Crítica

Promessas perigosas

Um filme que precisaria de outro director para fazer justiça a um guião intrigante, entre film noir e Black Mirror.

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Formado na escola da televisão britânica, Steven Knight é um dos argumentistas mais requisitados dos últimos anos (só nos últimos meses vimo-lo creditado em coisas tão diferentes como de Mulher que Segue à Frente e A Rapariga Apanhada na Teia de Aranha). Lançado pelos guiões de Estranhos de Passagem, de Stephen Frears (que lhe valeu a nomeação para o Óscar), e de Promessas Perigosas, de David Cronenberg, é também criador das séries televisivas Taboo e Peaky Blinders e autor do muito estimável Locke, a crise de meia-idade de Tom Hardy durante uma viagem de carro. Serenidade é a sua terceira aventura na realização e a maneira mais simpática de a descrever é, muito simplesmente, como um falhanço desnecessário: é um argumento extremamente inteligente e bem montado que precisaria de um realizador com outra tarimba e outra abordagem para fazer um grande filme.

À superfície, é um film noir moderno onde um homem em fuga ao seu passado (Matthew McConaughey), reconvertido em capitão de pesca numa ilha tropical, vê o passado vir ter consigo sob a forma de uma femme fatale (Anne Hathaway) que é também a sua ex-mulher, hoje casada com um gangster violento. Os lugares comuns estão lá todos, mas Knight desde o princípio que faz questão de assinalar ao espectador que mesmo o recurso aos clichés do género não é assim tão evidente. Sem entrar em spoilers específicos, quando Serenidade entra pela toca do coelho fá-lo com um golpe de asa que está algures entre o Truman Show de Peter Weir e o recente fenómeno da série Black Mirror, Bandersnatch sem nunca perder de vista a dimensão de filme negro que faz parte integrante da sua concepção.

O problema é que Knight teve o argumento e teve o elenco que quis, mas mesmo assim falha o filme em parte porque não tem a argúcia visual que, por exemplo, um David Fincher traria à história; em parte porque a sua formação “realista” nunca consegue criar de modo convincente a ponte para a “suspensão da descrença” exigida pela história. O que fica é uma experiência falhada, que merece ser notada pela ousadia de que faz prova num momento em que os estúdios só querem mais do mesmo, mas que decepciona precisamente por não ser capaz de cumprir as suas promessas.