Uma frase circula de boca em boca, como se, ao repeti-la, os homens ganhassem coragem para desobedecer: “Não vamos atacar.” O comandante não aparece, ninguém ataca. Numa trincheira alagada, onde vários soldados morreram, engolidos pela lama que os suga como areias movediças, os homens da esquadra de Barthas não conseguem avançar mais. Estupefactos, ouvem risos, cantorias. Percebem que se encontram diante do abrigo do capitão, um lugar bem aquecido, bem iluminado, onde os oficiais da companhia riem, cantam alegremente. Um destes vem à porta e diz-lhes, jocoso: “Não conseguem passar? Passem por cima!” E aponta para o arame farpado no talude da trincheira. Vozes iradas soltam: “Canalhas! Crápulas!” Há quem ameace atirar umas quantas granadas para dentro do abrigo. Lá dentro, os oficiais calam-se, temerosos. Numa outra ocasião, obrigados a regressar à primeira linha depois de um descanso demasiado fugaz, os soldados, em sinal de protesto, atravessam a aldeia e desfilam diante da casa dos oficiais do batalhão a cantar A Internacional.

Dois votos contra um

Entre os documentos do processo, conta-se a folha de registo das deliberações do conselho de guerra. No final da audiência, toda a gente saiu da sala. Ficaram somente os três juízes: um tenente-coronel, um subtenente e um ajudante. Não sei ao certo onde se realizou o julgamento. Li algures que foi na escola primária da aldeia. É provável, foi esse o lugar escolhido em muitos casos análogos. Eis outra ironia, um crime destes cometido diante de um quadro de ardósia onde se conjugaram verbos e se fez a prova dos nove, diante das filas de carteiras onde habitualmente se sentavam as crianças, os futuros cidadãos da República. Na sala deserta, o tenente-coronel pronunciou em voz alta a pergunta referente ao primeiro réu da lista, Floch: “O cabo Floch é culpado de abandono do posto em presença do inimigo?” Por ordem hierárquica ascendente, os três juízes pronunciaram-se. O último foi o próprio tenente-coronel. Do lado direito da folha há uma tabela com duas colunas, “Sim” e “Não”. Três traços verticais inscritos com mão esmerada na coluna do “Sim” condenaram Floch por unanimidade. Cumpriu-se o mesmo ritual para os outros 23 homens. Pettelet e Quinault não foram condenados por unanimidade. À frente da pergunta referente a cada um deles há dois traços na coluna do “Sim” e um traço na coluna do “Não”. Cinco outros homens salvaram-se por uma unha negra: um traço na coluna do “Sim” e dois traços na coluna do “Não”. A folha não tem rasuras. A caligrafia é bonita, cheia de arabescos. Os traços verticais na tabela, ligeiramente inclinados para a direita, parecem aqueles traços nos desenhos das crianças, debaixo de uma nuvem, para mostrar que chove.

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Passa um carro na estrada a cuspir bolas de algodão pelo tubo de escape. O faisão, que eu julgava já bem longe daqui, irrompe do meio das plantas, assustado, e voa para longe num refulgir metálico, como um ruído de ventoinha antiga.

Em Uma Cerveja no Inferno, sempre pela mão de Cesariny, o jovem Rimbaud escreveu: “A quem devotar-me? Que animal é preciso adorar? Que imagem santa atacam? Que corações terei de esmagar? Que mentira devo defender? Através de que sangue tenho de passar?” Nenhum dos três juízes do tribunal formulou estas perguntas. Estas, sim, mereciam resposta. Bastava terem-nas feito para hesitarem um segundo. Bastava que tivessem lido Rimbaud.

Para seis dos 18 absolvidos, um terço, a absolvição não passou de um adiamento da pena capital. Morreram na guerra. Três deles, Gilbert Guignatier, Jean Gardy e Pierre Reverzy, morreram em Verdun, no prazo de menos de três meses, entre Março e Junho de 1916. Tanto na certidão de óbito de Guignatier como na de Reverzy consta a menção “desaparecido em combate”. Isto queria normalmente dizer que o cadáver ficara perdido na terra-de-ninguém, numa zona inacessível do campo de batalha. Ou então que o cadáver ficara tão esfacelado por um obus que nada havia para sepultar, para meter num caixão. Última ironia: Gardy e Reverzy foram dois dos que, a 3 de Dezembro de 1914, se salvaram por dois votos contra um.

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O nosso silêncio

Subo o carreiro até à cave, entro, sento-me no banco tosco, diante da Alexandra, digo-lhe, prosseguindo a nossa conversa, como se esta não tivesse sido interrompida durante três quartos de hora:

          — Acho muito bem que os alunos das escolas visitem este lugar, que descubram a história destes homens. Mas é preciso ir mais longe.

          — Já sei o que vais dizer — acode ela.

          — Ah, sim?

          — Vais dizer que é fácil simpatizarmos com os seis de Vingré.

          — Nem mais. Esta infâmia é gritante, abala-nos até ao mais fundo do nosso ser, mas será que nos interpela verdadeiramente? Gostava que os alunos visitassem a cave onde passou a última noite um dos homens que, por não aguentarem mais, injectaram petróleo num braço ou deram um tiro na palma da mão e que foram fuzilados por isso. Com esses, sim, é difícil simpatizarmos. Quem lhes chama mártires? Quem lhes chama heróis?

          Ela levanta-se, fica de pé sob a abóbada de berço.

          — Não sei o que te diga. Não tenho respostas prontas. Preciso de pensar. Mas agora — diz-me — chegou o momento do silêncio. Estes seis homens não pediram nada a ninguém. Não pediram para passar à história. Não pediram para iluminar recantos sombrios. Não pediram para servir de bandeira nem de tema para visitas guiadas. Merecem o nosso respeito. Merecem, acima de tudo, o nosso silêncio.

Estende-me a mão, a Alexandra. Agarro-lha, ponho-me também de pé. Em silêncio, ainda de mãos dadas, subimos os sete degraus de pedra da cave e saímos para a luz do final da tarde, ao encontro das nossas filhas. À nossa frente, sem escolta, sem vendas, sem cordas para os amarrar, caminham, agora livres, os seis de Vingré.

Os fuzilados de Vingré (1.ª parte)