Tubarão-branco: a espécie que nos diz como viver mais tempo e sem cancro

Um dos mais conhecidos predadores dos oceanos tem agora pela primeira vez o genoma descodificado na totalidade. Segredos para a rápida cicatrização dos tubarões e a sua quase imunidade ao cancro foram agora revelados.

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O tubarão-branco pode chegar a viver até aos 73 anos Byron Dilkes/Danah Divers

O famoso tubarão-branco (Carcharodon carcharias) acaba de nos trazer novos conhecimentos sobre o cancro e a longevidade. Uma equipa internacional, na qual participou o investigador Agostinho Antunes, da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, sequenciou o genoma total deste predador gigante e identificou genes responsáveis pela rápida cicatrização de feridas e pela estabilidade do genoma – o que pode ser uma das razões para o raro aparecimento de cancro nesta espécie.

“O genoma do tubarão-branco contém cerca de 24.520 genes e tem 58,5% de conteúdo repetido”, nota o artigo publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences. O grande tamanho do genoma desta espécie – cerca de 1,5 vezes maior do que o nosso – é justificado em parte pelo seu conteúdo repetido, que corresponde a mais de metade do tamanho total.

Muitos dos cancros e das doenças relacionadas com o envelhecimento resultam de instabilidades no genoma provocadas pela acumulação de mutações genéticas. A investigação revelou que um terço do tamanho total do genoma do tubarão-branco é constituído por genes relacionados com a estabilidade genética. Isto justifica a razão pela qual doenças oncológicas que assombram milhões de humanos têm uma ocorrência muito reduzida nos tubarões.

“Muitos cancros resultam de instabilidade genómica, acumulação de alta frequência de mutações genéticas. O enriquecimento do conteúdo génico relacionados à estabilidade do genoma no tubarão-branco poderá fazer toda a diferença para compreender a baixa incidência de cancro e elevada longevidade deste predador de topo da cadeia alimentar”, diz ao PÚBLICO Agostinho Antunes, coordenador do Grupo de Genómica Evolutiva e Bioinformática do Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental (do Ciimar) da Universidade do Porto.

“A instabilidade no genoma é uma questão muito importante em muitas doenças graves dos humanos, mas agora estamos a descobrir que a natureza desenvolveu estratégias inteligentes para manter a estabilidade do genoma nestes grandes tubarões com um tempo de vida longo”, sublinha por sua vez um dos coordenadores do estudo, Mahmood Shivji, director do Centro de Investigação para os Tubarões da Fundação Save Our Seas na Nova Universidade do Sudeste (Florida, EUA), citado em comunicado.

O elemento que ocupa quase 30% do genoma total faz parte da subclasse dos “genes saltitantes”, ou transposões, que até há pouco tempo eram considerados “lixo” do genoma. Estes elementos repetidos permitem “rearranjar” o genoma sempre que a sua estabilidade é ameaçada. Assim, estes elementos, que segundo os cientistas permitem “novas estratégias evolutivas”, são outra das razões apontadas para a longevidade destes predadores dos oceanos, que podem chegar aos 73 anos.

Os tubarões-brancos também possuem genes-chave envolvidos no processo de cicatrização que justificam a forma como recuperam rapidamente de feridas. Os investigadores esperam também que esta característica possa ser estudada e adaptada à saúde humana.

Surpresa no olfacto

Todos reconhecem nos tubarões a sua enorme capacidade de detectar o odor a grandes distâncias – uma das características que inspirou filmes como O Tubarão. No entanto, esta análise aprofundada ao genoma deste temido predador revelou uma surpresa: há muito poucos genes que comandam o fabrico de receptores olfactivos no genoma desta espécie. De acordo com o artigo científico, apenas foram encontrados dois desses genes no tubarão-branco e nos outros tubarões analisados neste estudo – o tubarão-baleia e o tubarão-elefante.

“A família de genes de receptores olfactivos é a maior família de genes em mamíferos, podendo ter cerca de 400 genes em humanos (uma espécie de mamífero que, devido às suas capacidades de visão a cores, perdeu algumas funcionalidades olfactivas) ou 2000 em elefantes”, contextualiza Agostinho Antunes.

Significa isto que temos sido enganados pelos filmes durante todo este tempo? Não, responde Agostinho Antunes: “É inquestionável que têm uma boa capacidade olfactiva.” No entanto, os genes responsáveis por este sentido não parecem ser os mesmos do que nos seres humanos ou na maioria dos mamíferos.

“Identificámos 13 cópias de genes vomeronasal tipo 2 (V2R) no tubarão-branco e dez no tubarão-baleia. Isso, combinado com os mais de 30 genes V2R relatados anteriormente para o tubarões-elefante, sugere que essa família de genes pode estar por trás da forte recepção odorante destes peixes cartilaginosos”, acrescenta Agostinho Antunes.

“O tubarão-elefante possui um genoma bastante reduzido: foi por isso o primeiro a ser sequenciado e decifrado em 2014”, resume o investigador português. “O genoma do tubarão-baleia (com um tamanho aproximado com o genoma humano) foi obtido mais recentemente, em 2017. Na altura que elaborámos este trabalho, eram os únicos genomas disponíveis de peixes cartilaginosos para comparação com o tubarão-branco.”

Mesmo com a fama de exterminador implacável e com um comprimento que pode atingir os seis metros e meio e um peso que pode ultrapassar as três toneladas, o tubarão-branco não está a salvo. De acordo com a União Internacional para a Conservação da Natureza, este tubarão pertence já às espécies vulneráveis devido à destruição do seu habitat e pesca excessiva. Quer pela sua conhecida mandíbula com cerca de 300 dentes afiados quer pelas suas barbatanas (que são cortadas), os tubarões-brancos são pescados e correm o risco de desaparecer dos oceanos. Por isso, esta investigação também pretende evidenciar a sua importância e a necessidade de os preservar. E é apenas a “ponta do icebergue”, segundo equipa em comunicado da Nova Universidade do Sudeste, do complexo genoma do tubarão-branco.

Texto editado por Teresa Firmino