Bioquímica põe galo de Barcelos na capa de uma revista científica internacional

Quando um galo de Barcelos se junta à bioquímica, qual é o resultado? Uma capa de uma revista de ciência internacional. Esta foi a forma encontrada por um grupo de cientistas em Portugal – incluindo dois galegos – para tornar a ciência e a cultura portuguesas mais chamativas.

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A bioquímica do galo de Barcelo: as bolinhas representam as proteínas e as linhas as interacções entre as proteínas Miguel Spuch

Esta é a história de quatro cientistas em Portugal que quiseram levar a ciência e a cultura portuguesas até à capa de uma revista científica internacional. Para tal, pensaram juntar um dos símbolos do país, as cores da bandeira portuguesa, e a bioquímica. No final, o resultado foi a capa de uma das últimas edições da Journal of Proteomics com um galo de Barcelos vermelho, verde e amarelo a representar proteínas e as interacções entre elas.

Tudo começou após a edição de 2017 da Conferência Internacional em Proteómica Analítica da Caparica (ICAP), na Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT) da Universidade Nova de Lisboa. Juntamente com outros três cientistas, o bioquímico José Capelo, da FCT, tinha de preparar uma edição especial da Journal of Proteomics sobre a conferência. Essa seria então uma boa oportunidade para divulgar a ciência portuguesa.

“Na nossa equipa – o Bioscope – temos uma missão fundamental: internacionalizar o nome de Portugal como uma referência em ciência”, conta ao PÚBLICO José Capelo. Em Janeiro de 2018, o seu grupo de investigação já tinha ilustrado a capa da revista de acesso aberto ChemistryOpen com uma bandeira portuguesa que representava moléculas e nanopartículas.

Agora, o desafio era seleccionar outro símbolo português. Acabou por ser escolhido o galo de Barcelos: “Como sou galego, a lenda do galo de Barcelos é muito especial para mim.”

Segundo a lenda deste galo contada no site do município barcelense, há muito tempo os habitantes do burgo de Barcelos andavam preocupados com um crime e com o facto de o criminoso não ser descoberto. Um dia, um galego apareceu no burgo e tornou-se o suspeito. “As autoridades resolveram prendê-lo e, apesar dos seus juramentos de inocência, ninguém acreditou que o galego se dirigisse a Santiago de Compostela, em cumprimentos de uma promessa”, relata-se no site. Como tal, condenaram-no à forca.

Mas, antes de ser enforcado, o galego pediu para que o levassem até ao juiz , que estava em casa num banquete com alguns amigos. Lá, quando afirmou a sua inocência e ao apontar para um galo assado que estava na mesa, o galego terá dito: “É tão certo estar inocente como certo é esse galo cantar quando me enforcarem.” Para surpresa de todos, quando o galego estava para ser enforcado, o galo levantou-se da mesa e cantou. Imediatamente o galego foi solto – pois já estava com a corda ao pescoço – e declarado inocente.

Proteínas e interacções

“O meu desafio foi: como é que faço para internacionalizar a ciência através do galo?”, questionou-se José Capelo. Lembrou-se de que este galo podia ser inspirado num programa informático que costumam utilizar no Bioscope, o Cytoscape. “Este programa é um software que permite comparar o proteoma de um indivíduo são e as proteínas de um indivíduo doente, por exemplo, com cancro”, refere José Capelo.

O proteoma de um indivíduo é o conjunto completo de proteínas expresso por uma célula, tecido ou organismo, que muda em resposta a vários factores como uma doença ou em resposta a um medicamento. Devido à sua dimensão (tem milhares de proteínas) e complexidade, o proteoma costuma ser analisado por técnicas de espectrometria de massa de alta resolução que permitem identificar, quantificar e caracterizar a estrutura das proteínas.

Depois, a informação recolhida pela espectrometria de massa é tratada em softwares como o Cytoscape, o que permite visualizar a forma como as proteínas interagem umas com as outras ou identificar quais os processos biológicos activados numa determinada doença.  

“No Cytoscape vamos encontrar proteínas que estão diferentes ou são mais ou menos abundantes entre indivíduos sãos e doentes”, indica José Capelo. “Este programa faz uma série de ligações e interconexões [entre as proteínas], desvenda os processos bioquímicos que estão por trás da doença e liga inclusivamente estas proteínas a genes. Conseguimos assim ter uma visão muito abrangente do processo da doença em termos de bioquímica.”

