Emigrantes e o “Brexit”: “Ainda aqui estou, com as coisas todas metidas em caixas”

Entre os emigrantes portugueses no Reino Unido, o "Brexit" incomoda “como uma dor de dentes”: vencido o medo da expulsão, “as pessoas vivem a sua vida normal, mas a moinha está lá no fundo, a incomodar”. A dúvida agora é se, com o custo de vida a aumentar, este destino continua a valer a pena.

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António Frazão, 76 anos, vive há 21 anos em Inglaterra Direitos Reservados
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Susana Forte Vaz Direitos Reservados
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Susana Forte Vaz ajuda os imigrantes portugueses em Inglaterra a tratarem da burocracia Direitos Reservados
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João Noronha Direitos Reservados

Quando, no dia 23 de Junho de 2016, a saída do Reino Unido da União Europeia ganhou no referendo com 51,8% dos votos, António Frazão foi a uma loja comprar caixas e começou a embalar as suas coisas. “Só deixei ficar de fora os móveis e as roupas e os objectos do dia-a-dia. E fiquei muito aborrecido porque, logo no dia a seguir, já não via bandeira nenhuma da Europa por aí”, recorda. Dois anos e meio volvidos, este natural de Beja com 76 anos, os últimos 21 dos quais a viver em Londres, continua com os seus pertences empacotados. “Não quero ir embora, mas até saber no que isto vai dar não me vou pôr a desembalar tudo outra vez”, explica, dando conta, numa frase, da mistura de apreensão e expectativa que alastrou à maior parte dos portugueses emigrados para o Reino Unido.

Consoante a fonte que se consulta, os portugueses no Reino Unido (além de Inglaterra, a Escócia, o País de Gales e a Irlanda do Norte) podem variar entre os 309 mil que, em Junho do ano passado, possuíam o National Insurance Number, sem o qual não é permitido trabalhar, e os cerca de 600 mil que incluem já todos os que trabalharão à margem da lei. “A maior parte do pessoal que trabalha nas obras não se declara nem paga impostos. Ninguém sabe que eles cá estão”, declara Domingos Cabeça, proprietário da única agência de recrutamento portuguesa em Londres, reportando-se à estimativa que terá sido recentemente admitida pelas próprias autoridades britânicas.

É à agência Neto que telefonam os sociólogos que se propõem estudar os fluxos migratórios de portugueses para o Reino Unido. “Funciona como uma espécie de âncora para os recém-chegados”, justifica Pedro Góis, investigador no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. Entre 2011 e 2015, terão emigrado para o Reino Unido 129 mil portugueses, segundo a Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas. O pico deu-se em 2015, ano em que entraram 32 mil portugueses. “Nessa altura”, recua Pedro Góis, “havia filas de portugueses à porta desta agência. Procuravam trabalho em sectores como a hotelaria, as limpezas e a construção civil”. E agora, Domingos Cabeça? “Não está a vir ninguém. Desde que começou esta confusão à volta do "Brexit", as pessoas ficaram com medo e deixaram de vir”, responde.

Em sentido contrário, com o custo de vida a subir, serão muitos os que estão a regressar a Portugal. “Fui ontem [terça-feira] a uma loja comprar um saco de batatas que me custava seis libras e desta vez pediram-me 13 libras. Mais do dobro”, descreve Domingos Cabeça. Segundo este “recrutador”, o caminho de regresso tende a ser iniciado pelos que emigraram “há dois ou três anos” ou estão no desemprego ou em risco disso. “Agora mesmo, uma cadeia muito grande no Reino Unido, a Patisserie Valerie, fechou 60 lojas. Mais de 90% dos seus empregados eram portugueses. Estes, e outros como estes, estão muito assustados.”

Advogados cobram 1200 libras

Muitos, como António Frazão, que viveu de tocar e cantar em hotéis, pubs e restaurantes, descontando como trabalhador por conta própria, nunca cuidaram de pedir a residência permanente. “Sou muito português, muito alentejano e muito europeu. Nunca me preocupei em procurar a residência. Agora, e porque ficámos todos com medo, telefonei para um advogado e ele pediu-me 1200 libras para tratar de uns papéis que custam 60 ou 70 libras! No consulado, dizem que é uma confusão. Desisti. Então ainda aqui estou, com as coisas todas metidas em caixas”, conta. Entre trabalhos pontuais, as cerca de 200 libras semanais que recebe de reforma no Reino Unido e a reforma portuguesa de 400 euros mensais, garante: “Está-se muito bem por cá.”

No restaurante “O Bombeiro”, em Park Parade, Londres, o gerente Francisco Nunes, há 42 anos em Inglaterra e já com nacionalidade britânica, nota “uma diminuição de cerca de 5% na clientela”. “Muitos regressaram a Portugal e, por outro lado, já não se vê tanta gente nova a chegar: há um ano, eram caras novas todos os dias, desde enfermeiros a trolhas”, precisa. Pessoalmente, não está “nada preocupado”. Mas, das conversas que vai apanhando pelas mesas, conclui que as pessoas estão apreensivas. “Não sabem se hão-de fazer ou deixar de fazer.” Não muito longe, no restaurante “A Toca”, em Vauxhall, o waiter Pedro Pinto confirma que a reacção aos fantasmas acordados pelo "Brexit" “depende da situação em que cada um está”. “Há gente muito preocupada e alguns, de cabeça quente, foram-se embora, também porque as coisas em Portugal parecem estar a melhorar. Outros dizem que com o 'Brexit' até vai ser melhor porque o país vai ter controlo próprio de novo. Eu não concordo, mas já tenho um filho nascido cá e penso pedir a residência permanente.”

