Opinião

Rocket Man” ou “Terrific Kim”?

Trump já disse de tudo sobre Kim. O resultado da cimeira que hoje se inicia em Hanói dirá se o futuro do líder norte-coreano será o de “Rocket Man” ou de “Terrific Kim”.

Diego’s, dizem, é o barbeiro mais famoso de Washington. Corta o cabelo a embaixadores e generais, senadores e Presidentes, cujas fotografias autografadas exibe, orgulhosamente, nas paredes da barbearia. E não faz distinção política. Lá estão republicanos e democratas: Clinton e Obama, Powell e Bush filho.

Italiano de origem, Diego anda pela casa dos 70. Alto, enxuto, cabelo pintado, tem tanto de barbeiro como de relações-públicas. Recebe os clientes em várias línguas e distribui-os pelas suas muitas empregadas. Como o preço do corte é módico, é lá que costumo cortar o cabelo.

No final do mês passado, dirigi-me ao Diego’s e qual não foi o meu espanto quando cheguei à entrada da rua e me deparei com um aparato daqueles dos filmes, mas que na verdade são frequentes no dia a dia americano: luzes e sirenes, polícia e serviços secretos, a rua bloqueada. Mas desta vez havia também carros de exteriores e microfones, repórteres e fotógrafos. Dei a volta ao quarteirão e tive que entrar pelo outro lado. Perguntei, então, o que era aquilo. Resposta imediata: “É o Mike Pompeo e o coreano que estão ali.” “Ali” era Dupont Circle Hotel, um hotel de charme do outro lado da rua, cujo animado lobby é frequentado por gente da administração e dos think tanks vizinhos, por turistas e pela classe média alta de Washington, quase sempre branca.

Nada mais, nada menos: era o secretário de Estado norte-americano Mike Pompeo e o seu homólogo norte-coreano, Kim Young Chol, que ali ao lado preparavam a cimeira entre Trump e Kim que hoje se inicia em Hanói. Pensei para comigo: eu aqui a cortar o cabelo e o destino nuclear do planeta a decidir-se do outro lado da rua.

A cimeira de Singapura entre Trump e Kim foi uma produção cinematográfica de Hollywood, mas teve parcos resultados. Isto é, muita forma e pouca substância. Os dois líderes acordaram um plano em quatro pontos, cujos dois mais importantes têm tanto de ambicioso como de vago: a construção de um “regime de paz” duradouro e estável; e trabalhar para a “desnuclearização completa” da península da Coreia.

Desta primeira cimeira restaram em concreto dois resultados que, apesar de tudo, não são irrelevantes. Primeiro, a passagem de um clima de confronto a um clima de diálogo. De uma estratégia de escalada militar a uma estratégia de negociação diplomática. Segundo, esse clima de boa vontade traduziu-se em dois gestos recíprocos: Trump suspendeu os exercícios militares norte-americanos com a Coreia do Sul; Kim suspendeu os testes nucleares e balísticos de que, aliás, já não precisa porque o seu programa nuclear está completo.

Agora, sobre o essencial, não há acordo nem progresso. Não há acordo porque ninguém sabe o que quer dizer “regime de paz” e muito menos “desnuclearização completa”. As partes nunca o disseram, porque elas próprias não sabem, ou pior, porque para cada uma delas querem dizer coisas diferentes. E não há progresso porque não tendo havido acordo sobre o que é a desnuclearização, as negociações não progrediram e o arsenal nuclear e balístico norte-coreano permanece intacto.

Ora, é isso que está hoje em causa em Hanói e é aí que se joga o sucesso ou o fracasso desta segunda cimeira entre Trump e Kim: passar da gesticulação mediática a um acordo político seguro e duradouro. O que é que isso significa? Basicamente, três coisas: o entendimento sobre o que é desnuclearização, a definição de um roteiro para a desnuclearização e a institucionalização de mecanismos de medida do cumprimento das metas e calendários desse processo.

Estará Kim disposto a abdicar do único instrumento que lhe garante, simultaneamente, a sobrevivência interna do regime e a capacidade de negociação internacional? Não. E é por isso que a estratégia negocial americana é decisiva. Uma estratégia maximalista de desnuclearização total, completamente verificável e a curto prazo, seria inaceitável para a Coreia do Norte. Outra, minimalista, que aceitasse o princípio da desnuclearização, mas sem limites nem controle, seria desastrosa para os Estados Unidos e seus aliados. Uma terceira, mais realista, consistiria num processo incremental que antes de eliminar a curto prazo, fosse estabelecendo controle e limites quantitativos e qualitativos ao arsenal nuclear, sem perder de vista o objectivo de longo prazo. Trump já disse de tudo sobre Kim. O resultado da cimeira dirá se o futuro do líder norte-coreano será o de “Rocket Man” ou de “Terrific Kim”.