Entrevista com Luís Silva (CEO Ericsson)

“Necessidades dos consumidores levarão à massificação do 5G”

Luís Silva, CEO da Ericsson Portugal, acredita que o sucesso do 5G depende das startups e que a transmissão de voz perderá relevância no negócio.

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Luís Silva passou pela Motorola e pela WeDo antes de chegar ao topo da Ericsson Portugal, um dos braços do gigante tecnológico que compete em todo o mundo como fornecedor de tecnologia aos operadores que apostam no desenvolvimento da quinta geração de redes móveis (5G). Mais importante do que o prazo de entrega das licenças, diz Luís Silva, é o preço que vai ser cobrado. Por isso pede “equilíbrio”, “ponderação” e “moderação” para que o sector não saia “estrangulado” e incapaz de apostar na inovação.

Como é que a Ericsson olha para a chegada do 5G e quais os objectivos da empresa?
Temos 52 acordos já feitos com operadores em todo o mundo, grande parte nos EUA, que dão mais prioridade ao 5G do que a Europa. Na Europa temos acordos com os principais operadores. Aqui em Portugal, onde somos líderes de mercado, temos acordos com a Altice e com a Vodafone.

O que abrangem esses acordos?

Não são acordos meramente tecnológicos. O 5G passa muito pelos casos de uso e pelas tendências dos clientes finais. O 5G vai ser a revolução digital.

Está a pensar em quê?
O tráfego de largura de banda móvel tem crescido 40% ao ano. Isso obriga a tecnologia a adaptar-se e essa agilidade é necessária para acompanhar as necessidades dos consumidores. Existe outra componente vinculada à tecnologia que é a Internet das Coisas. Cada vez temos mais comunicação máquina-máquina, e tudo isso passa pelas redes móveis.

A taxa de penetração de telemóveis ultrapassa os 100% em Portugal, e a maioria tem smartphones. O que é que isto significa para a Ericsson?
Que as pessoas acham cada vez mais natural a mobilidade. Existem países mais desenvolvidos que já têm as casas todas conectadas. Os electrodomésticos estão hoje em dia nas feiras de telecomunicações, porque também já têm que ver com a conectividade. Antes procurava-se cobertura, agora procura-se acessibilidade e mobilidade.

E a Ericsson faz parte dessa equação?
Tem sido fundamental nessa equação. Sessenta por cento do tráfego móvel passa pelas redes que fornecemos. 

Os serviços OTT (over the top, como o Whatsapp) têm crescido muito. É um exemplo de como as telecom vão ter de mudar?
Creio que a transmissão de voz vai ser o caso de uso que as pessoas menos vão procurar. Os dados, o vídeo, pelo contrário, serão cada vez mais usados. 

Isso significa que as telecom vão ter de mudar o negócio?
Acredito que sim, mais pela mudança estratégica das pessoas que estão a mudar as necessidades.

Quando o 3G foi lançado, dizia-se que foi muito cedo, que ninguém estava preparado. O cenário actual é diferente?
Estamos mais bem preparados do que há dez anos. 

Não há sensação de que estão a ser empurrados?
As tendências dos consumidores é que ditam os mercados. E os dados são evidentes. O consumidor procura cada vez mais conectividade. Sobre esta conectividade podemos construir muitos casos de uso. Todas as necessidades que estão a ser sentidas, como a pressão cada vez maior para um tempo de latência mais baixo, obrigam a tecnologia a ser mais ágil. E todos os operadores e fornecedores de tecnologia, como a Ericsson, têm de responder a essas necessidades.

Como se chega a esse cenário? Uma coisa é fazer uma experiência-piloto num sítio, outra é cobrir o país inteiro com um serviço. Um mercado pequeno como o português tem capacidade para responder a isto?
Não tenho dúvidas, estamos bem preparados.

É preciso muito dinheiro…
É preciso investimento, mas os casos de uso do negócio que suportam o investimento são muito mais sólidos e maciços do que os de há dez anos [com o 4G]. Temos muitos mais sectores de actividade, da agricultura à saúde, da energia à indústria e às fábricas. Havendo mais sectores com casos de uso, creio que o negócio se torna mais fácil de gerir, nomeadamente no que diz respeito ao retorno no investimento.

