Não se passa nada no teatro de Annie Baker (e isso é tudo)

Pedro Carraca reincide numa das vozes mais entusiasmantes do teatro norte-americano de hoje: Annie Baker. Os Aliens, em cena no Teatro da Politécnica, é uma peça de vencidos, num lugar que não existe.

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JORGE GONCALVES
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JORGE GONCALVES

Shirley, pequena cidade no estado do Vermont, não existe. Bem se pode aplicar uma lupa sobre qualquer mapa da região que essa localidade com nome de mulher não há-de aparecer. A menos que estejamos dentro do universo ficcional da dramaturga Annie Baker, cuja escrita é tão intensamente ancorada na realidade que, mesmo sem existência concreta, Shirley se mostre igual a milhentas outras pequenas cidades perdidas e esquecidas na imensidão do mapa dos Estados Unidos. De certa maneira, também esses lugares não existem, são invisíveis para o exterior, não contam nenhuma história extraordinária, são habitados por gente anónima, cujos sonhos dificilmente resistem ao tempo e morrem ao virar da esquina. Gente que vai e vem, sem que ninguém dê por isso.

Só que são estas vidas, de uma sufocante banalidade, que Annie Baker elegeu para a sua matéria teatral. Sobretudo para abastecer as quatro peças situadas em Shirley que se tornaram a base para um dos mais elogiados universos do teatro contemporâneo norte-americano. Depois de Body Awareness, The Circle Mirror Transformation e antes de Nocturama, Baker estreou em 2010 Os Aliens, a mais celebrada criação deste conjunto de peças, que lhe valeu o seu primeiro momento de grande reconhecimento público, e que os Artistas Unidos, numa encenação de Pedro Carraca, apresentam no Teatro da Politécnica, em Lisboa, entre 23 de Janeiro e 2 de Março. Já antes, em 2017, Carraca tinha levado à cena O Cinema, um texto mais recente de Baker.

O Cinema (The Flick, no original), que lhe valeu o Pulitzer para Teatro em 2014 e atirou o nome de Annie Baker alguns valentes degraus acima na escada da afirmação do seu nome na dramaturgia norte-americana de hoje, mudava a acção do Vermont para um pequena sala de cinema em Worcester, Massachussets, e centrava-se nos três empregados do espaço, entregues ao tédio da manutenção da sala entre sessões e às mais variadas funções na poupança da carteira capitalista à medida que o público decrescia. Era uma peça com o vazio colocado bem no centro da sua acção. Tal como acontecia já com Os Aliens. Só que enquanto em O Cinema ainda havia o “movimento performático” constante da limpeza para ajudar a preencher esse vazio, admite o encenador, agora, a braços com um par de marmanjos de 30 anos entregues a longos silêncios e a uma absoluta falta de vontade de inscrição no mundo (mesmo à mais modesta escala), o desafio é ainda maior.

Tanto assim que Pedro Carraca, no início dos ensaios, estava apreensivo e receoso do resultado da empreitada em que se meteu. “O campo dos silêncios é-me muito menos natural conseguir fazer bem do que as cenas com muita acção”, confessa. “Sinto-me muito menos à-vontade a trabalhar o vazio do que a encher.” Annie Baker também não lhe faz a vida fácil. Logo nas notas iniciais da peça, a dramaturga indica que “pelo menos um terço – senão metade – desta peça é silêncio”, especificando que “as pausas devem ter a duração de, pelo menos, três segundos”, enquanto “os silêncios devem durar entre cinco e dez segundos”.

E é logo por um longo silêncio que Os Aliens começa, enquanto habituamos os olhos às figuras de Jasper e KC. O primeiro, de fato-de-treino e sandálias, fuma como fumará sempre, sem pressa e sem esperar nada daquele dia; o segundo, meio estendido sobre a mesa e as cadeiras de plástico das traseiras de um cafezito qualquer, bebe chá, ergue a voz para cantarolar um rascunho de canção e, depois, os dois lá trocam umas palavras – sobre um parque eólico, sobre uma ex-namorada, tudo discutido de forma superficial, só para enganar a falta de assunto e ajudar o tempo a passar. É dia 2 de Julho, quase tempo para a exaltação do grande sonho americano. KJ acha que estão ainda em Junho. E tanto um como outro estendem-se ao sol, gozando vidas em que nada acontece, dois falhados à luz desse fogo-de-artifício de celebração da terra das oportunidades que não tardará a iluminar o céu.

Um pedaço de papel no bolso

“Sendo esta uma realidade muito americana”, diz-nos Pedro Carraca, “é também uma realidade que identifico com uma data de gente da Damaia com quem me dei enquanto crescia. Em termos algo diferentes, mas que continuaram a tocar guitarra na praceta, a falar dos tempos em que eram agarrados à heroína, parados numa certa adolescência.” KJ abandonou a universidade, Jasper não terminou o liceu. E diante de Evan, um miúdo no final da secundária, ainda não corrompido pela completa falta de ambição e pela desistência de procurar fazer alguma coisa com a vida, lembram os tempos da sua banda de adolescência – que teve “uns cinquenta nomes”, como Hieronymous Deboche, Homens-Rã, Apertos de Mão Frouxos ou Os Aliens. Os Aliens por causa de um poema de Bukowski, autor com o qual Jasper mantém uma relação obsessiva.

Inspirado por Bukowski, aliás, Jasper ainda se abalança à escrita de um livro que deixará inacabado, talvez mais confortável com a ideia de ser um génio ignorado do que ter de passar pela decepção de se ver confirmado como um completo falhanço pelos padrões de sucesso da vida contemporânea. Também KJ, de resto, culpa um professor de liceu por lhe ter “dado cabo da vida”, arranjando um bode expiatório prático para a estreiteza dos seus horizontes. Pedro Carraca desconfia – Baker não o explica – de que esse terá sido o professor que “a puxar por ele e a levá-lo a seguir para a universidade”. E que, portanto, terá impulsionado KJ para uma queda de uma altura maior, mais desamparada e castigadora na mais desmaiada realidade.

Se Jasper desata a escrever depois de a ex-namorada lhe ligar a avisar que começou a sair com outro tipo, KJ faz do seu grande plano de vida a mudança de cenário, elaborando uma lista de possíveis destinos, listados num “pedaço de papel amarrotado e empapado” que guarda dentro do bolso. É um daqueles grandes projectos que sempre acompanham estas figuras que se eternizam no tédio e na inacção, habitualmente poeira atirada para os próprios olhos e de quem mais que esteja por perto. Parece, uma vez mais, KJ a culpar o lugar onde vive pela sua vida esvaziada, a chutar para o exterior a responsabilidade pelo seu destino. Pedro Carraca vê, ainda assim, uma nota de esperança nesta réstia de vontade própria. Mesmo que KJ, pouco depois, deposite a guitarra de Jasper nas mãos de Evan, o puto, e o incentive a fazer o seu caminho. Como se o dele tivesse já terminado.

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