Facebook desmente programa "secreto" para espiar adolescentes

O Facebook foi apanhado a pagar 20 dólares por mês a utilizadores para ter acesso a todos os seus dados no telemóvel. Ao PÚBLICO, a empresa diz que o programa não tinha "nada de secreto".

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O Facebook diz que apenas 5% dos participantes eram menores Reuters/Dado Ruvic,Reuters/Dado Ruvic

O Facebook está a ser acusado de recrutar menores para instalar uma aplicação no telemóvel para ter acesso à sua actividade online, como parte de um estudo sobre redes sociais. Isto incluía mensagens privadas, fotografias e ficheiros enviados, pesquisas na Internet, e comentários em redes sociais. Em troca, os participantes recebiam 20 dólares por mês (cerca de 17,5 euros).

Um dos problemas é que as pessoas nem sempre sabiam que estavam a participar num estudo do Facebook. E, em alguns casos, os anúncios procuravam especificamente adolescentes entre os 13 e os 17 anos. Por vezes, nem era preciso autorização dos pais.

A informação foi avançada numa investigação do site de tecnologia TechCrunch. 

O Facebook confirma a existência do programa, mas em resposta a perguntas enviadas pelo PÚBLICO frisa que não havia "nada secreto” no projecto.

“Apesar dos relatos recentes, não havia nada ‘secreto’ sobre isto; a aplicação era literalmente chamada Facebook Research App. Não era ‘espiar’, visto que as pessoas que participavam passavam por um processo em que davam a sua autorização”, lê-se no email enviado ao PÚBLICO. “Menos de cinco por cento dos participantes que decidiram participar eram adolescentes. E todas assinaram documentos de consentimento parental.”

O programa de testes dura há três anos. Desde 2016, a gigante tecnológica recruta pessoas entre os 13 e os 35 anos para participar no estudo através de anúncios no SnapChat e no Instagram. Às vezes o projecto era identificado pelo nome Facebook Research App, noutras, Project Atlas.

A aplicação era disponibilizada através de serviços para testar aplicações novas, como o Applause, o BetaBound e o uTest. Não era possível encontrá-la directamente em lojas de aplicações como o Google Play ou a App Store, da Apple.

De acordo com relatos de utilizadores no Twitter que tentaram instalar a aplicação após a notícia do TechCrunch, alguns serviços que a distribuíam não mencionavam o envolvimento do Facebook. Na página do Project Atlas da BetaBound, por exemplo, não há uma única referência ao Facebook. E o site deixou de aceitar aplicações a 15 de Janeiro. 

"Preocupa-me que o Facebook tente aproveitar-se do facto de esta situação envolver detalhes técnicos para causar dúvidas”, escreveu no Twitter Will Strafach, presidente executivo da aplicação de segurança GuardianApp e um dos profissionais citados pelo TechCrunch.

Não se sabe o tipo de informação específica que a rede social procurava. Mas, de acordo com Strafach​, depois de carregar em todos os botões de consentimento necessário, a aplicação dava acesso às mensagens privadas dos utilizadores nas redes sociais, email, e pesquisas online dos participantes.

O PÚBLICO perguntou ao Facebook o tipo de dados recolhidos, mas não obteve nova resposta até à hora de publicação deste artigo.

“O Facebook diz que avisa sobre a informação que recolhe, e talvez isso seja verdade. Mas não informam os utilizadores da enorme quantidade de dados a que tem acesso quando se carrega no botão de ‘confiar’”explicou Strafach, em resposta a perguntas de utilizadores do Twitter. “Não acho que os utilizadores fossem consentir se tivessem este conhecimento.”

O Project Atlas funciona muito como a controversa aplicação Onavo (que conta, controla e diminui a utilização de dados móveis), que o Facebook comprou a uma empresa de consultoria israelita em 2013. Foi banida da loja de aplicações da Apple recentemente por preocupações de privacidade. Por este motivo, a nova aplicação não estava disponível directamente na loja da Apple. Foram dados recolhidos pela Onavo, que terão contribuído para a compra do WhatsApp pelo Facebook em 2014.

Desde a notícia do TechCrunch, o Facebook já descontinuou os testes em aparelhos com iOS. Mas a empresa diz que vai continuar o programa, que descreve como “um grupo de foco”.

“Como esta investigação tem o objectivo de ajudar o Facebook a perceber como as pessoas usam os seus aparelhos móveis, oferecemos informação detalhada sobre o tipo de dados que recolhemos e como se pode participar”, lê-se numa declaração da empresa, que circula na imprensa.

A confiança no Facebook continua a diminuir. Desde o começo de 2017 que o Facebook tem sido atingido por vários escândalos de privacidade.

caso Cambridge Analytica levou dados de cerca de 87 milhões de utilizadores em todo o mundo a serem ilegalmente recolhidos e utilizados em várias campanhas políticas. Em Junho, outro erro do Facebook deixou publicações privadas de 14 milhões de utilizadores visíveis a qualquer pessoa na Internet, mesmo que não tivessem uma conta no Facebook. E em Dezembro, um documento privado da empresa mostrou que a Netflix, Airbnb e outras empresas tiveram acesso especial a dados do Facebook.