Isso significa que o 5G começará primeiro nessas áreas empresariais, em vez de no mercado dos consumidores individuais?
Penso que sim.

Qual deve ser o calendário de atribuição de licenças do 5G?
Não podemos ficar muito atrás dos nossos parceiros europeus. Em Espanha, já houve licitação do espectro. Creio que podemos fazer as coisas com ponderação e com moderação, até porque as redes estão perfeitamente preparadas e durante este ano o regulador terá uma palavra a dizer.

Mas concorda que o leilão só deve ser feito em 2020, como parece ser a opinião maioritária recolhida na consulta pública feita pela Anacom?
Creio que deveríamos ter o nosso quadro regulatório perfeitamente definido em 2019. O ano de 2020 seria um ano em que já poderíamos lançar alguns serviços e, por isso, o presente ano deveria servir para definir todo o quadro regulatório.

Refere-se à atribuição das licenças?
Sim.

É forçoso que o calendário nacional esteja alinhado com o calendário europeu?
Não é obrigatório, no ponto de vista de mercado, mas do ponto de vista tecnológico não creio que seja produtivo ficarmos muito distantes dos nossos parceiros europeus. Gostaria que Portugal mantivesse a liderança que mostrou ter no 2G, no 3G e no 4G. O que quero dizer é, se fizermos o licenciamento em 2019, que se faça de forma equilibrada, e não de forma a estrangular o sector. Fazer este ano não é uma necessidade, mas seria bom não ficarmos muito atrasados. Mas a minha primeira premissa é mais importante do que a segunda.

Onde está o risco de estrangulamento?
Tudo o que se gastar nas licenças...

Mas quanto tempo demorará o 5G a tornar-se comercialmente viável?
Terá uma progressão normal para a maturidade, mas acredito que será mais rápida do que nas tecnologias anteriores. As necessidades dos consumidores estão saudavelmente mais agressivas e conduzirão a muitos casos de uso, que levarão à massificação da quinta geração.

A massificação vai exigir um investimento muito grande, mudar e reforçar a rede... Voltamos ao mesmo...
É importante haver um equilíbrio. Falo muito da importância do quadro regulatório, porque tivemos países que, na ausência de uma métrica comum, registaram investimentos de operadores no espectro perfeitamente desenquadrado com a realidade do 5G. E temos outros países onde houve equilíbrio e sentido comum, ligado ao desenvolvimento da indústria. O quadro regulatório sobre o espectro é algo que afecta toda a indústria e não apenas o operador A ou B. Temos de ser equilibrados.

O interesse dos operadores é pagar menos pela utilização do espectro…
É importante termos consciência disto: se não houver um equilíbrio, toda a indústria é afectada. Se houver um custo excessivo no espectro, como se verificou em Itália [onde os operadores acabaram por pagar três vezes mais do que a receita inicialmente prevista pelo governo de Roma], isso torna extremamente difícil o investimento que a indústria depois terá de fazer no desenvolvimento das telecomunicações para os consumidores.

Lendo o relatório de consulta pública, percebe-se que os operadores não estão preocupados com 2019. Isso terá que ver com a necessidade de rentabilizar ainda o 4G antes de investir no 5G?
Será mais por uma questão tecnológica, porque com o 4G, neste momento, conseguimos valores de latência muito próximos dos do 5G. Além de tentar rentabilizar o 4G, e mais pelo investimento que ainda se faz nas redes actuais, conseguimos acompanhar maioritariamente, com o LTE, todos os casos de uso que os clientes finais nos estão a pedir. Não devemos estar a investir em tecnologias em que não temos o negócio a acompanhar.

Fala-se muito dos casos de uso, mas são poucos e sempre os mesmos. E não se saber qual será a aplicação mais rentável. O 5G é uma questão de responder ao mercado ou um desafio para ser inovador?
Subscrevo o que diz. Ainda não existe “o” caso de uso, que faça a explosão completa do 5G. Nessa matéria, posso falar pela Ericsson Portugal, que é parceira da Vodafone e da Altice, investimos em programas de startups, porque acreditamos que esse tipo de empresas, muito focadas, será grande parte da base do sucesso dos casos de uso que iremos ter de desenvolver e entregar.

