Crítica

Três Jibóia a dançar a harmonia das esferas

O terceiro álbum mantém as propriedades hipnóticas, os temperos orientais e o prazer na exploração, mas é retrato parcelar da viagem feita pelo trio que o criou.

A Jibóia a contrariar a sua natureza, preferindo um abraço fraterno ao sufoco mortal
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A Jibóia a contrariar a sua natureza, preferindo um abraço fraterno ao sufoco mortal OLHOS A ZUMBIR

Jibóia era Óscar Silva, homem munido de guitarra, teclados baratos e uma enormidade de pedais que transformavam, reverberavam, distorciam o som criado. Jibóia, o de Badlav e de Masala, os álbuns anteriores, cruzava geografias, com ênfase no Médio e Extremo Oriente, para criar música onde a noção de psicadelismo — vertente rock — ganhava dimensão de rave cósmica — hipnotizados, dançávamos, intrigados e deslumbrados com aquele novo mundo que nos era revelado. Mas Jibóia, apesar do início solitário, nunca se quis exilar em si mesmo. A abertura a outros sons teve rapidamente correspondência na procura de quem acrescentasse outros temperos sonoros à sua música, já de origem bem condimentada. Sequin foi cantora em Badlav, enquanto o baterista Ricardo Martins e Jonathan Saldanha (HHY & The Macumbas, entre outros), este enquanto guia e produtor, foram presença marcante em Massala. OOOO nasce, portanto, desse desejo de encontro. A Jibóia a contrariar a sua natureza, preferindo um abraço fraterno ao sufoco mortal.

Tudo começou com uma residência nas Damas, a sala lisboeta na Graça. Foi ali que, durante quatro concertos em Abril e Maio de 2017, Óscar Silva se juntou novamente a Ricardo Martins (Lobster, Pop Dell’Arte, entre mil outras colaborações) e ao saxofonista Mestre André (O Morto, Notwan). Encontros exploratórios em que, perante um mote sugerido por cada um dos músicos, o trio se entregava à descoberta, entre o combo jazz cósmico e as delícias oníricas do psicadelismo. OOOO é o que aconteceu depois disso, ou seja, é o registo em estúdio do que frutificou da residência nas Damas.

Inspirados pela ideia de Harmonia das Esferas de Pitágoras, segundo a qual cada corpo celeste emite uma vibração — o som de todas elas reunidas resultará numa eterna sinfonia celestial —, criaram quatro peças que, mais que obras concretizadas, ouvimos como pedaços de um trabalho em construção. Isso é evidente em Diapason, a primeira. As notas distendidas, orientais, diríamos, os timbalões a ribombar em cadência lenta, um lugar que se começa a apresentar perante nós, mas que não chegamos a ver realmente — como se, definidos os seus contornos, faltasse colocar alguém a habitá-lo. Diapente, por sua vez, está vivo, vivíssimo: tarola a fazer roda de dança tropical, a linha de baixo a entontecer os sentidos, os teclados distorcidos a conduzir-nos ao Cairo de Islam Chipsy e o sax a enlear-se livremente nele enquanto uma voz faz uma qualquer invocação que desconhecemos — Diapente é música de dança primitiva e tecnologia moderna, é electro chaaby, roda de samba e free hazz, é a Jibóia a mostrar-se em nova dança, tão misteriosa quanto atraente.

OOOO, que terá também saxofone troando como raitas magrebinas em Diatesseron (tema que é antecâmara para algo que, tal como em Diapason, não se revela verdadeiramente), e que termina com os quinze minutos de Topos, peça na qual como que se reúnem num só corpo as experiências que a antecedem, é, de certa forma, Jibóia pela metade. Nasceu da liberdade de um encontro em palco. Em disco, deixou preservado um vislumbre parcelar do que terá sido a viagem completa. É bom (e Diapente é mesmo muito bom), mas não é tudo.