Morreu Carolee Schneemann, uma pioneira da performance feminista

Inspirada pelo pensamento feminista dos anos 60 e 70, Carolee Schneemann usou o seu corpo como matéria principal da sua obra.

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Eye Body (1963-2005), colecção MoMA

A artista norte-americana Carolee Schneemann, pioneira das questões da sexualidade e do género, morreu na quarta-feira aos 79 anos, anunciou no Twitter a galeria  P.P.O.W, juntamente com a Galeria Lelong e a Hales. Pintora, performer e realizadora, a artista recebeu o Leão de Ouro pela sua carreira de 60 anos na Bienal de Veneza da 2017, que a destacou como “uma das mais importantes figuras no desenvolvimento da performance e da body art”, através do seu trabalho inovador na performance feminista do início dos anos 60.

“Sou uma pintora”, disse, numa entrevista em 1993, tendo estudado pintura no Bard College, em Nova Iorque. “Tudo o que desenvolvi tem a ver com a extensão dos princípios visuais da tela.” Para esta fundadora do Judson Dance Theater, juntamente como Trisha Brown ou Yvonne Rainer, o palco é um espaço tridimensional para fazer composições com corpos e uma variedade de outros materiais, orgânicos e inorgânicos. Em Meat Joy, um dos seus trabalhos mais conhecidos filmado em 1964, performers seminus interagem com vários tipos de carne animal e outros materiais, de pernas de galinha a tinta fresca, passando por peixe fresco.

No mesmo ano, o filme Fuse (1964-67) mostra-a a fazer sexo com o seu companheiro, o compositor experimental James Tenney. Para a curadora francesa Christine Macel, que a indicou para o Leão de Ouro, este é o primeiro filme erótico feminista, “uma tentativa para desmantelar a construção patriarcal do erotismo e uma forte defesa da liberdade sexual”. Posteriormente, o filme foi pintado e riscado, trabalhado com fogo e ácido, numa montagem que explorou a collage.

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Evaporating (1974-2015)

Em Interior Scroll (1975), a performance exibe Carolee Schneemann a retirar um texto do interior da sua vagina e a lê-lo perante um artista masculino. “A vagina foi sempre suprimida, detestada, religiosamente ignorada, tratada como se não fosse uma fonte de imenso prazer, sensação e poder”, disse numa entrevista em 2016.

Inspirada pelo pensamento feminista dos anos 60 e 70, numa Nova Iorque em que emergia o filme, a música e a dança experimental, Carolee Schneemann usa o seu corpo como matéria principal da sua arte, escreve Christine Macel no site da Bienal de Veneza: “Ao fazê-lo, ela situa as mulheres quer como criadores quer como elementos activos da própria criação. Em oposição à representação tradicional das mulheres meramente com um objecto nu, ela usou o corpo despido como uma força arcaica e primordial capaz de unificar energias. O seu estilo é directo, sexual, libertador e auto-biográfico.”

Num dos seus trabalhos da década de 80, Infinity Kisses, a artista explorou em 140 fotografias a comunicação, ou o amor, entre espécies, mostrando o beijo matinal que todas as manhãs deu ao seu gato durante oito anos. Mais recentemente, como explica o Museum of Modern Art (MoMA), continuou a explorar a relação entre corpo e poder, reflectindo sobre a guerra civil libanesa ou os ataques de 11 de Setembro.