Os fuzilados de Vingré

Na noite de 3 para 4 de Dezembro de 1914, numa aldeia perdida do Aisne, cinco soldados e um cabo confessaram-se a um padre, escreveram cartas de despedida às mulheres, ouviram cravar no chão os postes de madeira para a execução. No dia 4 de Dezembro foram fuzilados pelos seus camaradas ao alvorecer. Primeira parte da terceira de uma série de crónicas sobre o fim da Guerra das Guerras.

Nesta cave gélida com chão de terra batida, sete passos de comprido desde a porta até à parede do fundo, quatro passos de largo, a Alexandra e eu terçamos argumentos.

            — Heróis, os soldados que se revoltaram contra a guerra e que acabaram fuzilados? — diz ela. — Não sei. Tenho dúvidas. Respeito-os, claro, mas um herói é alguém que cumpre o seu dever em circunstâncias difíceis.

            — Às vezes — contraponho —, o heroísmo é precisamente o contrário. É não aceitarmos o sacrifício, ou antes, é escolhermos o nosso sacrifício, sem deixarmos que outros escolham por nós. É não cumprirmos um dever espúrio que nos querem impor. É dizermos não quando todos dizem sim.

            — É preciso muita coragem para isso — comenta ela. — Muita coragem e muita clarividência.

Não lhe respondo logo. Fico em silêncio, a fitar as nossas pegadas na poeira do chão. Ocorrem-me as palavras de Jean Jaurés (1859-1914), quando disse que a coragem é resistirmos a propagar, com a nossa alma, a nossa boca e as nossas mãos, os aplausos imbecis e os apupos fanáticos. Que a coragem é não nos vergarmos aos ditames da mentira triunfante e efémera. Foi por estas e por outras que o assassinaram. Foi ele a primeira vítima da Grande Guerra. Ocorre-me um trecho das memórias de guerra de Louis Barthas, tanoeiro. Numa trincheira, depois de um bombardeamento e de um tiroteio nocturno, havia dois soldados caídos por terra, moribundos, queimados na véspera por um obus incendiário e que não haviam sido recolhidos. “Um deles expirou durante a noite, o outro, tomado de delírio, cantarolava canções da sua infância, conversava com a mulher, com a mãe, falava da sua aldeia. Ao ouvi-lo, todos tínhamos os olhos rasos de lágrimas.” Um soldado gritou: “Ah, se não fôssemos todos uns cobardes, os que desejam esta guerra é que estariam aqui, no nosso lugar. E então, sim, íamos ver se a guerra não acabava num instante!” Mas o próprio Barthas respondeu: “É tarde de mais, devíamos ter percebido isso antes. Agora é preciso que os sobreviventes, ao menos, não esqueçam.”

 Torno a lançar um desafio à Alexandra:

            — E os que se mutilaram para não combater? Os que injectaram petróleo num braço? Os que cortaram um ou dois dedos ou deram um tiro na própria mão? Foram heróis?

            — Nem pensar — diz ela. — Não me consegues convencer disso.

Pode alguém ser cobarde e herói ao mesmo tempo? A medida do heroísmo não é a dimensão do sacrifício que fazemos? Os soldados da Grande Guerra eram quase todos camponeses e operários, viviam do trabalho dos seus braços, numa época sem segurança social, em que a invalidez era sinónimo de mendicidade. É necessária uma coragem quase sobre-humana para alguém mutilar as suas próprias mãos quando delas depende o seu sustento e o dos seus filhos. Ou um desespero do tamanho do mundo.

            — E estes, os seis de Vingré, são heróis?

            — São vítimas — diz ela. — São mártires, isso eu sei, mas não sei se são heróis.

            — Porque não puderam escolher, é isso?

            — Talvez por isso.