José Capelo destaca ainda que esta informação é “extremamente importante” porque permite identificar potenciais biomarcadores de diagnóstico e prognóstico, assim como desenvolver fármacos que vão actuar de forma selectiva nas proteínas ou vias biológicas alteradas e que são responsáveis pela doença.

O próximo passo de José Capelo – juntamente com Carlos Lodeiro, Hugo Santos (ambos da FCT) e Gilberto Igrejas (da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro) – foi perceber como representaria o galo de Barcelos com as proteínas e as interacções entre elas. Acabou por contactar Miguel Spuch, um químico e desenhador científico na Suíça. Este desenhador usou três programas de design para fazer um galo de Barcelos inspirado no Cytoscape. No final, através da bioquímica e do design, obteve-se um galo de Barcelos com proteínas e cores da bandeira portuguesa.

“Se se olhar para o galo, as bolinhas representam proteínas e as linhas simbolizam as ligações e interacções entre as proteínas”, explica o bioquímico, acrescentando que essas bolinhas representam concretamente as proteínas que estão diferenciadas entre os indivíduos sãos e os doentes.

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Capa da revista Journal of Proteomics com o galo de Barcelos DR

Mesmo assim, assinala: “O galo propriamente em si não representa nenhuma doença, mas qualquer pessoa que trabalha na área da proteómica e da genómica vai dizer que o galo foi desenhado por um programa usado por todos nós para estabelecer ligações bioquímicas entre doentes e não doentes.”

Para que este “galinho” (como lhe chama José Capelo) se tornasse uma realidade, o bioquímico pagou cerca de 400 euros. “Portugal investiu muito em mim e só estou a devolver o trabalho que Portugal fez.”

O primeiro contacto que o cientista galego teve com Portugal foi há cerca de 20 anos. Uns anos depois, em 2002, começou por trabalhar como pós-doutorado no Instituto Superior Técnico, em Lisboa. Em seguida, passou para a FCT como investigador. Mais tarde tornou-se professor auxiliar e, agora, é professor associado. Para este ano, planeia obter a nacionalidade portuguesa: “Já estou a tratar da papelada toda.”

Um galo em 3D

Por agora, José Capelo espera que a capa da Journal of Proteomics com o galo de Barcelosnomeadamente a edição de 16 de Janeiro deste ano sobre a Conferência Internacional em Proteómica Analítica da Caparica de 2017 – seja chamativa e ajude a divulgar a ciência e a cultura portuguesas. “Na contracapa está escrito que é um galo de Barcelos e espero que algumas pessoas, por curiosidade, vão ver o que significa.”

Já a preparar a edição deste ano da conferência, o bioquímico avisa que os lugares para 200 pessoas – entre 8 e 11 de Julho na FCT – estão quase todos preenchidos. Além de portugueses, terá a participação de cientistas chineses, russos, norte-americanos, australianos ou sul-africanos. Como oferta para os participantes da conferência, José Capelo está a pensar imprimir uma versão a três dimensões do galo de Barcelos “bioquímico”.

Mas antes, quer enviar uma cópia da Journal of Proteomics e um galo de Barcelos em 3D ao Presidente da República, para que Marcelo Rebelo de Sousa veja a divulgação que estão a fazer da ciência portuguesa, tal como já tinha acontecido com a bandeira portuguesa com moléculas e nanopartículas. Em Novembro de 2017, quando Marcelo Rebelo de Sousa visitou a FCT a propósito dos 40 anos desta faculdade, os cientistas ofereceram-lhe essa bandeira com química. Também vão fazer chegar este galo ao presidente da câmara municipal de Barcelos.

A divulgação da ciência portuguesa através dos símbolos do país não irá parar no galo de Barcelos. Depois da conferência deste ano, José Capelo quer pôr outro símbolo na capa da mesma revista científica. “Estou com um desafio terrível: já meti [na capa de outra revista] a bandeira e o galo – e agora?”

Uma hipótese é o cavalo puro-sangue lusitano. “É um símbolo senhorial de prestígio, as pessoas sabem que é um dos melhores cavalos a nível mundial e é português. É uma boa ideia.” José Capelo aceita outras sugestões. Afinal, o seu objectivo é levar a ciência e a cultura portuguesas a todo o mundo.