“Não podemos perder competitividade”

Já que tocou na questão das startups, como vê a Web Summit?
Tem sido um fenómeno. Não trouxe tecnologia para Portugal, mas tem sido muito relevante na divulgação das nossas empresas, das oportunidades e dos investidores lá. Tem sido um grande veículo...

Uma montra…
Sim, mas também nos coloca no centro da revolução digital, porque é um grande divulgador e torna Portugal um pólo importante.

Portugal não surge tão bem colocado na estabilidade fiscal e burocracia em comparações internacionais. O que deveríamos melhorar para atrair mais investimento internacional na área tecnológica?
Estamos muito melhor, temos feito esforços, não somos de todo líderes nessa matéria, mas temos visto empresas a trazerem para cá centros de competência e penso que isso é um bom indicador…

…de que a engenharia portuguesa é boa e barata?
[Sorrisos] Somos mais baratos do que alguns países europeus? Sem dúvida. Mas creio que é um indicador de que também sabemos fazer as coisas bem. 

Daqui a uns anos estarão a mudar tudo para a Roménia…
De momento não existe esse risco. Todos temos a responsabilidade de impedir que isso aconteça.

O que deve então ser feito?
Poderia haver mais incentivos e o 5G é uma boa oportunidade. Houve governos que deram incentivos para se fazerem pilotos, como em Espanha. Outros países têm tido sucesso no que têm feito e penso que, se o fizermos cá, também daríamos mais know-how e competência ao país. Mas creio que estamos melhor.

Três das cinco principais empresas no mercado em que a Ericsson concorre são chinesas e duas são europeias. E uma empresa chinesa, a Huawei, tirou a liderança à Ericsson em 2017, em termos de receitas. A Europa está a perder relevância e  desatenta ao que se está a fazer na China?
É uma boa questão. A Ericsson tem tido os seus ciclos, a empresa está forte e sólida. Nos últimos dez anos, grande parte das empresas teve consolidações, fusões e algumas delas saíram do sector. A Ericsson tem 142 anos, e continuamos a fazer o nosso caminho. Em Portugal fizemos 65 anos em 2018 e creio que temos sabido colocar as nossas peças nos sítios certos. Não acho que estejamos desatentos ao que se está a fazer na China. É uma questão de as métricas serem diferentes das nossas…

Em que sentido?
Temos um portefólio mais focado, as empresas chinesas têm um portefólio ​mais diverso, mas eu não vejo que a médio ou longo prazo tenhamos de estar muito preocupados. Temos de estar preocupados com os nossos mercados. Se fizermos bem o nosso trabalho, vamos continuar a ser líderes de mercado.

Mas a questão é que agora não são. O que é que levou a esta mudança em cinco anos?
Não creio que haja uma razão específica. Veja: nós não temos terminais, por opção [ao contrário da Huawei]. As empresas não são comparáveis nas áreas de actuação. Se olharmos para o 5G, se compararmos o posicionamento das várias empresas, vejo a Ericsson muito bem posicionada.

A luta no 5G vai ser uma luta global…
E acho que vão aparecer novos players [protagonistas]! Nas feiras internacionais já se vêem players novos a posicionarem-se para o 5G

Há espaço para elas?
Vai depender. Creio que a Ericsson tem solidificado muito a sua posição.

Faz sentido a polémica em torno da Huawei?
É difícil fazermos comentários sobre isso. A Ericsson está num período de silêncio. Temos de nos preocupar connosco.

E com a economia portuguesa está preocupado?
A única coisa que me preocupa um bocadinho é que não podemos perder a nossa competitividade, e falo de todos os sectores e áreas. E não estou a falar de mão-de-obra barata. A competitividade é uma combinação de factores ao mesmo tempo. Temos de ser agressivos de forma saudável, os mercados são muito dinâmicos e muito rápidos.