Equilíbrio de forças mantém-se mas duas maiores famílias do Parlamento Europeu encolhem

Primeiras projecções da distribuição de lugares após as eleições europeias confirmam crescimento da bancada eurocéptica e novo protagonismo dos liberais. Em Portugal, PS e CDS reforçam grupo com mais um eurodeputado cada; em França, Macron está quase a apanhar Le Pen.

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Reuters/VINCENT KESSLER

O Parlamento Europeu divulgou esta segunda-feira as primeiras projecções de resultados das eleições europeias de 26 de Maio, com a distribuição de lugares na próxima legislatura a apontar para a manutenção da actual maioria de centro-direita do Partido Popular Europeu, que no entanto vê a sua bancada diminuir dos actuais 217 para 183 lugares. 

Por causa do “Brexit”, o próximo Parlamento Europeu será composto por 705 eurodeputados em vez dos actuais 751 — no seu exercício, o Parlamento Europeu não prevê o cenário (ainda possível) de uma extensão do prazo de saída que obrigue o Reino Unido a participar na votação. “As próximas eleições europeias decorrem num contexto muito diferente das anteriores, com um mundo político muito diferente do de 2014 e com um Estado membro a abandonar o clube pela primeira vez. Isso obrigará os cidadãos a repensar qual o futuro que pretendem para a União Europeia”, afirmou o director geral de Comunicações do Parlamento Europeu, Jaume Duch Guillot. 

O grupo dos Socialistas e Democratas, onde têm assento os eurodeputados portugueses do PS, também mantém a sua posição relativa como a segunda maior bancada, mas igualmente confirma a tendência de perda de importância das grandes famílias políticas, com uma redução do número total de membros eleitos de 186 para 135. A quebra tem sobretudo a ver com a perda dos actuais 20 membros britânicos do Partido Trabalhista e com os resultados do SPD na Alemanha e do PD em Itália, que perdem respectivamente 12 e 16 eurodeputados.

PS e CDS-PP sobem

Em Portugal, os números apresentados pelo Parlamento Europeu colocam o PS à frente dos restantes partidos, com 38,5% das intenções de voto — valor que fica acima do resultado de 31,5% em 2014, e que vale mais um mandato.

Em segundo surge o PSD, que integra o grupo maioritário e mantém os seus seis eurodeputados, com 23,4%. Também no PPE, o CDS-PP aumenta a sua representação de um para dois eurodeputados, com uma votação de 9,9%. Nas últimas europeias, os dois partidos concorreram coligados e obtiveram 27,7% dos votos, pelo que os valores de hoje sugerem um maior crescimento do CDS face ao PSD. A concorrer pelo mesmo espaço político, o novo movimento Aliança não vai além dos 1,4% segundo as projecções do PE (que assentam nos dados de uma sondagem Aximage realizada entre 4 e 7 de Janeiro com 608 inquiridos, mas descontam as parcelas dos eleitores indecisos e que não vão votar. A margem de erro é de 4%). 

Os números apontam para a manutenção dos três eurodeputados da CDU (PCP-PEV) com 13,4%, ligeiramente acima do último resultado de 12,7%. Pelo Bloco de Esquerda, Marisa Matias tem a reeleição assegurada, com uma votação reforçada de 7,5%, que compara com os 4,5% obtidos em 2014. No entanto, o grupo da Esquerda Unitária Europeia/Esquerda Verde Nórdica deverá perder seis membros nas próximas eleições, passando de 52 para 46 eurodeputados. O grupo dos Verdes, que não conta com nenhum membro português, também encolhe de 52 para 45 eurodeputados.

Em Portugal, o PAN cresce de 1,7% para 2,4%, uma votação insuficiente para se ver representado no Parlamento Europeu. Outros partidos e movimentos políticos recentemente surgidos no nosso país não conseguem, ainda, ter expressão eleitoral: a sondagem reúne num único grupo com 3,5% a totalidade dos outros concorrentes, mas não distingue entre estes quais são os novos e quais os que já antes disputaram eleições europeias.

Marine Le Pen vence em França

No capítulo das novidades, o Parlamento Europeu atribui para já 58 lugares a eurodeputados eleitos por partidos que nunca estiveram representados no hemiciclo. Será o caso, por exemplo, dos candidatos do movimento criado pelo Presidente francês, Emmanuel Macron: com 20% das intenções de voto, a República Em Marcha deverá enviar 20 eurodeputados para Bruxelas. 

Mas se entretanto as intenções de voto não mudarem, a vencedora das eleições em França será Marine Le Pen e a sua União Nacional de extrema-direita, com 22% e 21 eurodeputados — que se sentam no grupo da Europa das Nações e das Liberdades, que segundo as projecções vai crescer consideravelmente na próxima legislatura, de 37 para 59 eurodeputados. Em contraste, os também eurocépticos Conservadores e Reformistas caem de 75 para 51 eurodeputados, mas esse é principalmente um efeito do "Brexit" (era neste grupo que estavam os 19 tories britânicos): as projecções confirmam um desvio do pêndulo político para o extremo mais à direita.

Finalmente, como fiel da balança, a Aliança dos Liberais e Democratas da Europa aumenta de 68 para 75 eurodeputados, e pode ver-se na situação de king maker na nomeação do próximo presidente da Comissão Europeia se, ao contrário do que aconteceu em 2014, os líderes do Conselho Europeu decidirem desrespeitar a regra de indicação do cabeça de lista do grupo com mais votos (ou Spitzenkandidat). Nesse caso, as triangulações políticas poderão favorecer a escolha de um nome de consenso.