Falamos baixo, este lugar impõe-nos reserva e respeito. O frio é tão cortante que nos faz doer a cabeça, neste mês de Dezembro de 2018. É bem provável que fizesse um frio assim na noite de 3 para 4 de Dezembro de 1914, quando um cabo e cinco soldados franceses aqui passaram as suas últimas horas de vida. Levanto-me da tábua de madeira assente em dois blocos de pedra que faz as vezes de banco. No seu eixo central, o tecto da cave, em abóbada de berço, tem dois metros e pouco de altura, consigo caminhar de costas direitas apesar do meu metro e noventa, só junto às paredes é que tenho de me curvar. O mais alto dos seis homens a quem esta cave serviu de prisão e de antecâmara da morte chamava-se Claude Pettelet e media um metro e setenta. Os bancos não são muito antigos, percebe-se que as tábuas são novas, não estavam aqui há cem anos. As pedras das paredes e do tecto, em contrapartida, são as mesmas de 1914. Quando lhes toco, as minhas mãos tocam nos lugares onde as mãos deles certamente tocaram. Os cinco soldados, Pettelet, Gay, Quinault, Blanchard e Durantet, eram agricultores. O cabo, Paul Henry Floch, era escrivão de um juízo de paz. O ficheiro respeitante aos “Seis de Vingré”, recentemente disponibilizado em linha pelas forças armadas francesas, contém cento e sessenta e dois documentos. Li-os todos de fio a pavio. Há seis fichas sinaléticas, uma para cada condenado à morte. Cor dos olhos. Cor do cabelo. Altura. Forma do nariz, da boca, do rosto. Tez. Filiação. Domicílio. Data de nascimento, data de matrimónio. Comparo os meus traços físicos aos deles, toco nestas paredes e neste tecto, tento encurtar as distâncias.

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A cave onde os fuzilados passaram a sua última noite

Pode alguém ser mártir sem ser herói? Faz sequer sentido falar-se em heróis numa guerra em que oitenta por cento dos ferimentos foram causados por estilhaços de obus e somente vinte por cento se deveram a balas? Talvez uma guerra assim requeresse um outro género de heroísmo, o heroísmo da recusa. Noël Genteur disse-me que, na opinião dele, os homens fuzilados por terem tomado parte nas revoltas de Maio e Junho de 1917 são heróis na verdadeira acepção da palavra. Os soldados que disseram “não, basta de matança”, sabendo perfeitamente que isso lhes podia custar a vida. Tal como veio a suceder, aliás, em vinte e sete casos. E os seis que nos trouxeram a este lugar, os seis de Vingré? Como lidar com o sofrimento lancinante destes homens? O que fazer deste martírio? Vejo-me ao espelho nesta tragédia, vejo a minha alma estampada em cada uma das cento e sessenta e duas páginas do ficheiro, e a imagem que o espelho me devolve é hedionda. Se outros foram capazes de fazer isto aos seus irmãos, é porque eu próprio também seria capaz.

Vou até à porta por onde a luz fria jorra para o interior da cave, subo os sete degraus de pedra tosca, olho para o campo de cultivo em frente, onde eles acabaram os seus dias. Na orla do campo, a quinze passos daqui, não mais, do outro lado da estrada que é a rua principal da aldeia, há um monumento à memória dos seis homens, inaugurado em 1925, já depois de eles terem sido reabilitados em 1921. Nenhum representante das autoridades esteve presente na inauguração. Uma placa no pedestal diz-nos que, em 2004, os seis fuzilados foram agraciados com o título de “cidadãos honorários do departamento do Aisne”.

Chegámos de manhã à aldeia de Nouvron, aqui bem próxima, estacionámos o carro ao pé da igreja. Ao lado, um monumento aos mortos da Grande Guerra, o eterno obelisco baixo com uma inscrição. Mas não era aquele o obelisco que procurávamos. Ninguém nas ruas, o frio era tanto que não se via vivalma. Ouviam-se ovelhas a balir, cães a ladrar. Por um grande portão metálico escancarado, vi borregos a darem cabriolas. Andei para trás e para diante na estrada, em busca de alguém com quem falar. A erva das bermas, forrada de agulhas de geada, crepitava-me sob os pés. Em vão. A Alexandra e as miúdas fecharam-se no carro, eu fiquei de pé, oferecendo-me ao olhar de quem passasse por ali, num discreto pedido de auxílio. Julguei ver cortinas a mexer em várias janelas. Um homem surgiu na curva da estrada, de mãos nos bolsos, estendeu o pescoço em vírgula para averiguar da minha aparência, aproximou-se. Sessenta e tal anos, rosto escalavrado, beata na mão, calças de ganga, galochas brancas. Perguntou-me o que procurava. Disse-lhe que andava em busca do monumento aos fuzilados de Vingré. Ele indicou-me o caminho. Percebi cerca de dez por cento do que ele disse, tão cerrado era o sotaque. Tentei recapitular as instruções em voz alta, ele repetiu-mas. Percebi outros dez por cento. Dava para percorrer uns cem ou duzentos metros, depois teria de perguntar a mais alguém. Sempre era melhor que nada. Agradeci, meti-me no carro, vi-o voltar para trás, tornei a sair para o gume do frio. Ele aproximou-se, disse-me: “Eu levo-o lá, mostro-lhe o caminho. Vou buscar o meu carro, espere aqui.”

