Guaidó e aliados testam unidade chavista com planos para um corredor humanitário

Oposição a Maduro prepara entrada de alimentos e remédios na Venezuela, através da fronteira com a Colômbia, e pede colaboração dos militares. EUA, UE e Grupo de Lima reforçam contribuições humanitárias e Papa aceita mediar conflito.

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Juan Guaidó, presidente da Assembleia Nacional da Venezuela EPA/CRISTIAN HERNANDEZ

O palco cimeiro do braço-de-ferro entre Nicolás Maduro e Juan Guaidó poderá transferir-se, nos próximos dias, de Caracas, capital da Venezuela, para Cúcuta, cidade colombiana junto à fronteira venezuelana. É por ali que o presidente da Assembleia Nacional, que se proclamou chefe de Estado interino, pretende introduzir no país alimentos, medicamentos e outros bens de primeira necessidade e, dessa forma, aumentar a pressão sobre as Forças Armadas que suportam o regime chavista.

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O palco cimeiro do braço-de-ferro entre Nicolás Maduro e Juan Guaidó poderá transferir-se, nos próximos dias, de Caracas, capital da Venezuela, para Cúcuta, cidade colombiana junto à fronteira venezuelana. É por ali que o presidente da Assembleia Nacional, que se proclamou chefe de Estado interino, pretende introduzir no país alimentos, medicamentos e outros bens de primeira necessidade e, dessa forma, aumentar a pressão sobre as Forças Armadas que suportam o regime chavista.

O plano tem o apoio dos Estados Unidos e da maioria dos países do continente americano, que, tal como a União Europeia, reforçaram as suas contribuições em ajuda humanitária.

Empolgado pelo aumento da falange de adeptos da sua causa – 19 países europeus, incluindo Portugal, Espanha, Alemanha e França, juntaram-se na segunda-feira a um grupo que já incluía EUA, Canadá e Brasil –, Guaidó insiste em apelar aos militares que abandonem Maduro e o ajudem a liderar uma “transição política democrática e pacífica”.

Às promessas de amnistia para os efectivos que não venham a ser culpados de crimes contra a humanidade, soma-se nova forma de aliciamento, assente na tese de que impedir a entrada de bens básicos num país afogado numa grave crise económica, social e migratória, é contribuir para o aumento da fome e da pobreza entre a população. 

“Apelamos aos funcionários e aos membros das Forças Armadas para que se coloquem ao lado dos venezuelanos e permitam a entrada da ajuda humanitária que é tão urgente para centenas de milhares de pessoas que hoje sofrem por causa de uma emergência humanitária”, pediu Miguel Pizarro, deputado da oposição e presidente da Comissão Especial de Acompanhamento da Ajuda Humanitária.

Pizarro confirmou nesta terça-feira que a equipa de Guaidó está a coordenar, com as autoridades colombianas, a chegada de “doações de medicamentos e alimentos” a Cúcuta, com o objectivo de abrir um corredor humanitário “nos próximos dias”. Outros pontos de recepção de mantimentos serão instalados no Brasil e num país caribenho ainda por definir.

Situada na região Nordeste colombiana, Cúcuta já é, na verdade, uma das pontas de um corredor humanitário que liga a Colômbia à Venezuela. Segundo o jornal Miami Herald, a cidade recebe diariamente quase 80 mil venezuelanos, que cruzam a fronteira para comprar comida e medicamentos. Cerca de cinco mil desses viajantes não regressa à Venezuela, engrossando o número de pessoas que abandonaram o país de Maduro nos últimos quatro anos, calculado em três milhões.

Para além da Colômbia, os restantes aliados de Guaidó parecem estar a aderir ao projecto humanitário. Um funcionário do Governo norte-americano disse à Reuters que parte dos 20 milhões de dólares (cerca de 17,5 milhões de euros) prometidos por Washington em ajuda humanitária se destinam a Cúcuta, confirmando que a Casa Branca está a par dos planos do autoproclamado Presidente interino.

Em Otava, no Canadá, o Grupo de Lima – que reúne países do continente americano e tem como objectivo debater a crise venezuelana – também reforçou o seu compromisso, comunicando a adjudicação de 53 milhões de dólares (46 milhões de euros) para apoios humanitários, através do primeiro-ministro canadiano Justin Trudeau.

Por outro lado, a Comissão Europeia anunciou a abertura de um escritório “humanitário” em Caracas para “ajudar as pessoas em necessidade” e “facilitar os apoios no terreno”. O projecto envolve um investimento de cinco milhões de euros, que aumenta para 39 milhões o montante disponibilizado por Bruxelas para fins humanitários na Venezuela desde 2018.

Nicolás Maduro, porém, rejeita a ajuda humanitária, por entender que não passa de uma ingerência estrangeira nos assuntos internos do país, patrocinada pelo “imperialismo gringo” de Donald Trump e seus aliados

O Presidente reeleito em 2018 numas presidenciais não-reconhecidas pela oposição e por parte da comunidade internacional conta com o apoio da Rússia, China e Turquia, e responsabiliza os EUA pela asfixia económica da Venezuela que, entende, é a principal causa da hiperinflação descontrolada e da escassez de alimentos e de medicamentos nos mercados.

E compreendendo a estratégia de pressão sobre os militares – cuja cúpula detém importantes cargos ministeriais e lugares de destaque na hierarquia estatal chavista, mantendo-se irredutível no apoio ao regime –, movida por Guaidó, Maduro tem-se desdobrado em aparições junto das Forças Armadas, amplamente difundidas pelas redes sociais e meios de comunicação do Estado. 

O sucessor de Hugo Chávez aposta ainda na intervenção do Papa Francisco no processo, como forma de pressionar Guaidó a sentar-se à mesa e a abandonar as suas reivindicações de mudança de regime – ampliadas esta terça-feira com a discussão, na Assembleia, sobre a nomeação de novos diplomatas e sobre os próximos passos da “transição”.

Maduro enviou recentemente uma carta ao Papa a pedir que mediasse o impasse político venezuelano e o chefe da Igreja Católica mostrou abertura, mediante uma condição: o pedido terá de ser feito por ambos os lados da barricada venezuelana.