Opinião

Quando a Jamaica sobe a Avenida da Liberdade

Tendo em conta as condições degradantes de tantos bairros nos arredores de Lisboa, do Porto ou de Setúbal, aqueles jovens já deveriam ter visitado há muito mais tempo as avenidas finas da capital.

Mamadou Ba – fixem este nome, porque vão ouvir falar dele muitas vezes. A primeira vez que prestei atenção a Mamadou Ba foi aquando dos protestos para remover a estátua do padre António Vieira do Largo da Misericórdia, em Lisboa. Discordei dos seus argumentos (continuo a discordar) mas percebo aquilo que ele tem vindo a tentar fazer – introduzir em Portugal um discurso de reparação étnica alinhado com as políticas de identidade que fascinam boa parte da esquerda americana, capaz de congregar os portugueses de pele negra e construir aquilo que até hoje nunca existiu: uma comunidade luso-africana, disposta a lutar pelos seus direitos e a melhorar as suas condições de vida.

Antipatizo com o método, mas simpatizo com a causa. E a prova de que algo está realmente a mudar, e que Mamadou Ba está a ganhar essa batalha, foi a forma como três centenas de jovens negros se juntaram em frente ao ministério da Administração Interna, no Terreiro do Paço, para protestar contra a intervenção da polícia no Bairro da Jamaica, avançando de seguida para a Avenida da Liberdade. Eu sei que terá havido pedradas, confrontos com a polícia e balas de borracha. Não quero desvalorizar esse facto. Mas a notícia não está aí, nem é isso que me interessa discutir.

A notícia está na consciencialização daqueles jovens enquanto grupo organizado de pressão, dentro daquilo que são os modos tradicionais de intervenção na vida nacional. Extirpado de uma violência desnecessária, esse activismo faz falta a Portugal. Tendo em conta as condições degradantes de tantos bairros nos arredores de Lisboa, do Porto ou de Setúbal, aqueles jovens, representados por ninguém, já deveriam ter visitado há muito mais tempo as avenidas finas da capital. Quem sabe não tenhamos assistido ali ao nascimento simbólico da comunidade luso-africana com que sonha Mamadou Ba.

Esta é a parte boa. Agora vem a má. E a parte má envolve o uso da palavra “racismo” e uma visão marxista da realidade. Quando Martin Luther King disse “eu tenho o sonho de que as minhas quatro crianças irão um dia viver numa nação onde não serão julgados pela cor da sua pele, mas pela qualidade do seu carácter”, o racismo contra o qual ele lutava não é o mesmo contra o qual luta Mamadou Ba. Luther King colocava o problema ao nível dos indivíduos – a cor não deveria ser critério na relação entre pessoas. Mamadou Ba coloca a questão ao nível dos grupos: há um grupo minoritário oprimido por um grupo maioritário, e a luta é legitimada pela desproporção no acesso ao poder – e, assim, a cor da pele, que antes se desejava abolir como critério, precisa agora de regressar, porque é ela que diferencia os grupos em conflito. (Note-se que a actual luta LGBT utiliza exactamente este mecanismo.)

Aliás, Mamadou Ba permite-se dizer “bosta de bófia” sem se considerar racista porque, pertencendo ele a um grupo historicamente marginalizado, a sua concepção de racismo não se lhe aplica. O senhor Marx continua vivo, e não é por acaso que Mamadou Ba já é assessor do Bloco de Esquerda no Parlamento, não me admirando nada que em Outubro acabe nas listas de deputados. Também não é por acaso que Mamadou Ba é um dos que defendem (a meu ver, bem) a recolha de dados étnico-raciais pelo Instituto Nacional de Estatística, quando essa recolha está vedada precisamente para combater o racismo. Só que esse, lá está, era o “racismo individual” dos anos 70. Que nada tem a ver com o “racismo estrutural” do presente.

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