Uma esquadra de infantaria eram cerca de quinze homens, comandados por um cabo. Duas esquadras formavam uma meia secção, sob o comando de um sargento. Duas meias secções formavam, claro está, uma secção, comandada por um tenente ou outro oficial subalterno. Estes pormenores podem parecer irrelevantes, mas são indispensáveis para se perceber o enredo desta história de violência e de desumanidade. Quando nos parece injustificada, dizemos que a violência é “gratuita”. Nas organizações criadas para enquadrar e arregimentar a matança, a violência gratuita adquire foros de cidadania, ocupa todo o espaço disponível, como um gás. A violência gratuita dá-se bem com linhas rectas, com organigramas impecáveis, com hierarquias rígidas, com treinos intensivos, com contagens e recontagens até tudo bater certo. Quando chegou a Auschwitz, Primo Levi, devorado pela sede, abriu uma janela e agarrou num pedaço de gelo para beber. Um kapo viu-o, deu um passo em frente e arrancou-lhe o gelo da mão. “Porquê?”, perguntou Levi. E o outro respondeu, empurrando-o com brutalidade: “Aqui não há porquês.” Se algum dos seis homens que morreram fuzilados nesta aldeia tivesse perguntado “porquê?”, a resposta que veria desenhar-se nos rostos dos camaradas e nas paredes desta cave seria a mesma: “Aqui não há porquês.”

No dia 27 de Novembro de 1914, no sector da aldeia de Vingré, uma meia secção da 19.ª companhia do 298.º Regimento de Infantaria estava numa trincheira de primeira linha com 150 metros de comprimento. Comandava-a o sargento Diot, que se encontrava de pé, diante da entrada da galeria central que dava acesso à trincheira de segunda linha. À sua esquerda, a 5.ª esquadra, comandada pelo cabo Venuat. À sua direita, a 6.ª esquadra, comandada pelo cabo Floch. As trincheiras não eram muito largas. Em Le Feu, Henri Barbusse (1873-1931) dá-nos as suas dimensões: “Quando dois homens se cruzam, vindos de sentidos opostos, têm de se encostar ao talude e roçar as costas contra a terra e o ventre contra o ventre do camarada.” E não eram em linha recta, eram aos ziguezagues. Dentro da trincheira, na maior promiscuidade, cada homem estava entregue à mais absoluta solidão. Eram lugares de cegueira, de surdez, de morte e de medo da morte. Acanhadas e sórdidas, eram, à sua maneira, prisões. Antes mesmo de estarem aprisionados na cave que acabo de abandonar, os seis de Vingré eram já prisioneiros. Barthas conta que, numa trincheira de primeira linha, um oficial, de revólver em punho, se posta à entrada da galeria de acesso à retaguarda, barrando aos soldados o caminho de retirada, “não fosse alguém ter a compreensível tentação de se escapulir”. Exactamente como fez o sargento Diot. A violência e a guerra precisam de carcereiros para vigiar a solidão dos homens.

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Fotografia de um dos fuzilados, Durantet

Vi surgir um carro muito maltratado, era o aldeão, fez-me sinal para que o seguisse, desatou a acelerar loucamente por estas estradas sinuosas. Parou numa mancha alongada de arvoredo que parecia uma catedral viva no meio dos campos planos. Saí do carro, no chão havia um palmo de espessura de lama, que ele lavrou descontraidamente com as galochas, em grandes passadas, caminhando ao meu encontro. “Isto é a Cruz Quebrada”, disse, apontando para um enorme crucifixo de pedra reclinado sobre um pedestal. “Mas não é este o monumento aos fuzilados, pois não?”, perguntei. No céu azul-claro e sem nuvens brilhava um Sol enregelado, mas naquele bosquezito, como que por magia, chovia a cântaros. Olhei para o alto. A geada nocturna a embainhar a copa das árvores estava a derreter em grossas gotas. “Não, mas quis fazer-lhe a visita completa. Tire fotografias, se quiser.” Tirei fotografias para não parecer mal. Ele meteu-se no carro e acelerou a fundo, levantando cordas de lama espessa.