Ressalvando que os fluxos migratórios só se percebem bem “quando se olha pelo retrovisor”, ou seja, alguns anos depois, o investigador Pedro Góis arrisca algumas conjecturas sobre o impacto presente e futuro do "Brexit" entre a comunidade de portugueses no Reino Unido, independentemente de estes poderem ser, como garantem as autoridades britânicas, autorizados a permanecer. “Os emigrantes que trabalham na agro-indústria, entre Londres e Manchester, e são largos milhares de indivíduos a trabalhar no sector das carnes, poderão ser afectados se o 'Brexit'​ provocar uma disrupção nas relações económicas com os países da União Europeia, isto é, se a Inglaterra deixar de poder exportar com a mesma facilidade.”

Por outro lado, em Londres, “os muito portugueses ligados à economia da cidade – nos serviços, restaurantes, cafés – poderão sofrer alguma coisa se a massa monetária em circulação diminuir”. Neste grupo, admite, “os que estão há mais tempo poderão encontrar solução dentro das suas redes britânicas”. Depois, os emigrantes mais qualificados, “cujas entradas terão desacelerado também porque o 'Brexit'​ coincidiu com alguma recuperação da economia portuguesa”, deverão continuar a ter abertas as portas do Reino Unido.

“Entre os cientistas, há equipas que se estão a mudar para a Europa Continental e sabemos que há deslocalizações de algumas empresas europeias que tinham as suas sedes em Inglaterra. Mas, na saúde, por exemplo, continua a haver recrutamento de enfermeiros e os que já lá estão não deverão ter grande dificuldade”, antecipa Pedro Góis.

Cordialidade britânica “deixou de existir”

Apesar de considerar que “a comunidade portuguesa é vista como trabalhadora” e que se integrou “muito bem”, João Noronha, o director editorial do Notícias, um jornal que é há 11 anos publicado em português no Reino Unido, com uma tiragem de 15 mil exemplares distribuídos por 258 localidades, tem sentido uma crescente hostilidade contra os imigrantes. “A cordialidade britânica deixou de existir. Se antes tinham a iniciativa de cumprimentar as pessoas na rua, fazendo-as sentir-se bem-vindas, agora acontece virarem a cara e responderem com um grunhido aos cumprimentos”, relata.

Em Norfolk, que congrega uma das maiores comunidades portuguesas, maioritariamente empregadas na indústria, da agro-pecuária à electrónica, o emprego tem-se mantido estável, “porque a saída dos imigrantes de Leste, nomeadamente polacos, abriu milhares de oportunidades para os portugueses e as condições são espectaculares”. “As crianças não pagam nada na escola e as famílias podem receber o working tax credit que o Estado concede quando considera que os rendimentos estão abaixo do valor considerado mínimo para viver condignamente”, concretiza Noronha.

De resto, “apesar de as coisas estarem todas muito embrulhadas”, este jornalista acredita que o compromisso de conceder autorizações de residência temporária ou permanente aos imigrantes chegados antes de 29 Março de 2019 (data prevista para a saída da União Europeia) se vai manter. “Numa primeira fase, o Governo escolheu várias empresas que empregavam imigrantes europeus e enviou-lhes formulários para que se candidatassem à residência permanente. E ainda ontem [terça-feira], o [jornal britânico] Guardian dizia que 77% desses imigrantes já receberam uma carta a conceder-lhes a residência permanente e aos restantes 33% foi pedida mais documentação.”

Na segunda-feira, Theresa May anunciou que deixarão de ser cobrados os emolumentos a quem se candidatar a uma autorização de residência a partir de 30 de Março de 2019. Os que já pagaram ou vierem a pagar entretanto terão direito a um reembolso de 65 libras, no caso dos adultos, e de 32,5 libras, no caso dos menores de 16 anos. Posto isto, retoma João Noronha, o impacto do "Brexit"​ entre os imigrantes medir-se-á pelas consequentes mudanças na economia do país mais do que em qualquer tentativa de forçar a saída dos imigrantes. “Tudo dependerá do valor da libra e do acordo comercial que vier a ser estabelecido”, sustenta.

“Como uma dor de dentes”

No gabinete de Susana Forte Vaz, que desde 2005 se dedica a tratar da burocracia aos imigrantes portugueses que chegam a Norfolk, mais concretamente à cidade de Thetford, “que fica no centro da bochecha do lado direito de Inglaterra”, as dúvidas que se colocam prendem-se, já não com o medo da expulsão, mas “com o saber se continuará a valer a pena” viver em Inglaterra. “O 'Brexit' funciona um bocadinho como uma dor de dentes: as pessoas vivem a sua vida normal, mas a moinha está lá no fundo, a incomodar”, descreve, garantindo que “entre Janeiro e o Verão do ano passado muitos dos que já cá estavam há muitos anos decidiram regressar porque estavam cansados, intranquilos, também por causa da hostilidade que começaram a sentir”.

“E isto deu-se numa cidade onde o centro de saúde tem tradutores portugueses, os bancos empregaram portugueses para poderem atender a comunidade de imigrantes e as escolas têm assistentes que falam português!”, enfatiza Susana Vaz, confirmando que, por outro lado, as contas do supermercado aumentaram muito mais do que os salários. Por isso, e porque “as condições de trabalho se alteraram para pior, muitos portugueses questionam-se se continua a fazer sentido permanecerem cá ou se mais vale optarem por outro país da Europa”. Afinal, como lhe dizia há dias um português, em jeito de desabafo, “basta atravessar o canal da Mancha e escolher um de 27 países da Europa”.