Já chegou o trailer do filme de João Salaviza e Renée Nader Messora que vai ser um desafio de distribuição

Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos é a ficção que João Salaviza e Renée Nader Messora fizeram nascer da sua vida junto dos índios krahô. Uma nova estratégia de distribuição pretende derrubar o fantasma de que o "cinema de autor" português não encontra um público.

Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos contra o papão: a APORDOC, associação que organiza o DocLisboa, e a distribuidora Desforra Apache estão a tentar provar que essa coisa de que "o cinema de autor português não tem público" é um fantasma que precisa ser enfrentado. Preparam-se para distribuir, a partir de 14 de Março, uma dezena de cópias, do Norte ao Algarve, em salas comerciais e no circuito alternativo dos cineclubes, do filme que João Salaviza, 34 anos, e Renée Nader Messora, 38, reorganizaram a partir do que foram vendo e vivendo quando estiveram em família com um povo indígena do Brasil, os krahô, em Pedra Branca, aldeia do estado de Tocantins. 

O DocLisboa trabalhará esta viagem do filme pelas escolas e cineclubes, a Desforra Apache, "ramo" de distribuição da produtora O Som e a Fúria, preocupa-se com as salas comerciais. João e Renée estarão assim em tournée de forma exaustiva com este filme cujo trailer foi lançado esta quarta-feira.

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Os realizadores: João Salaviza e Renée Nader Messora

É um filme com tudo o que poderia interessar ao Doc, tem características dos gestos cinematográficos que costumam estar no radar do festival, como sublinha Cíntia Gil, da direcção: é ficção e documento, o "impulso etnográfico" surge "associado ao impulso narrativo", a procura de um modelo de produção familiar como fuga à exaustão do modelo convencional. Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos foi mesmo uma nova vida para o cinema no caso de Salaviza, que depois da experiência de Montanha (2015) se deixou "raptar" pela sua assistente nesse filme, Renée, envolvida desde 2009 em projectos audiovisuais e oficinas de fotografia e montagem com o povo krahô. A quem ela o apresentou. É um momento de maravilhamento, como se um estúdio de cinema tivesse sido encontrado a céu aberto a mil quilómetros de Brasília. Para ambos, João e Renée, esta história da fuga impossível de um jovem índio, Ihjãc, atordoado pela "realidade" e pelos "fantasmas", foi, revelaram os realizadores, a redescoberta do "prazer de viver e de filmar” —​ e de fazer uma coisa sem prejuízo da outra.

Não fazendo sentido seleccionar Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos, que se estreara em Maio na secção Un Certain Regard de Cannes (onde recebeu o prémio do júri), para o Doc 2018, uma vez que os realizadores não estavam disponíveis para aí o apresentar, o festival decidiu continuar a afirmar a relevância política do gesto de escolher e mostrar filmes propondo-se assegurar para ele uma estratégia. Que não desistisse dos territórios que, devido a "uma série de políticas culturais", estão exangues, sem salas. Que não desistisse dos espectadores. Uma estratégia é a arma para enfrentar "o papão" — palavra de Cíntia Gil quando fala na génese desta primeira vez para o Doc — e encontrar um público onde ele possa estar.

Ainda antes da estreia comercial, o filme será mostrado, a 16 de Fevereiro, no Cinema Trindade, no Porto, incluído no programa de 12 dias de festa que celebra o segundo aniversário da “nova vida” deste cinema ressuscitado em 2016 pela Nitrato Filmes.

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Entretanto, já a 23 deste mês, Salaviza e Messora inauguram no Centro Internacional de Artes José de Guimarães (CIAJG), em Guimarães, a exposição Carõ - Multidões da Floresta, que mostrará material não incluído no filme e resultante de anos do "convívio cívico e familiar" do casal com a comunidade dos krahô. Cíntia Gil dá o exemplo do Jornal Krahô, horas de noticiário que Renée criou com os habitantes da aldeia para permitir que eles tomassem a palavra e que permanecessem no domínio da sua palavra no momento em que a televisão entrou na aldeia. Mas sublinha que os dois realizadores voltaram aos krahô, depois do filme, para obterem mais material para a exposição.

Será a um tempo um percurso sociológico, metafísico e estético pelo mundo dos krahô, pela sua cosmovisão, marcada pelo convívio entre a vida e a morte – os krahô acreditam que após a morte o espírito não parte para lugar algum, fica na aldeia, toma a forma de um animal. Nesse mesmo 23 de Fevereiro, o CIAJG inaugura um ciclo expositivo dedicado ao pensamento ameríndio que integra, para além de Carõ - Multidões da Floresta, Clareira, mostra de Manuel Rosa realizada em diálogo com a colecção de cerâmica pré-colombiana do Centro, e Variações do Corpo Selvagem: Eduardo Viveiros de Castro fotógrafo.

O Centro Internacional de Artes José de Guimarães acolhe Salaviza e Messora no seguimento de um desafio lançado a Cíntia Gil e à APORDOC pelo director do centro, Nuno Faria. A directora do Doc, conta Nuno Faria ao PÚBLICO, propusera ao CIAJG –​ organismo "que trabalha com artes não europeias (africana e pré-colombiana) com uma atenção ao pensamento ameríndio" e que decidira que o seu mote para 2019 seria "o resgate, a diversidade" – a participação num ciclo que programará de 12 a 17 de Março na Fundação Gulbenkian sobre cinema ameríndio. O curador, que já agendara a exposição de Eduardo Viveiros de Castro, antropólogo que dedica o seu trabalho aos povos indígenas, fez uma contraproposta: que João Salaviza e Renée Messora integrassem o ciclo expositivo de Fevereiro do CIAJG. É o que vai acontecer com Carõ - Multidões da Floresta. É o que está a ser preparado pelos cineastas nos últimos seis meses: "conjunto de filmes, de materiais sonoros e de materiais escultóricos" trabalhados de raiz para o CIAJC.