Guaidó revela “reuniões clandestinas” com membros do Exército venezuelano

Líder da oposição não esconde que o apoio das Forças Armadas é “crucial” para uma mudança de regime na Venezuela e insiste em conceder amnistia a quem não for culpado por crimes contra a humanidade.

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Juan Guaidó, presidente da Assembleia Nacional da Venezuela Reuters/CARLOS GARCIA RAWLINS

O presidente do Parlamento da Venezuela, que se declarou Presidente interino do país, revelou a existência de “reuniões clandestinas” entre opositores ao chavismo e elementos das Forças Armadas. Num artigo de opinião, publicado na quarta-feira no New York Times, Juan Guaidó confirmou ter sido oferecida amnistia a quem não for culpado por crimes contra a humanidade, em troca de apoio na campanha contra Nicolás Maduro.

“A transição vai exigir o apoio dos principais contingentes militares. Tivemos reuniões clandestinas com membros das Forças Armadas e das forças de segurança. Oferecemos amnistia a todos aqueles que não forem declarados culpados de crimes contra a humanidade”, escreveu Guaidó no jornal norte-americano

Para o líder da Assembleia Nacional é fundamental que a cúpula militar retire o seu apoio a Maduro para permitir a transição de poder na Venezuela. “A retirada do apoio do Exército ao Sr. Maduro é crucial para permitir uma mudança no Governo e a maioria dos que estão de serviço concordam que as dificuldades recentes do país são insustentáveis”, acrescentou Guaidó.

Esta não é a primeira vez que o dirigente político da Vontade Popular apela publicamente ao respaldo da estrutura militar venezuelana para a sua causa – reconhecida por Estados Unidos, Reino Unido, Canadá e a maioria dos países da América Latina. Tem sido, aliás, tema recorrente nas várias intervenções que fez ao longo dos últimos dias. 

É, no entanto, a primeira vez que revela contactos secretos entre a sua equipa e elementos do Exército, cujas identidades ou posições não são conhecidas.

O topo da hierarquia militar venezuelana, bastante representado no Governo de Maduro e em cargos de destaque no aparelho chavista, tem-se mostrado, até ao momento, irredutível na defesa do seu Presidente. Até ao momento foi dado um único sinal público de dissidência, depois de o coronel José Luis Silva, representante militar da Venezuela nos EUA, ter declarado o seu apoio a Juan Guaidó.

Luta pela legitimidade

Maduro e Guaidó são os dois protagonistas de uma verdadeira batalha pela legitimidade política na Venezuela. O líder da Assembleia Nacional – dominada pela oposição mas alvo de uma transferência de competências para a Assembleia Constituinte, controlada pelo regime – não reconhece a última eleição presidencial (Maio de 2018) e invoca a Constituição para se proclamar chefe de Estado interino, lutar pelo fim da “usurpação” e guiar a Venezuela para eleições livres e justas. 

Já o Presidente chavista – apoiado por Rússia, China, Turquia e México, entre outros – entende que o Parlamento e a oposição se encontram “há muito tempo em desacato” e olha para as reivindicações de Guaidó como resultado da asfixia económica e de um “golpe de Estado”, promovidos a partir de Washington. E não teme uma intervenção militar norte-americana. “Não vamos permitir que a América Latina seja outro Vietname”, afiançou num vídeo publicado no Facebook, na quarta-feira.

Enquanto os dois Presidentes disputam o espaço mediático, a Venezuela afunda-se numa profunda crise económica, social e humanitária. Quase três milhões de venezuelanos abandonaram o país nos últimos quatro anos, fugindo à fome, à pobreza e à violência extrema, provocadas e agravadas pela escassez de alimentos e de medicamentos nas lojas e supermercados e pela estagnação económica resultante da redução do preço do barril de petróleo e da hiperinflação extrema.

Para além disso, o país tem sido palco constante de manifestações pró e anti-chavismo, que muitas vezes acabam em confrontos violentos com as autoridades. Para o próximo sábado estão marcados novos protestos, convocados pela oposição a Maduro. Será o último dia do prazo que alguns países da União Europeia deram ao Presidente para convocar eleições, sob pena de reconhecerem Guidó como líder legítimo da Venezuela.

O impacto global da disputa venezuelana levou o ministro do Negócio Estrangeiros russo, Sergei Lavrov, a oferecer-se como potencial mediador de um diálogo alargado, que incluía representantes políticos venezuelanos e ocidentais. 

“O Presidente [Maduro] mostrou-se disponível para aceitar tais esforços internacionais. Pedimos à oposição que demonstre uma abordagem igualmente construtiva, que retire os ultimas e que actue de forma independente, guiada pelos interesses da população venezuelana acima de tudo”, afirmou Lavrov, citada Interfax.

Os media britânicos avançam, porém, que o ministro dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido Jeremy Hunt vai aproveitar um encontro com os seus homólogos europeus, esta quinta-feira na Roménia, para promover a imposição de mais sanções a figuras de topo do regime venezuelano.

Hunt falou ao telefone com Guaidó e, citado pela Reuters, revelou que este lhe pediu ajuda para convencer a UE manter a pressão sobre o regime. “[Guaidó] disse-me duas coisas: ‘por favor, continuem a colocar pressão em Maduro, que tem causado tantos estragos, e lembrem-se que o que está em causa é uma catástrofe humanitária”.