Por volta das duas da tarde, a artilharia alemã começou a martelar as trincheiras francesas, demolindo-as em certos troços. O bombardeamento foi tão violento que, às quatro horas, o subtenente Paulaud, encarregado daquele sector, mandou evacuar a trincheira situada à direita da posição ocupada pela meia secção do sargento Diot, deixando ali, à laia de sentinelas, somente um cabo e oito soldados. À falta de fios telefónicos, as comunicações faziam-se por mensageiros que levavam bilhetes manuscritos para trás e para diante, pelo meio dos bombardeamentos. O subtenente Paulaud absteve-se, sem que se saiba porquê, de comunicar ao sargento Diot que o seu flanco direito acabara de ficar desguarnecido. A fazer fé no depoimento de Paulaud em tribunal, ele próprio se deslocou por quatro vezes até à tal trincheira evacuada para se certificar de que as sentinelas permaneciam nos seus postos. De uma das vezes, a explosão de um obus sepultou-o debaixo de uma torrente de terra e ele teve de se libertar.

O carro do aldeão das galochas travou à minha frente, parei também, saímos todos. “É aqui”, disse ele, acendendo mais um cigarro. Apontou para o monumento, depois para a cave. “Venha comigo.” Segui-o, caminhámos cinquenta metros, até um muro à beira da estrada. Num painel de acrílico ali afixado via-se a fotografia do soldado Francisque Durantet e, ao lado, o texto da carta de despedida que ele escreveu à mulher, Claudine, durante a última noite, na cave, depois de se confessar. “Minha pobre amiga, temos de nos separar, nós que éramos tão felizes juntos. Meu Deus, o que vai ser de ti, sozinha com os dois miúdos. Enfim, Deus há-de valer-te.” E mais adiante: “Morro de consciência tranquila, não fiz mal a ninguém.” E ainda: “Diz adeus em meu nome a toda a família, cuida bem dos meus rapazes.” Há agora, dispersas pela aldeia, seis placas destas, uma para cada um dos seis fuzilados. Seis nomes, seis rostos, seis cartas de despedida dirigidas às esposas. Jean Quinault, cuja placa está afixada na parede de pedra de um estábulo, à saída da aldeia, casara-se no dia 13 de Junho de 1914. Antes de partir para a guerra, viveu menos de um mês e meio com a mulher, Huriel. As viúvas, além de privadas da pensão de viuvez, foram alvo de humilhações, de injúrias. Certos comerciantes recusaram-se a vender-lhes mantimentos. Uma delas, a viúva de Pettelet, passou a andar armada, tantas as ameaças de que foi alvo. Noël Genteur disse-me: “Passaram-se coisas horríveis. As viúvas dos fuzilados viveram na miséria, os órfãos viveram na miséria. Já morreram todos. Como vamos indemnizá-los?” E acrescentou uma frase extraordinária: “Quando contamos a história dos fuzilados da Grande Guerra, o mais importante é não os fazermos morrer segunda vez.”

Regressei com o homem das galochas para junto do monumento aos fuzilados. “Vem muita gente visitar este lugar?”, perguntei-lhe. “Vêm muitos ingleses”, respondeu-me. Talvez a palavra “ingleses”, para ele, abarque todos os turistas. E depois acrescentou: “Vêm muitas escolas com os professores.” Perguntei-lhe o nome, ele fez um esgar de relutância, hesitou em dizer-mo. Pedi-lhe que mo escrevesse no meu caderno de viagem. Garatujou um rabisco indecifrável, ergueu a mão e partiu. Esqueci-me de lhe perguntar que plantas são estas, tão verdes, ainda baixas, aqui cultivadas no campo onde os seis homens morreram.

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Monumento aos fuzilados, na orla do campo onde se procedeu à execução

Às cinco horas do dia 27 de Novembro de 1914, o bombardeamento alemão cessara. Abalados, traumatizados, os homens da meia secção do sargento Diot começaram a comer os mantimentos que os soldados da faxina do rancho lhes levaram. Comeram a sopa, reunidos em grupos à volta de grandes gamelas. Comeram o pão, beberam o vinho. De vez em quando, espreitavam pelas frestas de tiro. Pouco depois, quando já caía a noite, no momento em que, terminada a refeição, alguns soldados estavam a prender a marmita individual à mochila, sem que nada o fizesse prever, sem que se tivesse ouvido um só tiro, um grupo de soldados alemães irrompeu, pelo lado direito, naquela trincheira.

(continua)