As várias verdades sobre o regresso do coronel Odisseu à terra fria

Teatro Experimental do Porto estreia em Viseu Borralho, recriação de um clássico para recuperar os serões da aldeia.

Foto
LUÍS BELO

Odisseu regressa a uma casa que não é bem Ítaca, a ilha como Homero a descreveu. É antes uma terra nada insular, sem orla costeira, de uma interioridade portuguesa relativa. Uma terra como Viseu, a cidade que agora recebe a estreia de Borralho – Festival de Inverno para Pequenas Peças à Beira do Fogo, peça do Teatro Experimental do Porto (TEP) que se encaixa entre as histórias locais e a mitologia.

O espectáculo, com dramaturgia de Jorge Louraço Figueira e encenação de Gonçalo Amorim, começa por obedecer a uma estrutura clássica. Tem início numa reunião à volta de um madeiro que serve de invocação, mas logo se fragmenta, com cada personagem a arrastar consigo um grupo de espectadores. Atena, Penélope, Euricleia, Melântio, Eumeu e Nausícaa percorrem seis casas do Bairro Municipal de Viseu, que serve de palco a este espectáculo integrado na Rede Artéria, e contam a sua versão da mesma história, “como se existissem várias leituras dos factos e várias verdades possíveis”, diz Gonçalo Amorim.

A história do regresso a casa de Odisseu, aqui um coronel, foi o modo encontrado pelo TEP para “dialogar com um Portugal que está mais ou menos no nosso imaginário, este país que esteve em guerra, da emigração”, acrescenta o encenador.

O dilema desta aldeia é se quer ou não o regresso de Odisseu, homem de mão firme. E se esta Ítaca não é no Mar Jónico, Odisseu, a quem nos habituámos a chamar Ulisses pelo uso da tradução latina, pode materializar-se “tanto aqui como na América Latina”, sugere Gonçalo Amorim. “Há sempre este diálogo com um tempo qualquer a que se quer voltar, que está sempre presente como um grande fantasma – uma memória imperial, de um tempo em que tudo funcionava bem, em que não havia corrupção”, ironiza.

O título da peça, que se estreia “numa época do ano que normalmente não tem actividade cultural”, remete também para a impiedosa sazonalidade de uma região fria. O TEP queria aproximar-se da “pulsão energética do Inverno" e "reproduzir o que seriam os serões da aldeia ou os trabalhos próprios da época; a ideia da poda, das leituras do Borda d'Água, das histórias dos avós, do quentinho e do doce, de todo este conforto e recolhimento a que o Inverno obriga”. Mas evitando, ressalva o encenador, “uma espécie de celebração do mundo rural”.

Abrir as portas

Maria Teresa Almeida nasceu há 59 anos e há 56 que vive no bairro que serve de palco às duas primeiras noites de Borralho. É uma das moradoras que abrirão as portas para deixar público e actores entrarem, algo que vê com bons olhos. “Acho bem, que é para termos algum entusiasmo, sentirmos que não fomos abandonados”, diz ao PÚBLICO. No interior da sua casa, que será também a de Penélope, fala do tempo frio e oferece um chá, enquanto segura ao colo Niquito, o sonolento cão de minúsculo porte. Diz também que, de há uns anos para cá, “o bairro tem sido deixado muito para trás”. E explica o processo: “As pessoas morrem e deixam ficar as casas. Não voltam.”

Daí que cerca de metade das habitações de piso térreo, desenhadas pelo arquitecto Travassos Valdez e construídas entre 1946 e 1948, estejam desocupadas. Mas os dias de abandono de um bairro que até esteve para ser demolido estão contados, assegura o vereador da cultura da Câmara Municipal de Viseu, Jorge Sobrado. O conjunto foi classificado em 2015 como património de interesse municipal e está em curso um projecto de reabilitação que deverá ser apresentado à comunidade ainda no primeiro trimestre deste ano, explica.

As histórias de Borralho começarão por ser contadas no Bairro Municipal (dias 8 e 9), passando depois por outras duas freguesias de Viseu, sempre com entrada gratuita e reserva obrigatória: no dia 16 chegam a Várzea de Calde, localidade ligada ao fabrico do linho, e no dia 23 a Aval e Silgueiros de Bodiosa, que conheceu uma época de prosperidade ligada à mina de volfrâmio. Depois de Viseu, esta peça da Rede Artéria, um projecto artístico da Região Centro coordenado pela companhia O Teatrão, vai passar por Tábua, Coimbra e Figueira da Foz.