Sem luz, sem hospitais e com fome, venezuelanos regressam às ruas

A Venezuela continua quase toda às escuras por um terceiro dia consecutivo. Manifestação da oposição foi reprimida pela polícia em Caracas.

Apoiantes de Guaidó enfrentam contingente da polícia anti-motim em Caracas
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Apoiantes de Guaidó enfrentam contingente da polícia anti-motim em Caracas CARLOS JASSO / Reuters

As forças de segurança venezuelanas responderam com gás pimenta a uma manifestação convocada pela oposição em Caracas, e impediram a marcha de seguir para a avenida da capital onde estava previsto haver uma concentração este sábado. A maior parte do país continua sem electricidade e há fortes receios de que os serviços de saúde estejam perto do colapso.

O presidente da Assembleia Nacional, Juan Guaidó, que é reconhecido por dezenas de países como Presidente interino, convocou manifestações em todo o país para sábado em mais um protesto contra o regime de Nicolás Maduro – que a oposição acusa de estar a “usurpar” o cargo. Em Caracas, foi mobilizado um forte contingente da Polícia Nacional Bolivariana que impediu as centenas de manifestantes de chegar à avenida Victoria, uma das principais artérias da capital.

A polícia recorreu ao gás pimenta para dispersar a manifestação, numa das repressões mais musculadas das forças de segurança pró-governamentais desde que em Janeiro começou a recente onda de manifestações oposicionistas. Durante a madrugada, a polícia metropolitana desmontou o palco montado pelos organizadores da manifestação que ia servir de ponto de encontro e deteve os dois motoristas que conduziam os camiões com o material, segundo o jornal venezuelano El Nacional.

Guaidó encorajou os seus apoiantes a não baixarem os braços e pediu para que mantivessem a mobilização e a pressão sobre Maduro. “Não nos vão tirar das ruas até alcançarmos a nossa liberdade”, afirmou o líder da oposição.

O regime convocou também manifestações de apoio a Maduro contra o que o Presidente diz ser uma tentativa de desestabilização orquestrada pelos EUA. “Hoje, quando o império dos EUA, no seu desespero por deitar a mão nos nossos recursos naturais, intensifica as suas agressões brutais contra a pátria, juntamo-nos com firmeza para defender a nossa terra e gritar com força: Yankee, go home! Somos anti-imperialistas!”, afirmou Maduro numa publicação no Twitter.

Apagão continua

A delicada situação na Venezuela – onde a par da crise política se vive uma profunda crise económica – complicou-se nos últimos dias com uma falha de electricidade que atinge praticamente todo o território desde quinta-feira. Durante a noite de sexta-feira, a energia regressou a alguns locais, mas poucas horas depois o país voltou a ficar quase totalmente às escuras. A maior parte das cidades preparava-se para uma terceira noite consecutiva sem electricidade.

Uma das situações mais preocupantes é o impacto do apagão nos hospitais, cujo funcionamento já sofre pelas más condições de trabalho e pela escassez de medicamentos. O improviso acabou por ditar a forma de contornar a falta de electricidade, com as luzes dos telemóveis a serem usadas para iluminar procedimentos.

Dos 40 hospitais contactados pela associação Médicos pela Saúde, apenas 23 responderam, e desses, 12 não tinham geradores em funcionamento, diz o El País. “Tem sido muito complicado falar com os médicos porque as comunicações estão a falhar”, dizia ao mesmo jornal Julio Castro, membro da organização.

O Inquérito Nacional de Hospitais, feito pela Médicos pela Saúde, calculou que entre 16 de Novembro do ano passado e 9 de Fevereiro morreram 79 pessoas nos principais hospitais do país por causa dos cortes de electricidade. Nas redes sociais circulavam já alguns balanços provisórios, embora sem confirmação oficial, mas teme-se que o custo humano da crise energética actual possa ser elevado.

Num país que tem também sido assolado pela escassez de bens alimentares, a conservação de bens perecíveis está em causa. Foi o que aconteceu a Lilia Trocel, uma vendedora de 58 anos, que participava na manifestação contra Maduro em Caracas. “Os polícias abusam de nós, apesar de sofrerem a mesma calamidade”, disse à Reuters. A insegurança quotidiana nas grandes cidades corre também o risco de se agudizar com a ausência de iluminação.

Anos de desinvestimento na modernização da rede de produção e distribuição de energia eléctrica tornaram comuns os apagões na Venezuela. A crise em curso tem origem na central hidroeléctrica de Guri, a maior do país, construída há mais de 40 anos e símbolo da degradação das infra-estruturas nacionais, que desde 2010 tem sofrido várias avarias. “Porém, este é o colapso de maior escala, não só falhou Guri, mas também os sistemas alternativos”, explicou ao El País o analista da consultora IHS, Diego Moya-Ocampo. “Simplesmente não se está a gerar [energia] suficiente para poder suprir a procura”, acrescentou.

A centralização da gestão energética na empresa pública Corpoelec, “um elefante gigantesco”, nas palavras do professor da Universidade Central da Venezuela, Leonardo Vera ao El País, também veio criar problemas, apesar de se terem construída várias centrais eléctricas, muitas das quais continuam sem funcionar. “Corrupção, projectos inacabados por falta de recursos ou cálculos errados sobre os recursos em falta, improvisação ou pressão de burocratas cubanos sobre o desenho do sistema”, são as razões apontadas por Vera.

O Governo de Maduro insiste, no entanto, na tese de que tudo não passa de actos de “sabotagem” a mando do Presidente norte-americano, Donald Trump, para desestabilizar a Venezuela.