Opinião

Olha, o Paulo Rangel também não é de direita

Eu gosto de Paulo Rangel e há boas probabilidades de vir a votar PSD nas próximas europeias. Mas continuar com vergonha da palavra “direita” 45 anos depois do 25 de Abril tira-me do sério.

A sério, isto começa a ser ridículo: a quantidade de gente que pertence ao PSD que faz questão de dizer que não é de direita é totalmente absurda, e mostra bem o desequilíbrio do sistema político português e o complexo salazarista que ainda paira na cabeça da direita-que-não-o-é. Desta vez a negação coube a Paulo Rangel, cabeça de lista do PSD às eleições europeias. Vinha na primeira página do Expresso: “Nunca disse que era de direita.” Lá dentro, as explicações: “Posso garantir que nunca disse que era de direita, mas do centro ou centro-direita. E com posições sociais muito fortes, muitas vezes a chegar ao centro-esquerda em algumas matérias.”

Não há pachorra. Nem sequer faltou a Rangel explicar que isto da esquerda e da direita são só “rótulos” e que “os cidadãos querem é respostas para os seus problemas” – sempre a forma cobardolas de nunca assumir uma identidade ideológica, que isto das ideologias, como diria o doutor Salazar, só serve para criar confusão. Atenção: eu gosto de Paulo Rangel e há boas probabilidades de vir a votar PSD nas próximas europeias (o que dificilmente acontecerá nas legislativas). Mas continuar com vergonha da palavra “direita” 45 anos depois do 25 de Abril tira-me do sério.

A ver se nos entendemos. A não ser que sejamos de extrema-direita (tipo PNR) ou de extrema-esquerda (tipo PCP), é verdade que ser de direita ou de esquerda pode variar consoante a época e o lugar. Por exemplo, hoje em dia, nos Estados Unidos da América, eu seria sempre um democrata. Donde, se escrevesse no New York Times, assumir-me-ia como uma pessoa de esquerda. Da mesma forma, se vivesse no tempo do Estado Novo, o salazarismo paternalista e censório ser-me-ia certamente insuportável, e, portanto, de esquerda seria.

Esquerda e direita dependem do contexto, tanta na relação entre os valores da igualdade e da liberdade, como na relação entre os pesos do Estado e da sociedade civil. Para voltar ao exemplo americano: como certamente se recordará quem viu o filme de Michael Moore sobre o sistema de saúde dos EUA, não é aceitável viver num país supostamente civilizado onde um homem que perdeu dois dedos numa serra eléctrica é obrigado a escolher se fica com um ou com o outro, porque o seu seguro de saúde não lhe permite salvar os dois dedos em simultâneo. Em 2010, eu estaria entusiasmadamente ao lado do Obamacare, porque o sistema de saúde americano deixava dezenas de milhões de pessoas sem qualquer protecção. Mais Estado ou menos Estado varia, de facto, de país para país. Às vezes é preciso mais, outras vezes é preciso menos – depende do lugar onde vivemos.

Tanto eu, como Paulo Rangel, vivemos em Portugal, no ano de 2019. Enfim: Rangel também vive em Bruxelas, mas na Europa continental as coisas não são assim tão diferentes. Quando dizemos que somos de direita ou de esquerda estamos a falar de um espaço e tempo concretos, e nesse contexto essas categorias tradicionais têm, de facto, um valor operativo e ajudam à clarificação política. Dizer que se é de esquerda ou de direita serve para que as pessoas saibam onde estamos e ao que vimos. Quando me declaro de direita estou apenas a resumir numa palavra estas convicções: que a liberdade, no Portugal de hoje, deve ser favorecida face à igualdade, e que o peso da sociedade civil precisa crescer face ao peso do Estado. É só isto, é bastante simples, e penso que Paulo Rangel acredita no mesmo – só não percebo por que raio lhe custa tanto admiti-lo.