Jerónimo admite saída de líder que adiou em 2016 por causa da "geringonça"

Não vai calçar as pantufas, mas também não prevê uma recandidatura a secretário-geral do PCP em finais de 2020, no próximo congresso.

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Jerónimo de Sousa durante a entrevista à Lusa LUSA/MIGUEL A. LOPES

O secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, admite não se recandidatar ao cargo de secretário-geral no próximo congresso do partido, previsto para finais de 2020. A sua possível saída da liderança já fora avançada no anterior conclave, o XX Congresso dos comunistas, em Dezembro de 2016, mas viria a ser travada pelo papel importante que o secretário-geral do PCP assumiu na configuração do apoio parlamentar à esquerda, com o Bloco e os Verdes, que permitiu a sobrevivência do Governo de António Costa.

“Toda a gente acaba por envelhecer, é lei da vida”, afirma Jerónimo de Sousa, em entrevista à Lusa publicada este sábado, a pouco mais de um mês de, em 13 de Abril, comemorar 72 anos e de estar década e meia como secretário-geral dos comunistas. Perguntado sobre a possibilidade de não continuar na liderança do mais antigo partido português, Jerónimo respondeu com uma frase calculada: “Sim, é possível, também não é impossível uma outra decisão.”

Mas não deixou de assinalar que, “numa situação de saúde ou problema deste género, o Comité Central em qualquer momento está em condições de substituir o secretário-geral”. Contudo, Jerónimo exclui esse extremo, quando considera não se recandidatar e, ao mesmo tempo, garante que não vai calçar as pantufas. “Vou continuar como militante, como a pessoa que sou, a ajudar o meu partido”. Ou seja, não perspectiva a saída por impedimento de causa maior.

“Percebi que nestas tarefas cada um de nós tem de perceber e escolher o momento para alterar as suas responsabilidades”, assegurou na entrevista. Nas últimas legislativas, em 2015, foi notado o cansaço no dirigente do PCP, o que o partido explicou por este ter realizado a campanha sob os efeitos de uma forte gripe.

Depois, o papel preponderante que teve na construção do apoio parlamentar à esquerda ao executivo minoritário socialista liderado por António Costa levou o secretário-geral do PCP a manter-se na primeira fila. Aliás, a atitude de coerência e estabilidade do apoio dos comunistas durante a legislatura foi diversas vezes destacada por dirigentes do PS, em contraposição a uma maior fluidez de críticas e posições do Bloco de Esquerda.

Nas vésperas do XX Congresso, em entrevista ao PÚBLICO, Jerónimo de Sousa, o segundo secretário-geral de origem operária, depois de Bento Gonçalves, calibrava o significado do apoio do PCP ao executivo socialista. Admitia, que o entendimento com o PS, o apoio ao Governo de António Costa, podia gerar “confusão e ilusões”. Dois cenários opostos, que o secretário-geral comunista relativizava, dando garantias para o interior do partido: “O PCP não cede nem confunde”; “Não houve nenhum acordo para um Governo de esquerda”.

Em 2016, quando a saída de Jerónimo era tida como certa, foram aventados possíveis sucessores. Foram então avançados quatro nomes – Francisco Lopes, Bernardino Soares, presidente da Câmara de Loures, João Ferreira, vereador em Lisboa e eurodeputado, e João Oliveira, líder da bancada parlamentar. À distância de mais de ano e meio da constituição do novo comité central que tomará a decisão de substituir o secretário-geral, o deputado à Assembleia da República mantém-se em destaque.

Na entrevista à Lusa, o secretário-geral do PCP acusa a "direita económica" de lançar uma "empreitada" de notícias visando altos dirigentes comunistas por não perdoar o contributo do partido para a actual solução de governo. "Nunca aproveitei nada da política", assegurou o líder comunista, acrescentando: "Queria e vou conseguir sair com a consciência tranquila de que, no quadro das minhas limitações, e naturalmente dos meus defeitos, procurei fazer o meu melhor pelo meu povo e pelo meu país".

Jerónimo de Sousa referia-se a notícias que têm vindo a público, designadamente sobre um alegado favorecimento do genro pela Câmara de Loures, liderada pelo seu camarada Bernardino Soares, e também do envolvimento do pai de João Ferreira, cabeça de lista da CDU às europeias, em despejos e negócios de alojamento local.